Sem um plano de vida você não tem um ideal que te norteie, você não sabe quem você quer chegar a ser, e portanto você não tem sequer como julgar as suas próprias ações – Olavo de Carvalho

“Para começar as nossas práticas, eu desejaria passar a vocês um exercício que já experimentei em outros cursos e que tem os efeitos pedagógicos mais notáveis. Primeiro vou explicar a vocês como é o exercício, e depois dar a justificação. Esse exercício é absolutamente obrigatório.

(…) Cada um de vocês vai supor que morreu, e que você é um amigo seu, uma pessoa que o conheceu e que irá escrever o seu necrológio. (…) Você vai supor que durante a sua vida você realizou o melhor de si, e que todas as suas aspirações mais altas foram realizadas de alguma maneira. Não digo suas aspirações mais altas em termos sociais, mas em termos humanos: você vai supor que você chegou a ser quem você sonha ser. (…) Ou seja, você vai contar sua vida ideal. Isso tem de ser feito com extrema sinceridade e seriedade: você vai mostrar para você mesmo quem você quer ser. É claro que essa imagem muda ao longo do tempo; o seu projeto de vida vai sofrer muitas alterações, aprofundamentos, correções e, sobretudo, amputações. Mas isso não interessa. O que interessa é que ele vai ser a imagem que vai te orientar durante toda a sua vida.

Uma das coisas mais estranhas e, aliás, deprimentes que eu já observei na sociedade brasileira é que pouquíssimas pessoas fazem um plano de vida. Sem um plano de vida você não tem um ideal que te norteie, você não sabe quem você quer chegar a ser, e portanto você não tem sequer como julgar as suas próprias ações. Porque esse ideal de vida — esse personagem ideal que expressa aquilo que existe de melhor em você — é o que julga as tuas ações e te orienta. E, sobretudo, se você é religioso, é esse personagem que fala com Deus. Não adianta você falar com Deus desde os teus andares mais baixos, porque Deus se recusa a ouvir. É só o melhor em você que pode falar com Deus. E, para quem é católico e tem a prática da confissão, é essa parte melhor de você que faz a confissão. É ela que julga você moralmente, que se arrepende e que se corrige.

Se você não tem uma visão muito clara desse ideal do eu, você se permitirá ser julgado por outras instâncias. Você será julgado, por exemplo, pelos teus medos, pelos teus preconceitos, pelo falatório de um grupo de referência incorporado no teu subconsciente pela audição contínua; em suma: você estará em pleno estado de desorientação moral. De todas as vozes que falam dentro de você, você só pode permitir que uma te julgue, uma te corrija e uma te oriente, e essa uma tem de ser a parte mais alta, que é o único interlocutor que Deus aceita.

A finalidade técnica e filosófica deste exercício, desta prática do eu ideal, se tornará mais clara para vocês à medida que o tempo passe. Não há nenhuma outra maneira — nenhuma outra — de você alcançar um mínimo de orientação moral nesta vida.

Essa imagem do eu ideal é o único critério que você pode ter para alcançar algum dia algum tipo de objetividade no julgamento de si mesmo. Sempre me surpreendeu o fato de, no Brasil, em geral as pessoas não terem um plano de vida. Por tantos anos as pessoas se acostumaram com uma vida social tão instável que acabaram se prendendo no imediato, porque não conseguem ter uma perspectiva de vida inteira. Mas nós temos que vencer isso, e não podemos seguir no estado de dispersão e caos do resto da sociedade.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 001, 14/03/2009.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: