A filosofia como profissão universitária – Olavo de Carvalho

“Eu considero que a filosofia, quando se constitui como profissão universitária na universidade medieval, abre chance para um progresso formidável da técnica filosófica. Mas a profissão tem suas exigências internas. A profissão é um fenômeno sociológico por si mesmo, e a estrutura desse fenômeno sociológico é inteiramente independente da constituição da filosofia enquanto disciplina e forma de vida; não há coincidência entre as duas coisas. Se você observar as várias fórmulas sociais em que se apoiou a prática da filosofia ao longo dos tempos, você verá que é uma coisa bastante variada. A filosofia começa como uma espécie de clube de aficionados, reunidos em torno de Sócrates, Platão e Aristóteles, e as primeiras universidades se constituem exatamente assim. (…) São pessoas que estão interessadas no conhecimento e que se reúnem e chamam os professores que lhes parecem os mais adequados para orientá-los. À medida que a instituição vai crescendo, porém, ela tem certas exigências sociais, econômicas, estruturais, burocráticas, etc., que são determinadas pelo estado da sociedade em cada momento e não pelas exigências internas do estudo da filosofia, de modo que, ao longo do tempo, isso pode se tornar bastante conflitivo.

Durante o período do idealismo alemão, por exemplo, o estatuto do professor universitário na Alemanha era quase equivalente ao de um ministro de Estado — o professor era um sujeito que falava em nome do Estado alemão. Eu tenho a impressão de que, não fosse isso, a filosofia de Hegel não seria o que é. Porque Hegel é eminentemente o pensador que fala em nome do Estado alemão e que, de certo modo, o personifica historicamente. Naturalmente havia ali uma espécie de compromisso implícito de valorizar esse Estado e, de certo modo, fazer dele a expressão e culminação de dois milênios de atividade filosófica, e é exatamente isso o que faz Hegel na sua filosofia do Estado. Mas se o Estado alemão tivesse essa importância filosófica essencial, ele deveria ter surgido antes na História. Ou seja, o que você tem ali é uma espécie de confluência entre duas linhas de desenvolvimento histórico totalmente independentes: por um lado você tem toda a tradição da especulação filosófica e, por outro, você tem a formação de uma nação moderna. Uma coisa não tem absolutamente a ver com a outra, mas essas duas linhas se cruzam num certo momento, e isso influencia o próprio conteúdo da filosofia de Hegel, constituindo uma espécie de um viés subjetivo sociologicamente condicionado. Do mesmo modo, confluências idênticas se observam em uma série de filosofias modernas, onde as exigências burocráticas e sociológicas da instituição chamada universidade acabam por influenciar o próprio conteúdo da filosofia, sem que na maior parte dos casos o filósofo proceda a um exame crítico dessa situação. O resultado é então bastante estranho, porque surgem filosofias que se desenvolvem e crescem independentemente de uma consciência clara das condições sociológicas que a geraram e a determinaram — e isso em filosofia é coisa imperdoável.

Ao longo de toda a atividade de Sócrates, a coisa que ele mais faz é precisamente examinar as condições sociais e políticas imediatas nas quais ele vive e nas quais se desenrolam aqueles diálogos. Em cada diálogo socrático ele está consciente da sua posição social e da de cada um de seus interlocutores, e a meditação dele começa justamente a partir da constatação desta realidade social que eles estão vivendo. Se, decorridos 2400 anos, aparecem filosofias cujos autores ignoram, nos conteúdos dessas mesmas filosofias, as condições sociais que as geraram e que determinaram as suas formas, então nós tivemos não um progresso, mas um atraso.

Na instituição universitária moderna, por exemplo, existe uma distinção puramente administrativa entre os departamentos de Ciências, Letras, Psicologia, Administração Pública, etc., e o filósofo exerce uma determinada atividade dentro desse quadro. Esse quadro delimita o conteúdo do que ele pode e não pode dizer, ou delimita pelo menos o programa do seu curso. Então o que é que ele tem que fazer? Qual seria a obrigação número um do filósofo? Começar por meditar esse mesmo quadro sociológico dentro do qual ele está trabalhando e analisá-lo criticamente — e isto praticamente jamais se faz. Esses filósofos aceitam a delimitação profissional burocrática das suas atividades, e continuam desempenhando os seus papéis como se estivessem em uma peça de teatro, onde os vários personagens são assinalados para os vários atores, que precisam então agir como se fossem mesmo esses personagens. Você jamais viu, por exemplo, durante uma encenação de Hamlet, Hamlet parar a peça e reclamar dos salários dos atores. A circunstância social na qual se desenrola o espetáculo de teatro não faz parte do espetáculo; são coisas absolutamente separadas. Não se vê um maestro interromper o concerto para discutir problemas funcionais da administração do teatro ou da vida sindical dos músicos, por exemplo, justamente porque o mundo artístico e do showbusiness remete a um universo ficcional que é absolutamente separado das circunstâncias sociais reais nas quais o espetáculo se desenvolve. Nesse sentido, o exercício da filosofia hoje em dia parece mais com um espetáculo de teatro do que com a filosofia no sentido em que ela foi inaugurada por Sócrates.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 1, 14/03/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: