A técnica filosófica é a técnica de você converter os conceitos gerais em experiência existencial efetiva, e vice-versa – Olavo de Carvalho

“Ontem mesmo eu estava conversando com um amigo, que me dizia que o Alan Keyes estava um pouco perplexo por ter lido que eu considerava Nietzsche um filósofo de segunda ordem, e queria saber por que eu pensava assim. “Muito simples,” eu respondi, “Nietzsche, apesar do seu talento absolutamente formidável, jamais dominou a técnica filosófica.” Meu amigo então perguntou: “Mas o que é a técnica filosófica?” E eu disse: “Também é muito simples. A técnica filosófica é a técnica de você converter os conceitos gerais em experiência existencial efetiva, e vice-versa.” Se você não sabe fazer isso, quando você está no mundo dos conceitos você só raciocina sobre coisas que não existem, e quando você está no mundo da existência você não compreende mais nada. Ou seja, por um lado você tem uma experiência opaca e caótica, e por outro lado você tem uma estrutura conceitual que não tem relação efetiva com a sua experiência real.

Quando, por exemplo, Michel Foucault escrevia no livro Vigiar e Punir sobre o sistema opressivo em que vivem as pessoas, etc., e saía dali para um clube de sadomasoquismo para levar chicotada, como é que ele relacionava uma coisa com a outra? Se eu participasse de um clube de sadomasoquismo por dez minutos, eu teria o que pensar filosoficamente pelo resto da minha vida, porque eu teria feito uma tal confusão que eu teria um tema para especular por toda a vida. Foucault parece jamais ter pensado filosoficamente sobre isso. Se ele apreciava tanto ser oprimido, intimidado, etc., então por que ele achava tão horrível que a sociedade tivesse um sistema de intimidação? Essa seria a primeira pergunta que eu faria: “Se eu gosto tanto de apanhar, por que eu reclamo que as pessoas batem umas nas outras?” É um tema óbvio, mas você não verá em toda a obra do Michel Foucault uma única meditação séria sobre esse ponto.

Nos diálogos socráticos, por outro lado, é constante a referência de Sócrates à sua própria experiência e à experiência vital dos seus interlocutores. Ele os conhece pessoalmente, sabe de onde vieram, conhece o pai e a mãe de cada um, e sempre raciocina a partir disso. Ora, certa vez, na Universidade de Brasília, o meu amigo José Osvaldo de Meira Penna fez um teste com os seus alunos em aula de filosofia política, e perguntou a que classe social eles pertenciam. Eram todos filhos de burocratas (Brasília é uma cidade que só tem burocrata), mas eles responderam tudo — burguesia, proletariado, clero, tudo — menos burocracia. Ou seja, era uma classe inteira de estudantes universitários que ignoravam a sua própria classe social e que, no entanto, tinham uma série de opiniões sobre a estrutura de classes, a luta de classes, e assim por diante. Aí a alienação já começa a se tornar uma coisa cômica, e evitar essa comédia é justamente o nosso objetivo aqui.

(…) Uma leitura que eu vou indicar  é o livro do Paul Friedländer sobre Platão [Plato: an Introduction. New York: Harper and Row, 1958]. É um grande livro, que marcou três ou quatro gerações de estudiosos de Platão. Qual é o segredo do Friedländer? Ele reporta as idéias à experiência. Ele busca as circunstâncias específicas, concretas e humanas, em que certas questões ocorreram a Sócrates e Platão, e mostra como eles interpretaram e trabalharam a sua experiência para dela tirar os conceitos filosóficos que eles iriam discutir depois. Descobrir a substância experiencial (não “experimental”) dos conceitos filosóficos é praticamente tudo. Isso é o próprio método filosófico. E é um esforço imenso, não só de ordem intelectual como também de ordem moral e psicológica. Muitas vezes será preciso buscar as raízes dos conceitos filosóficos em experiências internas que você teve vinte ou trinta anos antes: é todo um trabalho anamnético, de autoconhecimento e auto-análise, e o que estraga a filosofia são justamente as pessoas que não sabem fazer isso. Porque quem não sabe fazer isso usa os conceitos filosóficos como fetiches, como se fossem coisas em si mesmas, entrando num verbalismo desenfreado onde elas nunca sabem do que estão falando e jamais admitem ser cobradas neste sentido. São pessoas que têm medo: como não têm substância humana nem experiência da vida, mas apenas aquilo que leram nos livros, elas nunca sabem do que os filósofos estão falando. Elas sabem o que o filósofo falou, mas não a que isso corresponde na realidade, e portanto o que elas dizem não tem substância de realidade, mas apenas substância verbal escolar.

Eu me lembro que, quando eu estava no ginásio, o professor de geometria disse que um ponto não media nada, e que uma reta se compunha de pontos. E eu perguntei: “Mas professor, se o ponto não mede nada, o senhor pode juntar quantos pontos queira que não vai dar para formar reta nenhuma. Como é que se faz a reta?” E o professor? Ficou bravo comigo. Ou seja, ele estava pensando em ponto e reta sem jamais ter examinado que raio de coisa eles são. Você pode até dizer que ponto e reta são convenções, mas toda convenção tem algum motivo para ter sido fixada. (…) E qual é a razão por trás disto? É apenas a facilidade didática? Se fosse só isso, isso que Euclides inventou seria apenas uma brincadeirinha besta para ficarmos usando como joguinho mental.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 001, 14/03/2009.


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