Fonte da autoridade em matéria de conhecimento – Olavo de Carvalho

“Uma das características básicas da investigação filosófica é a busca, não do que nós chamaríamos propriamente de certeza, mas da confiabilidade máxima. Isto é, você quer obter uma visão clara a respeito dos conhecimentos que você já tem, que permita levar esses conhecimentos a um grau de confiabilidade máxima possível. Observando os diálogos de Sócrates, nós vemos que essa confiabilidade máxima, que ele procura através do exame crítico dos conhecimentos que se lhe oferecem, é uma confiabilidade que é capacidade de prova — ele está procurando algo que possa ser provado, “validado cientificamente”, por assim dizer — mas que ao mesmo tempo e inseparavelmente é algo que ele, enquanto indivíduo concreto, pode acreditar e no qual ele pode basear as suas decisões e a sua vida. Isso é absolutamente fundamental, e distingue esse conhecimento socrático de qualquer coisa que hoje se tenha como conhecimento confiável.

Hoje em dia, aquilo que posa publicamente como fonte da autoridade em matéria de conhecimento é um negócio que se chama “ciência”. Para encerrar uma discussão qualquer, é só dizer que a ciência provou isso ou aquilo. Mas acontece que a pretensão da ciência a ter uma autoridade pública é incompatível com a própria natureza da investigação cientifica. O que é exatamente uma investigação científica? Para inaugurar um novo setor de investigação científica, o cientista separa, isola um certo campo de fenômenos, baseado na hipótese de que esses fenômenos são regidos por uma uniformidade interna. Ele observa alguma uniformidade externa, supõe que por trás dela há uma uniformidade interna logicamente expressável sob a forma de uma hipótese científica explicativa ou descritiva, e em seguida se esforça para encontrar essa unidade interna dos fenômenos, de modo que em grande parte a atividade cientifica é tautológica: o que determina o recorte dos fenômenos é a hipótese de que eles obedecem a uma certa uniformidade interna, e o que determina a investigação científica é a busca dessa mesma hipótese unificadora. Isso equivale a dizer que nenhuma ciência investiga propriamente a realidade concreta, mas apenas um recorte hipotético, que em seguida deve ser confirmado mediante a investigação da mesma hipótese. De certo modo, nós podemos dizer que a ciência é um jogo de cartas marcadas. Às vezes o jogo não funciona, mas o ideal é que ele funcione.

(…) Sócrates acreditava que era possível alcançar um conhecimento mais fundamentado do que a mera opinião, e esse conhecimento constituiria a fonte da autoridade intelectual, não só por ser mais fundamentado e mais racional do que a mera opinião, mas porque constituía algo no qual ele — Sócrates, enquanto pessoa concreta — poderia acreditar.

Este problema do “acreditar” é hoje colocado entre parênteses. O indivíduo que leciona uma disciplina científica, de ciências humanas ou mesmo filosofia, não precisa acreditar no que ele está dizendo como pessoa real. Ele precisa apenas desempenhar o seu papel social na frente dos alunos. Se ele, na vida real, acreditar em coisas totalmente diferentes, isso não vai fazer a menor diferença. Só que isso tira do conteúdo do discurso dele toda a substância efetiva, e transforma tudo em verbalismo, auto-exibição e teatro, e isso é exatamente o contrário do que é a filosofia. Nós não podemos tolerar isso de maneira alguma. Nós só podemos aceitar como conhecimento aquilo no qual nós não apenas temos o fundamento intelectual suficiente para acreditar, mas no qual nós podemos ter a sinceridade da crença, a sinceridade da admissão. É preciso que você aceite aquilo que está dizendo com a totalidade da sua pessoa e desde o centro mesmo, senão não vai funcionar. Ou seja: evitar a pantomima, evitar o teatro, evitar o desempenho de papéis sociais — essa é a nossa primeira obrigação.

(…) A autoridade intelectual hoje em dia é representada por uma comunidade de profissionais que subscrevem coletivamente determinadas crenças. Isso não significa que nenhum deles individualmente, concretamente, tenha de acreditar naquilo que está dizendo, porque ele não acredita naquilo como um ser humano concreto, mas apenas como um profissional. Isso significa que ele pode agir na sua vida de maneira contrária ao que ele está afirmando publicamente, e isso não interferirá em nada na validade pública do que ele está dizendo. Por exemplo, se um cientista acredita que o aquecimento global é causado por ações humanas, mas, ao mesmo tempo, ele mesmo pratica essas ações humanas que produzem o aquecimento global, nós podemos criticá-lo do ponto de vista moral, mas cientificamente isto não significa nada. O fato de o sujeito agir ao contrário do que a teoria dele diz em nada depõe contra a teoria. E essa é precisamente uma das características da ciência moderna, tal como é entendida geralmente no meio acadêmico. Ela não implica nenhuma crença verdadeira; ela só implica a crença sob o aspecto profissional. Mas se é assim, isso significa que os resultados dessa ciência não têm verdadeira importância existencial para a pessoa que a pratica, e portanto têm pouco valor de orientação para o cientista na vida real.

Isto é exatamente o contrário do que Sócrates procurava. Sócrates procurava um conhecimento que não apenas fosse racionalmente fundamentado — e, portanto, intrinsecamente mais crível do que os outros conhecimentos —, mas que tivesse uma importância existencial efetiva para ele próprio. E esta síntese inseparável da consciência pessoal com o conteúdo do conhecimento é exatamente o que define a filosofia. Se você romper essa síntese, e fizer da filosofia uma atividade acadêmica como qualquer outra, que você pode apenas ensinar na universidade mas na qual você não acredita pessoalmente, a sua especulação filosófica será tão superficial para a sua consciência quanto uma investigação científica é para o praticante da ciência. Isso fará dela uma atividade intelectualmente secundária, de segundo plano, que embora possa ter alguma validade social, não terá jamais autoridade intrínseca para julgar os outros conhecimentos.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 001, 14/03/2009.


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