A consciência é a única entidade da qual você não pode falar na ausência dela – Olavo de Carvalho

“Há duas correntes aqui nos EUA que vivem discutindo o assunto: uma acredita que o cérebro produz a consciência — e os seus adeptos não reconhecem que não têm a menor ideia de como o cérebro faz isso — e a outra diz que não é preciso cérebro nenhum. Segundo esta última, a consciência seria como um programa de computador, um software que você pode botar em vários hardwares diferentes sem que isso faça a menor diferença. Mas por que então eles não tiram uma consciência de um hardware cerebral e colocam em outro? Porque não dá pra fazer! Eu não sei do que essas duas correntes estão falando.

Agora, eu tenho um critério quanto a esse problema da consciência: a consciência é a única entidade da qual você não pode falar na ausência dela. Por exemplo, eu posso falar de elefantes sem que haja elefantes aqui; posso falar de república, embora esteja vivendo em uma monarquia, ou vice-versa; posso falar de um crime na ausência do criminoso, e sem que eu mesmo cometa qualquer crime — mas eu não posso jamais falar da consciência sem estar exercendo a minha consciência neste mesmo momento. E, se eu falo da consciência, eu estou falando da minha consciência, que está em atividade neste mesmo momento, e estar em atividade consiste precisamente em você estar consciente dela. Ou seja, a consciência é uma coisa que está sempre consciente de si mesma.

Quando eles dizem, portanto, que vão investigar a natureza da consciência, na verdade eles vão investigar apenas as supostas causas da consciência. Mas nós não podemos descobrir as causas de uma coisa que nós nem sabemos o que é. Por outro lado, através do exercício, e da contínua contemplação da consciência pela consciência, você acaba sabendo o que ela é, e acaba sabendo até que a pergunta pela causa da consciência não faz o menor sentido. Quando eu falo da minha consciência, eu sei que preciso estar consciente neste mesmo momento. A minha consciência se intensifica quando eu raciocino e reflito sobre ela. Nesse momento eu não estou consciente de certas coisas apenas, mas estou consciente de estar consciente delas, e isto, de certo modo, lança uma luz ainda mais intensa sobre o objeto.

Agora, se eu quero pensar sobre a minha consciência, mas ao mesmo tempo eu imagino que ela é produzida pelo meu cérebro, então eu já me desviei da minha consciência e estou pensando em neurônios, sinapses, etc. Acontece que os neurônios e as sinapses também funcionam quando você não está consciente — eles não têm nada a ver com a consciência. Isso quer dizer que eu não posso estar consciente de mim mesmo e estar, ao mesmo tempo, imaginando que isso é uma atividade cerebral. Porque o cérebro é uma coisa física, que você pega na mão, e não uma atividade cognitiva. Nós dizemos que ele é a sede da atividade cognitiva, mas ele em si não é uma atividade cognitiva, de modo que se você, ao pensar em consciência, começa a pensar em cérebro, você imediatamente muda de assunto. Já não é mais em consciência que você está pensando, e sim em cérebro. Você pode até falar em consciência ao mesmo tempo em que você a encara como atividade cerebral, mas você não pode representar a sua consciência para si mesmo no mesmo instante em que você raciocina sobre ela como atividade do cérebro.

A outras atividades humanas isso não se aplica. Imagine, por exemplo, um sujeito praticando corrida, e ao mesmo tempo pensando sobre a anatomia e a fisiologia do movimento. Isso vai atrapalhá-lo? De maneira alguma: quanto mais consciente ele estiver do aparato físico que produz o seu movimento, melhor esse movimento será, e mais adequados serão os seus gestos. Mas, no caso da consciência, ao pensar no seu substrato físico você imediatamente baixa de nível. A sua consciência, enquanto atividade, deixa de estar presente a você. Somente o substrato físico permanece presente, e a sua reflexão sobre a consciência acaba nesse mesmo momento.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 001, 14/03/2009.


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