A literatura é a expressão direta e mais completa do imaginário – Olavo de Carvalho

“Todo conhecimento humano começa primeiro como percepção, depois como memória e imaginação, e só depois ele se estabiliza em conceitos verbalizáveis sobre os quais você pode raciocinar. O conhecimento implica em uma série de conversões de uma coisa em outra. Com o material básico dos sentidos nós não podemos lidar porque ele não é transportável. Se cada vez que eu fosse falar de um elefante eu precisasse estar vendo um, eu teria que ter um elefante no jardim para poder olhá-lo de novo. O que nós fazemos é conservar na memória uma forma esquemática à qual damos o nome de elefante, e em seguida nós raciocinamos sobre esse termo e sobre o conceito implícito como se eles se aplicassem a um elefante de verdade. Aplicam-se? Às vezes sim, às vezes não, porque o conceito de elefante não é feito da mesma matéria que compõe o elefante. A entidade real tem a sua própria estrutura, a sua própria composição, real e efetiva, que não pode ser transposta na íntegra para um conceito. Todo elefante que existe, por exemplo, está em algum lugar a cada momento, mas o conceito de elefante não está em parte alguma. Para lidar com o conceito, de tal modo que as conclusões obtidas sobre ele se apliquem a um elefante real, é preciso fazer sempre uma série de conversões, pois do contrário você se perderá no puro abstratismo. Você criará uma definição, raciocinará sobre ela e acreditará que ela se aplica ao objeto, mas não somente o objeto possuirá inúmeros outros componentes que não fazem parte da sua definição, como a própria definição poderá estar errada também.

Este senso do concreto e do abstrato é um elemento básico do método filosófico, e é justamente isso que muita gente não tem. As pessoas tiram conclusões de frases e acreditam estar falando sobre a realidade. As frases são instrumentos para você raciocinar, mas a conexão delas com a realidade tem de ser recomposta, e isso às vezes requer muito mais frases ainda. Por que você perde coisas, na transposição da experiência para o conceito? Porque você não expressou a experiência corretamente: você a expressou de maneira parcial, truncada ou, pior ainda, a trocou imediatamente por um nome.

Isso quer dizer que a expressão da experiência é o começo de todo conhecimento humano. Deve-se procurar expressar a experiência, a partir da memória, de tal modo a criar uma forma mental que possa ser repetida tão logo as mesmas palavras sejam ouvidas. O que é isso? Isso é a arte literária. Sem esse domínio da linguagem sob seu uso literário, não há mais nada. É por isso que a educação deve começar com a linguagem e com a literatura: sem isso não vai. E quando a literatura decai, tudo decai. Hugo Von Hofmannsthal dizia que nada está na política de um país se não estiver primeiro em sua literatura. Como na atual literatura brasileira não há nada, na política também não há nada. A literatura é a expressão direta e mais completa do imaginário; as outras artes não podem chegar a uma expressão tão completa assim.

A linguagem em uso no Brasil sofreu uma série de mudanças, que a transformaram em uma geringonça difícil de usar para a descrição da realidade. A língua pública está tão carregada de estereótipos, de jargões e de slogans que praticamente já não serve mais para falar da realidade, mas apenas para expressar aquilo que você quer que o outro pense. São as famosas três funções da linguagem do Karl Bühler: (a) a função nominativa, que é dar nome às coisas e descrever a realidade; (b) a função expressiva, que é expressar seus sentimentos e experiências; e (c) a função apelativa, que é a linguagem usada para influenciar a cabeça do outro. No Brasil, atualmente, só existe a função apelativa: todo mundo só fala para influenciar a cabeça das pessoas.

Há pelo menos cinquenta anos a nossa produção literária não acompanha a experiência real das pessoas. A nossa literatura não tem mais nada a ver com a realidade, e é formada praticamente só de estereótipos. A função básica do escritor, do literato, do poeta ou do romancista é colocar a experiência individual e coletiva à disposição de toda a sociedade, para que essa experiência seja o material básico desde o qual tudo se discute. Esse mundo imaginário é a primeira, mais simples e imediata síntese que se faz da experiência. Se não tem este material, os conceitos que são usados na descrição da realidade já não refletem a experiência real. Refletem, às vezes, experiências reais de outros povos que você ingenuamente imagina serem semelhantes às suas, de modo que se você raciocina desde esses conceitos, você começa a falar do vizinho acreditando estar falando de si mesmo. Isso é um desastre cultural fora do comum.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 1, 14/03/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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