A técnica da confissão – Olavo de Carvalho

“Essa ligação muito íntima, essa quase identidade entre a autoconsciência mais pessoal e o conhecimento no seu sentido mais universal e científico é um elemento básico da tradição filosófica desde Sócrates. Isso se torna particularmente claro com Santo Agostinho. (…) Santo Agostinho está tentando responder a certos problemas filosóficos, mas ele percebe que entre ele e as elevadas questões filosóficas que ele está colocando existe um intermediário. Ou seja, ele não está enfocando esses conceitos filosóficos tal como um anjo olharia as ideias platônicas: ele é um ser humano real, e ele sabe que entre esse ser humano real e as ideias universais da filosofia existe um hiato. Nós não temos um conhecimento direto dessas ideias universais como tem Deus ou como têm os anjos. Nós só temos, na verdade, o conhecimento das coisas concretas e imediatas, que fazem parte da nossa vida e que são o tecido da nossa experiência diária, e nós procuramos por trás delas conceitos universais que as articulem e as expliquem. Esses conceitos universais, por sua vez, só chegam até nós de uma maneira obscura e confusa, “como num espelho obscuro”, como dizia São Paulo Apóstolo.

Agostinho nota, portanto, que a inteligência dele não parece ser um órgão totalmente apropriado para aquelas grandes questões que ele está colocando, e ele se pergunta o que o separa da inteligência universal capaz de apreender essas grandes realidades de uma maneira mais nítida e mais clara. Ele então percebe que o que o atrapalha — aquilo que está no meio, como um espelho opaco — é constituído pela sua própria personalidade. Essa personalidade é cheia de temores, de preconceitos, de autoengano, e ele percebe que ele precisa limpar esse espelho antes de poder enxergar alguma coisa claramente. Então ele empreende essa obra magna que são as Confissões.

As Confissões são um gênero literário que ele inventa. Não que não existissem autobiografias antes (para os interessados, eu sugiro a obra clássica de George Misch, História da Autobiografia na Antiguidade). Antes de Agostinho houve uma série de gêneros autobiográficos, mas esses gêneros não nos trazem a presença de uma pessoa real tal como as Confissões de Santo Agostinho. No Egito, por exemplo, era enterrada junto com o Faraó uma narrativa da sua vida; mas essa narrativa mostrava somente os grandes feitos que ele tinha realizado como chefe de Estado e as virtudes das quais ele se imaginava o portador, porque essa era a imagem que ele queria transmitir aos deuses. Os erros, os pecados, as vergonhas, todos os micos que ele pagou ao longo da vida eram suprimidos, e aparecia somente a parte bonita. Do mesmo modo, as autobiografias greco-romanas são autobiografias de personagens públicos, que contam a vida pública de Júlio César ou Marco Túlio Cícero, por exemplo, e nelas não há esta voz pessoal que você observa nas Confissões de Santo Agostinho.

É claro, por outro lado, que as Confissões não são somente um livro autobiográfico: as Confissões são um livro de filosofia da mais alta qualidade. E o segredo é que Agostinho percebeu a raiz do conhecimento filosófico no autoconhecimento, tomado no sentido da confissão cristã. Você não vai ao confessionário para contar as grandes coisas que você fez, mas para contar justamente aquilo que você jamais contaria em público, e é exatamente isso que Santo Agostinho conta em público.

(…) Aí então há três aspectos. Primeiro, o conhecimento filosófico a que ele aspira. Segundo, o estado real da individualidade concreta, com toda a sua miséria, sua ignorância, seu esquecimento, seu autoengano, etc. Terceiro, e entre os dois, há a narrativa, que é feita, por sua vez, perante um quarto personagem: o observador onisciente, o ouvinte onisciente ao qual Agostinho se revela.

Porém, como esse observador é o próprio Deus, Agostinho sabe que não está contando nenhuma novidade. Ele sabe que aquilo que ele está contando na sua autobiografia, embora jamais tenha sido contado para ninguém, não é ignorado totalmente. Por quê? Porque é algo que existe na realidade, e a realidade, tomada no seu conjunto, é o que está na mente de Deus, é o que Deus sabe. Quando nós não sabemos a resposta de uma pergunta, nós dizemos que “só Deus sabe”, querendo dizer que a resposta não faz parte do nosso conhecimento, mas faz parte apenas da realidade, e que portanto só é conhecido por Aquele no qual conhecimento e realidade não são distintos. A realidade, na sua totalidade, é o quê? É a Inteligência de Deus, é a Memória de Deus, etc. À medida que Agostinho conta, então, a sua vida para esse ouvinte onisciente, ele vai descobrindo coisas que ele mesmo não havia percebido antes, porque eram coisas que estavam apenas na realidade e não na sua consciência. Isso quer dizer que o indivíduo que conta sua vida para Deus está, na verdade, pedindo a Deus que conte a vida dele para ele mesmo. Agostinho fala com Deus, não no sentido de dizer alguma novidade para Deus, mas como quem diz: “Revele a minha vida para mim mesmo. Você sabe mais do que eu, você viu o que eu pensei, você viu o que eu escondi, você viu os meus segredos, você sabe tudo a meu respeito; então eu conto o pedacinho que eu sei e você me mostra a imagem integral.”

Esse confronto entre a experiência individual e o observador onisciente é a própria base da filosofia. É exatamente isso que o próprio Sócrates fazia. Ele colocava as questões da vida real, sua e dos seus interlocutores, em face da inteligência divina, e permitia que essa inteligência divina fosse mostrando a ele e aos demais aquilo que eles não tinham percebido no começo, de modo que eles acabam descobrindo que eles não têm como conteúdo cognitivo somente aquilo que está na sua consciência num momento dado, mas que existe todo um depósito infinito de conhecimento ao qual eles têm acesso mediante a pergunta sincera feita de si para si mesmo. 

Ora, toda essa parte da autoinvestigação está hoje totalmente excluída da filosofia. Se você entrar na faculdade de filosofia e disser que está lá buscando autoconhecimento, todos vão rir da sua cara e te mandar procurar um grupo de autoajuda, de psicoterapia, ou um padre, um rabino, ou algo assim. “Nós não estamos aqui para resolver os seus problemas pessoais”, eles dirão, mas que raio de filosofia nós podemos obter se nós fazemos desde logo abstração da pessoa concreta que está buscando o conhecimento? Só pode sobrar uma encenação, o desempenho de um papel burocrático determinado por circunstâncias alheias ao próprio processo filosófico.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 1, 14/03/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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