A filosofia não é uma disciplina escolar que você possa aprender tal como você aprende outras disciplinas – Olavo de Carvalho

“A filosofia não é uma disciplina escolar que você possa aprender tal como você aprende outras disciplinas, simplesmente assimilando o legado de conhecimentos e de descobertas que as compõem. A filosofia realmente não é assim. Para você compreender, por exemplo, a história da biologia, você não precisa ser um biólogo de maneira alguma, pois as investigações e conclusões dos biólogos ao longo do tempo compõem um estado de coisas na ciência atual que pode ser assimilado por mera informação. Você não precisa praticar a biologia para entender aquelas coisas. Mas no caso da filosofia realmente não é assim. A aquisição da cultura filosófica é sem dúvida um elemento importante no estudo da filosofia, mas eu não creio que ela ocupe mais de 10% do território.

A transformação da filosofia em uma disciplina acadêmica é uma coisa que, em parte, ajudou, e foi bastante útil em algumas épocas da história. Eu assinalaria três períodos memoráveis da história das universidades: (a) logo na sua fundação, por volta do século XIII, em que a universidade medieval alcança um período de florescimento extraordinário; (b) no tempo do idealismo alemão, entre o fim do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, até mais ou menos a morte de Schelling; e (c) a universidade austríaca nas primeiras décadas do século XX, justamente no período em que ali estudavam o Eric Voegelin e o nosso Otto Maria Carpeaux. São três momentos memoráveis da história da universidade, mas que infelizmente são antes a exceção do que a regra. Em geral, o que você vai ver nas universidades, mesmo nas melhores, é a estabilização de uma rotina burocrática, onde o amor ao conhecimento praticamente desaparece e onde tudo o que interessa é cumprir obrigações regulamentares. Mesmo que essas obrigações regulamentares sejam de alto nível, o que frequentemente acontece, o simples cumprimento delas não colocará você na pista do que é efetivamente a filosofia, porque a filosofia é uma prática pessoal e de grupo, ela não é uma ciência no sentido de ser um conhecimento teorético que está registrado. A filosofia é ao mesmo tempo uma tradição e uma prática pela qual essa tradição é continuamente recuperada, restaurada, e pela qual ela vai adquirindo a sua continuidade ao longo dos tempos. O ensino da filosofia consiste em inserir você nessa tradição e nessa prática, não em lhe transmitir certos conhecimentos. A transmissão de conhecimentos está ali e é absolutamente indispensável, mas ela é — asseguro a vocês — apenas 10% do trabalho.

A essência do ensino da filosofia é a intensificação do seu trabalho de apropriação de si mesmo como portador de conhecimento, ou seja, é um trabalho que se faz especialmente na consciência do indivíduo. Trata-se de uma intensificação, uma ampliação e um fortalecimento da sua consciência, e por isso mesmo esse tipo de exercício é extremamente importante, porque ele vai confrontar você com a realidade da sua vida.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 2, 21/03/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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