A importância do testemunho solitário – Olavo de Carvalho

“Existem certos dados, certos elementos, que estão em você objetivamente, e que só você sabe. Isso ficará mais claro em exercícios posteriores que eu vou passar, onde a prática do autoexame mostrará que em certos momentos você é a única testemunha de certos fatos que se passaram, porque você mesmo foi o autor desses fatos e não havia mais ninguém em volta para lhe dizer o que estava acontecendo. Qualquer testemunha de um fato é ela própria a portadora dos motivos de certeza de que esse fato aconteceu. Suponha que você está na rua e vê um sujeito matando o outro; eram três horas da manhã, estava escuro, não havia mais ninguém ali e só você viu o crime. Não há nenhum outro elemento que possa ajudar a dizer quem foi o assassino; só você pode fazer isso. Esse seu testemunho é a base do conhecimento objetivo do que se passou ali.

Não confundam, portanto, esse conhecimento individual solitário com o “subjetivo”. Subjetivo é aquilo que depende do arbítrio individual. Se um indivíduo mata outro, e você vê o que aconteceu, é claro que a coisa não depende de você, não foi você que a inventou. Há um fato, esse fato se passou em um universo externo, não foi você que fez, não foi você que inventou — e no entanto você é o único portador desse conhecimento.

A importância extraordinária desse testemunho solitário será comprovada ao longo deste curso várias e várias vezes. Tudo o que existe no mundo em matéria de conhecimento depende disso. Mesmo os experimentos científicos, que em princípio podem ser indefinidamente repetíveis, dependem da testemunha solitária, porque esses experimentos terão de ser repetidos por pessoas, e cada pessoa terá de assisti-los por si mesma. Ela não pode perguntar a uma outra qual é o resultado do experimento, porque aí deixaria de ser um experimento e passaria a ser um testemunho de terceiro. (…) A validação da experiência científica depende do depoimento de cada um dos que a repetiram, e portanto a base última é estritamente o testemunho individual.

(…) Mais importância ainda isso adquire em função de fatos que não podem ser repetidos — fatos de ordem histórica, por exemplo. Digamos que o seu exército perdeu uma certa batalha, e que há uma investigação para saber quem foi o culpado. A comissão de inquérito pergunta então a você que ordens, precisamente, você recebeu do seu superior. Não há nenhum documento escrito — no calor da batalha não dá tempo de passar as ordens por escrito — e portanto tudo vai depender do seu depoimento, do que você disser sobre o que exatamente o coronel te mandou fazer. Hoje, por exemplo, nós sabemos mais ou menos por que Napoleão se deu tão mal na batalha de Waterloo. Ele deu uma determinada instrução para um general, que por sua vez a entendeu de certa maneira, e por causa disso deu um desastre. Nós podemos reconstituir isso mentalmente, mas não podemos fazer com que a batalha se repita para ver se o general comete o mesmo erro de novo; nós dependemos inteiramente de quem estava lá e nos contou o que viu. Se você fizer as contas, você verá que a quase totalidade dos conhecimentos humanos depende exclusivamente desse tipo de coisa.

Se não nos adestrarmos para nos tornar testemunhas fidedignas do que nós assistimos, vivenciamos e fazemos, todo o universo da filosofia estará fechado para nós — como um cofre forte do qual se perdeu a chave e o segredo, e que, se você estourar com dinamite, as riquezas que estão lá dentro serão destruídas também. Então é absolutamente fantástico que tantas pessoas acreditem poder estudar filosofia sem terem antes se adestrado nesse ponto.

Ao ler os diálogos socráticos, você vê que Sócrates convoca o tempo todo os seus interlocutores a serem testemunhas de si mesmas. Quando você emite uma opinião, em resposta à uma pergunta dentro de um diálogo filosófico, supõe-se que você está reproduzindo fidedignamente o que você pensou e percebeu — mas você tem certeza que fez isso? Quantas vezes nos acontece de querer dizer uma coisa, não conseguir, e então dizer outra parecida? Da onde nós tiramos essa outra parecida? Nós tiramos da linguagem coletiva que nos rodeia. Todos nós raciocinamos com palavras que são de domínio público e uso coletivo, que não foram inventadas para servir às nossas finalidades em particular, e que, o que é pior, já foram usadas milhões de vezes para dizer coisas que não são aquelas que nós estamos querendo dizer — e então nós apelamos às frases feitas.

As frases feitas constituem mais da metade do nosso vocabulário, e elas dizem aquilo que elas dizem, não aquilo que nós queremos dizer. Nós nos vemos então em uma circunstância muito constrangedora, sobretudo quando os focos geradores das frases feitas são relativamente poucos e enormemente repetitivos, como acontece hoje. Hoje, apesar de você ter variadas fontes de informação, nós sabemos que quem molda a linguagem pública são três ou quatro meios de comunicação: a Rede Globo, a Folha de São Paulo, a USP. É essa a linguagem que temos, e essa linguagem foi feita para repetir um certo universo de idéias, crenças e percepções que podem não coincidir em nada com aquilo que você está querendo dizer. E então você, usando termos inapropriados, tenta se expressar, mas pode acabar dizendo algo diferente do que você queria dizer, e aí o seu testemunho não vale mais nada.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 002, 21/03/2009.


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