Para a prática da filosofia isto é algo absolutamente essencial: aprender a distinguir entre o que foi que você viu e o que foi que a cultura o ajudou a reter – Olavo de Carvalho

“Nós estamos o tempo todo colocando questões da maneira como nós a recebemos dos meios de comunicação, e frequentemente nós nem sequer percebemos que essas maneiras não expressam o que nós mesmos estamos querendo saber, mas nos colocam, por assim dizer, dentro de uma outra conversa — você quer conversar sobre alguma coisa, mas só existe repertório para participar de uma outra conversa. Na filosofia isso é imperdoável, porque qualquer questão colocada de tal maneira que os seus termos estejam fora do eixo da situação real em investigação só vai levar a conclusões estapafúrdias, ou vai se multiplicar em perguntas e mais perguntas, de modo que tudo se torne absolutamente irrespondível, e você tenha que no fim resolver a coisa por uma decisão arbitrária sua.

Como a filosofia parte destas questões públicas, então ela parte de elementos culturais que já estão consolidados, e a absorção desses elementos culturais é fundamental. Notem que nem sempre esses dados culturais chegam até nós como questões filosóficas — eles chegam como experiências humanas, como crenças coletivas, como símbolos incorporados na linguagem etc. —, mas é a cultura que nós temos. E aí há um detalhe particularmente espinhoso: não é possível formular as questões filosóficas desde a experiência direta e simples do homem comum, justamente porque a expressão que este homem comum pode dar a estas questões e às suas opiniões é bastante inadequada. Você precisa ter uma experiência cultural já elaborada de algum modo.

Lembrem-se que Aristóteles dizia o seguinte: Nós não conseguimos raciocinar a partir dos dados dos sentidos; é preciso que esses dados se incorporem na memória e se cristalizem em certas imagens repetíveis. São essas imagens repetíveis que têm nomes. Os nomes não são os nomes das coisas que você percebeu, mas das imagens delas consolidadas na memória. Se você pegar a palavra “elefante”, por exemplo: “elefante” é o nome daquele elefante que você viu no zoológico? Não, elefante é o nome da imagem estabilizada que se conservou na sua memória. Então já existe um triplo trabalho: existe o trabalho de percepção, existe o trabalho de retenção na memória, e existe o trabalho de produção da imagem estabilizada — notem que você não consegue recordar tudo o que vê, e que você não consegue pensar a respeito daquilo que não recorda. Esse recordar é a produção de uma imagem: você a cria, com base naquela experiência direta que você teve. E por fim, existe um quarto trabalho, que é o da extração de um conceito verbal dessa imagem: você vai dar um nome àquilo, e vai ter uma definição aproximada do que você acha que é aquele negócio. É com estes elementos que nós vamos pensar, e não com os elementos originários da própria experiência.

Acontece que a própria experiência sensorial é estritamente individual — ninguém vê com os seus olhos, ninguém ouve com os seus ouvidos e ninguém toca os objetos com as suas mãos; cada um o faz com as próprias — mas na transposição disto para a memória já existe a intervenção do elemento externo de ordem coletiva. Nós retemos mais facilmente imagens de objetos dos quais já vimos alguma representação (alguma figura desenhada, alguma fotografia etc.), porque nós fazemos analogias. Mas se você está vendo um objeto que você jamais viu representado, jamais viu desenhado, jamais viu fotografado, você vai ter que fazer o serviço inteiro, e aí já não é tão fácil. Isso quer dizer que na simples passagem da nossa percepção para a nossa memória, já existe a intervenção de um elemento cultural. Isso quer dizer que, daquilo que você viu e percebeu pessoalmente, você vai reter com mais facilidade aqueles mesmos elementos que já foram enfatizados nas imagens fornecidas pela cultura. E aí já existe uma interpretação. Aí você já tem uma distinção a fazer entre o que foi a experiência direta, e o que foi a transformação daquilo em imagem de memória com a ajuda dos elementos culturais fornecidos. Ora, você teve a experiência direta, e você tem os análogos culturais com os quais você tenta expressar — não verbalmente, mas expressar para si mesmo através da sua memória — o essencial daquela imagem que deseja reter. Mas como aí já houve uma interpretação vinda de fora, essa interpretação pode não ser exatamente a que confere com a sua experiência pessoal. Aí já há um elemento de tensão entre a experiência direta e as formas culturais que você usa como elemento auxiliar para reter essa experiência na memória.

Ora, esses análogos culturais que você recebe podem ser perfeitamente adequados àquilo que você deseja reter, mas podem não ser. Nesse caso há uma tensão, e nessa tensão quem sempre sai perdendo é você. Porque a força dos elementos culturais é muita: você viu as coisas de uma certa maneira, mas como na cultura que você está elas costumam ser representadas de outra maneira, forma-se uma discussão entre você, que está falando sozinho, e uma plateia que fica falando ao mesmo tempo e que sufoca a sua voz. Então você acaba recordando não aquilo que viu, mas aquilo que as imagens consolidadas na cultura lhe permitem.

Para a prática da filosofia isto é algo absolutamente essencial: aprender a distinguir entre o que foi que você viu e o que foi que a cultura o ajudou a reter. E aí você vai ver que às vezes existem abismos. Só que para isso, você vai precisar aprimorar a sua linguagem de maneira que você consiga expressar a experiência tal como ela realmente apareceu. Quando você vai se expressar em palavras, as palavras também vem de fora — elas também são elementos culturais consolidados que você recebe — e você vai ter que aprender a manejá-las de tal modo que elas digam o que você quer, e não o que a cultura em torno habitualmente permite que você diga.

A aquisição de uma linguagem pessoal é o elemento fundamental para você conseguir ser fiel à sua experiência direta, em vez de simplesmente repetir o que a sociedade ensinou a dizer a respeito daquelas coisas. Esta dificuldade entra em cena antes mesmo da expressão verbal. Quando você vê, por exemplo, o que se passa em uma sessão de hipnose, onde as palavras do hipnotizador fazem o paciente recordar não aquilo que ele viu, mas aquilo que o hipnotizador sugeriu, você percebe como é fácil separar uma pessoa da sua experiência real e colocar dentro da memória dela uma experiência substitutiva. Mas não é preciso uma hipnose para que você passe por isso; nós passamos por isso frequentemente. Na maior parte dos casos, isso não é um problema, porque a cultura em torno não está a fim de te sacanear, e os elementos que ela te fornece realmente te ajudam a expressar para você mesmo o que você viu. Mas quando há um antagonismo, o antagonismo é decidido em favor da cultura e não em favor da individualidade. E se acontece isso, a sua atividade filosófica acabou naquele mesmo momento, porque você não pode refletir com clareza partindo de elementos de experiência que já são falsificados e alterados.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 002, 21/03/2009.


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