A transmissão das experiências humanas através da literatura – Olavo de Carvalho

“Se coincidiu de você nascer num meio onde há uma literatura muito rica, então você tem, somente nessa literatura, acesso a uma galeria infindável de experiências humanas. Algumas muito peculiares e difíceis de expressar, mas que uma vez expressas são incorporadas na cultura e tornam-se de domínio comum. Isso não quer dizer que tenham que ser experiências dificilmente acessíveis.

Por exemplo, quando o Flaubert escreveu Madame Bovary, mostrando o imaginário de uma mulherzinha medíocre, idiota e sem graça, mas que se achava no direito de ter um episódio romântico maravilhoso, essa não é uma experiência tão inacessível: nós sabemos que as mulheres chatas, tediosas e sem graças imaginam que podem ter acesso a experiências românticas muito interessantes, e que não lhes ocorre pensar que a personalidade delas mesmas é incompatível com isso. Só que este tipo se incorporou no nosso imaginário através de Madame Bovary, e nós, quando vemos pessoas assim, sabemos que estamos na presença da mesma. Claro que a pessoa pode ter outros aspectos nos quais ela se distingue de Madame Bovary, mas além destes aspectos elas são a própria Madame Bovary. Ou o Raskólnikov — o estudantezinho pobre, todo ferrado, que acha que é um gênio, que acha que pode mudar o mundo e que, no entanto, vê a sua miséria, sua pobreza, sua impotência. Ele começa a ficar revoltado e acha que pode fazer uma violência para mudar a situação. Hoje nós conhecemos esse tipo, e nos recordamos dele facilmente por causa do Raskólnikov de Crime e Castigo — e assim por diante. Se há uma literatura rica em torno de você, então você tem uma infinidade de experiências humanas, e depois de você ter absorvido muitas delas você pode combiná-las para expressar coisas que você viu, mas que não coincidem com nenhuma delas. Uma pessoa que você conhece, por exemplo, pode participar simultaneamente do drama de Raskólnikov e de Madame Bovary. A mesma pessoa que é Madame Bovary por um lado, pode ser o Raskólnikov por outro.

Mas e quando você não tem isso? Quando a literatura é pobre, ou os hábitos vigentes de leitura não lhe permitem o acesso a este mundo de experiências? Então você vai ter que inventar tudo por conta própria, e aí fica muito mais difícil. Você vai ter que ser Flaubert, Dostoievski, Cervantes, todo mundo ao mesmo tempo. É precisamente isto o que as pessoas tentam, e elas jamais conseguem.

Isso quer dizer que a absorção deste legado literário e artístico é absolutamente fundamental para lhe dar os materiais com que mais tarde você vai raciocinar filosoficamente. Quanto mais experiência humana previamente elaborada pela cultura você absorver, mais fácil será você trabalhar filosoficamente esses materiais. Trabalhar diretamente da experiência bruta é impossível. E trabalhar diretamente de uma experiência já simplificada e até deformada pela cultura de massas também é impossível. Isso quer dizer que se tudo o que o indivíduo tem é o que ele vivenciou efetivamente — ou seja, a sua experiência real, mais os elementos simbólicos fornecidos pela TV e pelos jornais — ele está lascado. Ele nunca vai poder raciocinar sobre a realidade — nunca, nem uma vez. Tudo o que ele pensar vai ser falso. Ele não está totalmente desligado da realidade, mas tem com a realidade uma relação analógica, parecida com a realidade, e isso é que o pior de tudo, porque é uma ilusão, embora parecida.

(…) Ora, na situação concreta onde começa esse curso, nós estamos especialmente mal equipados, porque até o idioma que nós falamos está horrivelmente viciado — não estou falando de erros de gramática, mas do deslocamento entre linguagem e experiência. Para começar, literatura brasileira não existe mais. Isto quer dizer que não há na sociedade brasileira presente um número suficiente de pessoas trabalhando a experiência individual e coletiva e transformando-a em símbolos culturais que possam ser trocados. Quando um país tem muitos escritores bons, eles estão continuamente captando a experiência real, transfigurando-a em símbolos culturais que são assimilados pelas pessoas e transformando-se, por fim, numa espécie de moeda com a qual elas trocam experiências. Elas dialogam umas com as outras usando os elementos que aprenderam, os símbolos que assimilaram da literatura e que permitem que elas reconheçam em si mesmas e nos outros uma infinidade de experiências internas e externas, fazendo com que seja possível um encontro verdadeiramente humano entre essas pessoas.

A ausência disso é semelhante a uma cultura que ainda não tem uma moeda. E isso torna as coisas bastante complicadas. Quando não há elaboração cultural suficiente da experiência, nós estamos no regime do chamado escambo, trocando coisas por coisas. É um negócio atrasado, não vai funcionar, a troca não tem velocidade nem eficiência. Se para prover a necessidade dessa moeda você usa a moeda que a mídia e a chamada “cultura popular” estão colocando em circulação, o que você está fazendo é trocar papel pintado por papel pintado. É como inflação: o dinheiro não vale. Os símbolos que não trazem consigo uma experiência genuína, uma recordação da experiência genuína ou a recriação da experiência genuína são como um dinheiro que não vale, que não tem lastro nem bens para garanti-lo.

É essa precisamente a situação em que nós estamos. Faltam os símbolos culturais para um verdadeiro intercâmbio e, em compensação, há no lugar deles uma multidão de pseudo-símbolos, de estereótipos, que não apenas não transmitem a verdadeira experiência como a encobrem. Essa é uma situação peculiar. A primeira coisa que nós podemos fazer para vencer essa situação é absorver o que houve de literatura genuína em outras épocas e tentar atualizá-la.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 002, 21/03/2009.


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