A conquista da sua própria voz para expressar a verdade – Olavo de Carvalho

“A conquista da sua própria voz é um elemento básico do seu contato com você mesmo, e portanto é um elemento fundamental da busca do conhecimento, porque se não há veracidade na sua atitude interior de busca pelo conhecimento, não haverá veracidade no conteúdo do que você encontra — ainda que, por coincidência, você encontre uma verdade. É aquele negócio que dizia Spinosa: não se pode dizer que é verdade quando um louco, em pleno dia, diz que é dia. Você não sabe nem por que ele disse isso. Ou seja, não basta dizer a verdade no sentido de uma sentença objetivamente verdadeira: é preciso que ela tenha uma significação objetivamente verdadeira na situação em que foi dita. Se o sujeito pergunta que horas são e você responde “E=MC2”, o conteúdo do que você disse é verdadeiro — mas está totalmente falseado na situação, e isso não adianta.

Ajustar a sua própria voz, primeiro no seu diálogo interior e depois na expressão exterior, garante que você poderá lidar com os materiais genuínos da sua experiência. E você poderá então adquirir essa coisa que é uma delícia: saber que você sabe alguma coisa, ainda que você não possa provar essa coisa para ninguém. Normalmente nós desistimos das coisas que não podemos provar para ninguém e só ligamos para as verdades públicas, que são aceitas como tais por todo mundo, mas isso é o contrário da filosofia. Na filosofia, as melhores coisas que você vai saber são aquelas que você não vai conseguir contar para ninguém. Você vai ter certeza delas, e não será uma certeza de crença, subjetiva, mas uma certeza de testemunha.

Nós estamos em uma época tão idiota que as pessoas acreditam que tudo aquilo que só um sujeito pode saber é subjetivo, e só é objetivo aquilo que todo mundo pode confirmar ao mesmo tempo. Ora, qualquer coisa que todo mundo possa confirmar ao mesmo tempo jamais é uma verdade: é apenas um recorte esquemático que simboliza remotamente uma verdade. A verdade, para ser verdade, tem de ser verdade na realidade. Por exemplo: eu vi um sujeito matando outro. Onde está a verdade disso? Está no próprio fato. Você está assistindo a um crime verdadeiro, praticado por um assassino verdadeiro, sobre uma vítima verdadeira. A verdade está ali. Quando você narra isso, você está se reportando a uma verdade primária que você conhece. Aquelas coisas que podem ser verificadas por todo mundo só são verificadas logicamente, não por experiência genuína.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 002, 21/03/2009.


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