A lógica nada tem a ver com a realidade – Olavo de Carvalho

“É preciso meter na cabeça de uma vez por todas que lógica nada tem a ver com realidade. O mundo da lógica é o mundo da possibilidade, é o esquema da possibilidade. A lógica só lida com relações hipotéticas entre frases possíveis. Você pode fazer um livro inteiro de lógica sem colocar uma única frase que se refira a qualquer coisa da realidade. Aliás, os livros de lógica simbólica fazem exatamente isso: “Se x=b e y=b, então x=y”. O que é “x” e o que é “y”? A que elemento de realidade eles se reportam? A nenhum, absolutamente. E você pode construir um livro inteiro de lógica só com frases desse tipo. O número de relações possíveis entre sentenças é limitado, e é disso que trata a lógica, que tem certos tipos de proposições, certos esquemas e certas conexões. É uma coisa limitada, que cabe dentro de um tratado de lógica.

E o mundo? Que tamanho tem o mundo? Quantos elementos tem o mundo? Você não sabe, isso não acaba mais. Isso quer dizer que entre o mundo da realidade e o mundo da lógica você tem a passagem de uma coisa ilimitada para uma esquemática muito limitada. Na maior parte dos casos, a experiência real que você tem não encontrará facilmente — ou talvez não encontre nunca — os seus equivalentes lógicos. E se você ficar com a lógica, você estará jogando a experiência fora. Mais vale uma contradição real percebida como tal e bem expressa do que uma demonstração lógica perfeita que não se refira a nada. Mais vale uma incoerência real do que uma coerência hipotética.

É por isso que o estudo da lógica não deve ser colocado no início da filosofia. No ensino francês, eles colocaram sempre no início a lógica e a psicologia (no sentido de psicologia experimental), e isso acabou é por esterilizar o pensamento francês. A lógica é um negócio perigoso e que faz mal. Você só pode aprendê-la depois que você estiver firme na apreensão da realidade e na expressão da experiência genuína. A lógica não dá alimento ao seu conhecimento, ela só é uma das inúmeras maneiras de você processar os materiais. É uma maneira de processá-los que os simplifica ao máximo, e que por isso pode chegar até fórmulas transportáveis, como, por exemplo, E=MC2. O estudo da lógica não faz parte da alimentação filosófica, mas faz parte do processamento do alimento. E para você processar é preciso que haja algum alimento na sua barriga. Digestão sem comida chama-se úlcera: o estômago começa a digerir a si mesmo. E quando o sujeito começa a fazer isso, fica viciado nesse negócio e não para mais. O cara fugiu da realidade definitivamente, mas quer seus pensamentos todos ordenadinhos e logicamente perfeitos.

Então, a lógica é para mais adiante. No início é preciso um tratamento, um aprendizado da memória, da imaginação e da expressão. É um aprendizado artístico, por assim dizer. Aprender primeiro a ser uma testemunha fidedigna para si mesmo e para os outros.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 2, 21/03/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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