A mídia se tornou uma ferramenta de controle social – Olavo de Carvalho

“O nosso uso da fala e da escrita, no Brasil de hoje, está muito deslocado em relação à realidade da experiência. É como se fosse uma espécie de analfabetismo funcional. Por exemplo, eu leio a mídia brasileira — sou obrigado a ler essa porcaria — e eu dificilmente vejo ali alguma coisa que se refira à realidade. Tudo só se refere aos esquemas jornalísticos consolidados; são notícias esquematicamente idênticas, embora com conteúdos diferentes, publicadas e republicadas todos os dias. Com a experiência jornalística que eu tenho, eu sei que aquilo são como notícias pré-moldadas, é só você trocar os nomes e o endereço das pessoas e fica certinho.

Não são fatos, mas esquemas verbais repetidos, e isso faz um mal para a cabeça humana que você não imagina. Nos últimos 40 ou 50 anos a mídia foi mudando de função, não só no Brasil, mas também no resto do mundo: antes ela tinha uma função de integração social, de tornar os acontecimentos públicos para que as pessoas pudessem conversar, trocar idéias, tomar suas decisões etc. Ela já tinha a capacidade de ser um elemento de manipulação e era usada para isso, só que nos últimos 40 anos ela se tornou só um instrumento de manipulação. A mídia do mundo inteiro praticamente mudou de função. Hoje ela é um instrumento de controle social, e isso aconteceu através da concentração da propriedade da mídia. Aqui nos EUA há dois ou três grupos econômicos que compraram todos os jornais, de modo que todos os jornais falam a mesma coisa, do mesmo jeito, e a notícia que não sai em um também não sai no outro.

No Brasil é a mesma coisa. As empresas jornalísticas são poucas no Brasil, e então você junta três empresários de mídia e eles decidem tudo o que você pode saber e o que você não pode saber. Do ponto de vista da sanidade isso cria uma situação extremamente anormal, extremamente perigosa. Vocês não podem esquecer a definição de neurose do Dr. Müller: “neurose é uma mentira esquecida na qual você ainda acredita”. Você não sabe que aquilo que você lê é mentira, não sabe que tem uma parte faltando, não sabe que o negócio já está todo enviesado para você chegar a uma certa conclusão, e você acredita naquilo como se fosse fato. Poucas pessoas se lembram que aquilo foi escrito por alguém, e que esse alguém tinha um objetivo, e que esse objetivo não era informar você de maneira alguma. Esse objetivo era levar você a acreditar em certas coisas e a tomar determinadas atitudes.

(…) Eu tenho bastante prática de jornal, e vi como os jornais mudaram, sobretudo a partir dos anos 70 e 80. Foi uma coisa medonha o que aconteceu. Hoje, a preocupação de você distinguir o que é narrativa dos fatos, na parte noticiosa, e o que é opinião, nas páginas editoriais, praticamente se inverteu. Hoje em dia você não pode saber a opinião de um jornal pela sua página editorial, porque na página editorial ele vai pegar autores com várias ideias diferentes e botar todas lá, de maneira que a opinião do jornal se dilua. A verdadeira opinião do jornal está na seleção de notícias, na parte noticiosa. Você pensa que encontrou a opinião d’O Globo ou da Folha de São Paulo na página editorial, mas a opinião não está lá: ela está sendo vendida como fato. E às vezes, na parte editorial, o jornal é até capaz de dar a opinião contrária, para fingir que não está querendo manipular ninguém. É uma coisa medonha o que está acontecendo. A confiabilidade da grande mídia hoje é zero — nos EUA, no Brasil, na Europa, em toda parte. Não há mais exceção.

Mais do que nunca, nós precisamos de uma elite intelectual capacitada a informar-se, para ver se no futuro, daqui a 20 ou 30 anos, a gente exerce uma influência firme sobre a mídia e os faça parar com essa putaria, porque o que eles estão fazendo é uma vergonha. As informações mais básicas que você precisa para entender uma coisa são suprimidas em função da impressão que você quer passar.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 002, 21/03/2009.


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