O fundamentalismo voegeliniano – Olavo de Carvalho

“Eric Voegelin definia como fundamentalista (termo ao qual ele dava um sentido bastante negativo) o sujeito que acredita em frases, independentemente do que elas queiram dizer. O mundo está cheio de pessoas assim – que acreditam em frases e estão dispostas a matar e a morrer por elas. Mas a distância que vai entre as palavras e a realidade é bem grande, e, se você não tem ideia de a que aquelas palavras estão se referindo na realidade, então as palavras se tornam fetiches.

(…) O fundamentalismo, no sentido que o Eric Voegelin dá ao termo, é uma das características mais permanentes da nossa cultura. Praticamente, nós estamos discutindo com pessoas fundamentalistas o tempo todo. Elas se apegam a determinadas frases, sentenças, palavras, e se ofendem mortalmente com o que quer que pareça oferecer perigo para esses símbolos tão queridos – como, por exemplo, a palavra “democracia”.

Ontem mesmo eu estava lendo um artigo em que um sujeito dizia que “a democracia, ou é integral, ou é uma farsa”; não pode haver uma “meia democracia”, não pode haver gradação de democracia; a democracia tem de ser “absoluta”, “integral”, “pura”.

Como nós definiríamos uma “democracia pura”? O que é uma “democracia integral”?

Para saber o que é uma democracia integral, primeiro você precisaria saber o que é uma democracia (para uma coisa poder ser integral ou parcial, ela tem de ser algo; o “integral” introduz aí um elemento quantitativo). Antes de quantificar uma noção, é preciso defini-la de forma clara – e não basta uma definição verbal; tem de ser uma definição enunciada em temos tais, que te permita reconhecer o objeto quando ele se apresenta (e note que reconhecer uma democracia é um pouco mais difícil que reconhecer uma vaca, um elefante, uma caixa de fósforos, assim por diante). Então você precisa ter, não só uma definição verbal, mas os critérios de reconhecimento da coisa.

Isso quer dizer que algumas pessoas, quando usam a palavra “democracia”, a estão usando no sentido cheio: aquilo está preenchido de significado e referências ao mundo real, à experiência histórica etc.; e outras a usam como se fosse um fetiche platônico. Você pode ter certeza de que 99,999% dos “adeptos da democracia” estão cultuando um fetiche platônico. Ou seja, não têm a menor ideia do que é a democracia, porque jamais tentaram quebrar a palavra para ver qual é o conteúdo fático, qual é a referência que aquilo tem à experiência real.

Como é que nós sabemos se a pessoa está usando a palavra como um fetiche platônico ou com sentido? Você tem de pegar o contexto no qual o sujeito está usando aquela palavra, o modo como ele a usa, e ver se aquela palavra, usada daquele jeito, pode ser traduzida em termos fáticos ou não. O sujeito que diz “democracia integral” não sabe do que está falando, porque essa expressão não pode ser traduzida em elementos de experiência correspondente. Ela não pode sequer ser definida logicamente!

Por quê? Porque a ideia de democracia, tal como se desenvolveu ao longo dos últimos três ou quatro séculos, com toda a fileira dos teóricos da democracia, que começa com John Locke e vem até John Rawls, é sempre uma ideia de equilíbrio de poderes, o que supõe que esses poderes existem e que, em si mesmos, não são democráticos. Isso é absolutamente fundamental. Se na composição do Estado há um poder executivo, um poder judiciário e um poder legislativo, é o equilíbrio entre eles que forma a democracia. Nenhum deles, isoladamente, pode ser considerado democrático. Se você retirar os outros dois, o poder que sobra se exerce discricionariamente.

(…) Isso significa que a democracia é baseada numa ideia de proporcionalidade. Ora, pode haver uma proporcionalidade integral? A própria expressão é logicamente impossível de definir! Proporcionalidade integral não quer dizer nada: seria 1 sobre 1 igual a 1 sobre 1 – mas isso não é proporcionalidade, é igualdade. Assim, eliminaríamos a noção de proporcionalidade e teríamos a igualdade. Mas isso é a definição do totalitarismo, no qual não há a compensação mútua entre seus vários poderes pois, só há um poder. Se nós abolirmos a diferença entre os termos de uma equação, não haverá mais equação, mas apenas uma unidade.

O conceito de democracia integral expressa apenas um flatus vocis, uma coisa que não quer dizer nada, que não corresponde a nada – nem no plano dos fatos e nem mesmo no plano conceitual lógico. No entanto, aparece um sujeito que acredita em democracia integral – acredita, ama, tem sentimentos em relação àquilo. E ele julga as situações com base nesse conceito de democracia, nessa palavra “democracia integral”.

Isso é o que o Voegelin chamava de fundamentalismo: é pegar um fetiche verbal (que não quer dizer absolutamente nada, nem na esfera fática, nem na pura esfera lógica) e tomar posição em relação àquilo, usar aquilo como um critério para julgar as situações. Isso é fundamentalismo. Com essa breve explicação do conceito voegeliniano para fundamentalismo, acho que vocês entenderam que estão rodeados de fundamentalistas por todos os lados. Fundamentalista é o sujeito que acredita numa frase, independentemente do que ela queira dizer – é a frase em si.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 3, 04/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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