Toda e qualquer regra moral é genérica e universal, e toda situação humana é concreta e particular – Olavo de Carvalho

“Um dos principais problemas da moralidade humana é, tal como enunciado por São Tomás de Aquino: toda e qualquer regra moral é genérica e universal, e toda situação humana é concreta e particular. A transição entre uma coisa e outra não é fácil, porque implica a categorização e a classificação daquele ato e daquela situação em particular dentro do sistema geral dos valores e normas morais. O caminho que vai desde uma situação concreta e particular até uma regra geral é imenso, complicadíssimo, cheio de percalços, e as possibilidades de erros são enormes.

Por exemplo, o segundo mandamento: “Ama a teu próximo como a ti mesmo.” Em primeiro lugar, quem é o próximo? Todas as pessoas são o próximo? Em segundo, o que quer dizer “como a ti mesmo”? Você tem certeza de que você se acertou com relação a você mesmo, no sentido de entender se esse “amar a si mesmo” é um amor-próprio, no sentido em que falava Santo Agostinho, ou se é uma outra coisa?

Santo Agostinho opõe o amor-próprio (amor sui) ao amor de Deus (amor Dei). Mas se o amor-próprio é oposto ao amor de Deus, como pode haver um mandamento de que eu deva amar ao meu próximo como a mim mesmo? Aí você já vê que essas expressões, aparentemente tão simples, têm vários andares. Uma expressão simples como “amar a teu próximo” pode ser bastante complicada.

Eric Voegelin definia como fundamentalista (termo ao qual ele dava um sentido bastante negativo) o sujeito que acredita em frases, independentemente do que elas queiram dizer. O mundo está cheio de pessoas assim – que acreditam em frases e estão dispostas a matar e a morrer por elas. Mas a distância que vai entre as palavras e a realidade é bem grande, e, se você não tem ideia de a que aquelas palavras estão se referindo na realidade, então as palavras se tornam fetiches.

(…) Todo mundo sabe que, para fazer um julgamento justo e verdadeiro sobre o que quer que seja, você tem de articular o particular com o geral: articular aquela situação específica que você está vendo com os conceitos mais gerais que você tenha sobre a verdade no sentido mais universal (ou seja,  a sua concepção inteira do universo). Uma coisa tem de se relacionar com a outra.

Essa operação, que é de ordem tão-somente lógica, já tem as suas dificuldades. Nós acabamos de ver, na primeira parte da aula, que o maior problema da moralidade é justamente este: você pode ter as normas gerais, que você aceita como verdadeiras e justas, mas, nas situações particulares, você não as reconhece. As situações particulares não são facilmente reconhecíveis, enquadráveis e classificáveis dentro dessas normas gerais, ou seja, você não sabe quais são as categorias gerais que se aplicam àquela situação em particular que você está vivendo. Por quê? Porque as coisas não vêm com seus nomes escritos, com suas categorias e seus conceitos lógicos correspondentes. Então, essa simples caminhada lógica entre o singular/concreto e o universal já apresenta problemas terríveis, mas a operação lógica não basta. Por quê? Porque a operação lógica não será feita por um computador, mas por um indivíduo concreto.

Esse indivíduo concreto também tem esses dois lados, ou seja: uma concepção universal na qual ele encaixa o seu ser e se reconhece como um membro de um universo dotado de sentido (e reconhece, nos eventos da sua vida concreta, o sentido universal que ele espera que as coisas tenham, no seu conjunto);  por outro lado, ele tem a sua experiência particular, concreta, do momento. Então, a mesma dificuldade que existe na transição lógica do particular para o universal, e vice-e-versa, existe no aspecto psicológico-existencial. Ou seja, a sua pessoa também está dividida entre aquele ser individual-concreto, que está vivendo esta situação em particular, e aquele outro ser, que tem uma dimensão universal e que sabe mais ou menos quem ele é dentro da ordem geral das coisas.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 3, 04/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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