A imaginação é o que permite que as verdades abstratas que a gente aprende tenham substância na realidade – Olavo de Carvalho

“A imaginação tem uma qualidade extraordinária, por exemplo: quando você vê uma vaca, você só está vendo aquela vaca. Se a vaca é amarela, você não a verá preta, e, se ela for preta, você não a verá amarela. Mas, na imaginação, você pode conceber uma vaca preta que também é a vaca amarela. No pensamento abstrato, você pode pensar o conceito de vaca, mas o conceito de vaca não é sequer uma vaca: é uma definição de vaca. A definição de vaca não dá leite, não muge, não anda no pasto.

Por um lado, você tem a figura concreta, visível, mas que só tem aquela singularidade (não é outra). A vaca magra não pode ser ao mesmo tempo a vaca gorda; a vaca preta não pode ser a vaca amarela; a vaca amarela não pode ser a vaca branca; a minha vaca não pode ser ao mesmo tempo a sua vaca, e assim por diante. Mas, na imaginação, você consegue inventar uma vaca que é tudo isso ao mesmo tempo; você concebe uma vaca que, embora seja visível (você está vendo aquela vaca), não é uma vaca em particular, mas o arquétipo de vaca – é todas as vacas. Quando você lê o Dom Quixote, você não está falando só daquele personagem. Aquelas qualidades irradiam em volta, abrangendo muitas pessoas que têm aquelas mesmas qualidades, de modo parcial. Todas elas estão ali, de certo modo, condensadas no Dom Quixote.

A imaginação é o que permite que as verdades abstratas que a gente aprende tenham substância na realidade. Sem imaginação, nada feito! Por isso que eu insisto que o primeiro treinamento para o exercício da filosofia é ler muita ficção: romance, teatro, poesia etc. Isso é o aprimoramento da imaginação. Vejam muito filme… Se bem que hoje os filmes são todos iguais; praticamente tudo é refilmagem de alguma coisa que foi feita nos últimos quarenta, cinquenta anos. Mas não importa. Eu acho o cinema uma arte limitada. Ela chegou ao seu esgotamento e daí por diante vai se repetir, apenas com aprimoramentos técnicos. Não se pode dizer o mesmo da arte do teatro, da arte da narrativa… É preciso ler muito poesia… Leibiniz dizia que o sujeito que tivesse visto mais figurinhas, mesmo que fosse tudo falso, seria a pessoa mais inteligente. Por quê? Porque teria a imaginação mais rica. A imaginação é feita de figuras (não somente figuras visuais; podem ser acústicas, tácteis etc.) que lhe dão pontos de comparação.

Há pouco eu me lembrava que os alunos que se saem melhor nos exames do mundo são os chineses. Quando você vai ver no que consiste o ensino chinês, é só decoreba. Até para falar chinês, o sujeito tem de decorar cinco mil letras, senão não dá nem para começar. Então, por que a decoreba ajuda, e por que essas pessoas que querem te “ensinar a pensar” só te imbecilizam (como, por exemplo, esse método Piaget, que só forma moleque analfabeto)? É simples: é porque pensar é automático, todos nós sabemos pensar. Nós sabemos pensar como nós sabemos respirar. Você tem um órgão que se chama cérebro, e o cérebro está estruturado de uma tal maneira que funciona sozinho. O que é que falta? Faltam as imagens, faltam os conteúdos para você relacionar. Falta a riqueza de informações, a riqueza de formas.

A diferença entre um gênio e um idiota não é uma diferença de inteligência, propriamente; é uma diferença de memória. Ele tem mais coisas na memória, e ela está mais organizada, quer dizer, ele transita mais facilmente entre as analogias, sabe perceber semelhanças e diferenças.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 003, 04/04/2009.


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