A reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem – Olavo de Carvalho

“O negócio não é você imaginar o que você quer ser, mas é tornar-se aquilo realmente. E o “tornar-se realmente” é tornar-se aquilo na realidade. Mas qual realidade? Uma que nós inventamos? Não; uma que nós recebemos de fora e que é sempre diferente e imprevisível. A imagem do “eu ideal” dá o padrão de unidade a que você quer chegar, mas a diversidade da realidade a cada momento vai te dando os materiais que vão preencher aquilo de substância real. Há um jogo aí entre a unidade da imagem e a multiplicidade das situações.

Existe uma frase de Ortega y Gasset que mostra exatamente o que eu estou falando: “A reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem”. Por um lado, você tem o “eu” que você está sendo, e que tem um “eu ideal” à frente como meta ou objetivo; mas existem os elementos externos, a circunstância, aquilo que você não escolheu, aquilo que de algum modo veio pronto. E isso que veio pronto pode ser tão deslocado em relação à sua situação, que você não sabe como encaixar uma coisa na outra. Reabsorver essa circunstância e fazer com que ela comece a fazer sentido dentro da sua história: esse é que é o negócio.

Nós somos como personagens de um romance que acidentalmente foram parar em outros. Você imagine, por exemplo, Hamlet, o príncipe da Dinamarca, acordando no palácio junto com a Desdêmona, mulher do Otelo. Evidente, ele não sabe o que fazer ali, não está entendendo a situação. Nós estamos constantemente neste estado, exatamente. Nós nos preparamos para viver num certo enredo que nós concebemos, mas, de repente, estamos colocados dentro de outro enredo, que é a circunstância. Às vezes a circunstância reforça aquilo que nós queremos chegar a ser, mas, quando ela é muito heterogênea, muito diferente, ela dissolve esse ideal completamente, e parece que você nem é mais você mesmo. 

Se você escolheu uma certa imagem, certas qualidades a serem incorporadas, então é por esses lados que você quer ser olhado. Suponhamos que você tenha decidido ser como o Dr. Müller: um homem bondoso, que liga para o sofrimento humano, que tem aquela vontade de curar, de aliviar, de enxugar as lágrimas. Mas vamos supor que você esteja no meio de pessoas que não ligam nem um pouco para isso, que nem sabem o que é isso. Não é que elas sejam contra as suas qualidades; elas não percebem as suas qualidades. Elas têm outras expectativas em relação a você, e, se você tenta ser aquilo que você quer ser, elas não entendem. Você é como o personagem que entrou na peça errada. Nesse caso, você terá de fazer uma extensão do seu enredo, para que ele abarque aquela situação específica. Vai ter de fazer uma variação do seu enredo, de modo que a unidade final do resultado predomine sobre a variedade e a confusão das situações externas. Quer dizer, os sub-enredos vão ter de ser inseridos ali com muita inteligência, com uma certa esperteza. Se você rejeitar a situação, o que vai fazer? Vai fugir para o mundo da fantasia? Ou vai abdicar de ser você mesmo e tentar se adaptar à situação? Na verdade, não dá para fazer nem uma coisa nem outra: nós estamos num estado de tensão permanente entre a unidade daquilo a que nós queremos chegar e a variedade das situações, que nos puxam para outras direções que não têm nada a ver com aquilo.

Note que nem sempre elas são antagônicas – quando são antagônicas, às vezes isso até ajuda. Por exemplo, se você quer ser um homem bom, mas pessoas estão te ensinando que você tem de ser mau, isso te ajuda a se definir, porque você diz “não, eu não quero isso”. Mas e se você está no meio de pessoas que sequer percebem se você é bom ou mau? Elas estão interessadas, por exemplo, em saber se você é bonito ou feio, rico ou pobre, inteligente ou burro, popular ou impopular? Essas categorias não se aplicam ao seu sonho, e você está sendo julgado por elas.

(…) Nesse caso, a sua história vai ter de ter um desvio, mas para se emendar lá adiante. Você vai ter de absorver elementos que são totalmente heterogêneos. Se você quiser aliviar essa tensão, aí está acabado, porque essa tensão é a sua vida. Você tem um projeto, um plano, e tem em volta os elementos antagônicos. Às vezes, você pode estar numa situação tão primitiva, que os materiais que você precisa para construir a sua vida ainda não existem – precisam também ser individualmente construídos um a um. Isso pode acontecer. Outras vezes, não é tão difícil assim.


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 003, 04/04/2009.


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