A incapacidade, ou recusa, de pensar na morte imbeciliza o sujeito na mesma hora – Olavo de Carvalho

“Se nós não fôssemos morrer, por que tentaríamos ser alguém na vida? Se você tivesse um tempo infinito, como você poderia chegar a ser alguma coisa? Se é um tempo infinito, não há transição. A transição só pode ser medida porque tem um fim. Dentro da eternidade, não faz sentido falar em transformação. O que seria uma transformação infinita? Uma transformação que nunca acaba. Se a transformação nunca acaba, ela nem começa. A noção de chegar a ser, que é básica para o ser humano, está condicionada ao fato de que nós sabemos que morremos – ou seja, há um enredo, mas este enredo termina.

E é por isso mesmo que é errado fazer analogias da vida humana, da vida individual humana, com a História – falar em objetivo da História, meta da História… Por quê? Porque ninguém sabe quanto tempo a História vai durar. A vida humana tem uma média: você sabe que não vai passar disso. Você pode ter uma expectativa de vida. Como não há uma expectativa de vida da espécie humana, não dá para conceber um futuro histórico, porque esse futuro histórico vai passar também, e depois dele vai ser o quê?  

Nós podemos fazer uma concepção de futuro para nós, individualmente, mas não na História, porque você sabe que você tem um tempo limitado para viver; depois daquele ápice, você vê o fim. E você pode perceber um sentido nisso porque tem um fim, e cria, vamos dizer, uma forma fechada, acabada.

A incapacidade, ou recusa, de pensar na morte imbeciliza o sujeito na mesma hora. Vamos supor que você tenha o plano mais maravilhoso do mundo. Você sabe que tem a chance de viver, digamos, 70, 80, 100 anos. Mas não é certo que você viva tudo isso, então você tira daí,  imediatamente, uma orientação: “Eu não sei se eu vou chegar a ser aquilo que eu queria, mas eu tenho de agir agora como se eu já fosse, porque, se eu morrer agora, fará sentido do mesmo jeito.” É aquele negócio do Viktor Frankl, quando foi visitar a prisão de San Quentin. O diretor, um engraçadinho, disse para ele: “Olha, tem um sujeito aí na câmara de gás, que vai ser executado daqui a meia hora. Você quer falar umas palavrinhas para ele?” Situação horrível, não é? O Frankl falou: “Pois não.” E disse: “Olha, meu amigo, não interessa se você vai viver cinco minutos ou cinquenta anos. Interessa é que o que você faz tem de fazer sentido. Então, você trate de fazer, na próxima meia hora, algo que faça sentido pra você.” Ele não deu moleza para o condenado. E era exatamente o que tinha de falar.

Depois aconteceu que o sujeito recebeu um indulto, não foi executado, e ele disse que aquela coisa que o Frankl falou para ele foi básica. Quer dizer, mesmo que você seja um condenado à morte, alguém que vai morrer daqui a pouco, o que você vai fazer nos seus próximos cinco minutos? Se você for buscar alguma coisa que você ache prazerosa, será pior ainda, porque o prazer vai acabar já, já, e você sabe que vai. Durante todo o tempo da sua curtição, você vai estar desfrutando do prazer, ou vai estar agoniado porque ele vai acabar? Então, não pode ser esse o critério. Tem de ser algo que valha para além da morte, algo que faça sentido, com morte ou sem morte. Essa é a noção do sentido da vida, é a noção do dever, é a noção do dharma hindu.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 3, 04/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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