A consciência e as situações externas – Olavo de Carvalho

“Retomando o tema da aula passada, eu vou ler de novo aquele parágrafo do Louis Lavelle, e prosseguir um pouco mais no texto, para introduzir o que vai ser o tema da aula de hoje. Diz ele:

“Há na vida momentos privilegiados em que parece que o Universo se ilumina, que a nossa vida nos revela sua significação, que queremos o destino mesmo que nos coube como se nós mesmos o tivéssemos escolhido; depois o Universo volta a fechar-se, tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando num caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo aos nossos passos. A sabedoria consiste em salvaguardar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver e fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.”

E continua:

“Não há homem que não tenha conhecido tais momentos, mas ele os esquece depressa como um sonho frágil, pois ele se deixa captar quase imediatamente por preocupações materiais ou egoístas que ele não consegue atravessar ou ultrapassar, porque ele pensa reencontrar nelas o solo duro e resistente da realidade. Mas aquilo que é próprio de uma grande filosofia é reter e reunir esses momentos privilegiados, mostrar como são janelas abertas para um mundo de luz cujo horizonte é infinito, do qual todas as partes são solidárias e que está sempre oferecido ao nosso pensamento e que, sem jamais dissipar as sombras da caverna, nos ensina a reconhecer em cada uma delas o corpo luminoso do qual ela é a sombra.”

Nós temos aqui um jogo permanente, uma dialética permanente. Nós recolhemos todos os dados da nossa vida na unidade da nossa autoconsciência e acreditamos percebê-los todos como um sistema coerente, fundamentado, ordenado e cheio de sentido — tão cheio de sentido que nós o aceitamos, diz ele: “como se nós mesmos tivéssemos escolhido” este destino. Nesses momentos não há hiato, não há separação entre o que é a realidade e a idealidade, entre o que é o fato bruto e empírico e o que seria a escolha racional e livre feita por nós mesmos. Depois esses dois elementos se separam novamente: a nossa consciência, a nossa unidade interior vai para um lado, e o mundo dos fatos vai para o outro, formando então uma oposição.

Essa oposição se agrava porque, no momento em que as preocupações externas, alheias, ou antagônicas à consciência se impõem a ela como se fossem a realidade mesma, a situação momentânea se impõe a você e o oprime, e você presta atenção e respeita essa situação momentânea acreditando que ela é a realidade, no entanto, seu mundo interior é apenas sonho, pensamento etc. Mas é claro que isso é uma gravíssima ilusão de ótica, porque não há situação externa, por mais opressiva ou atraente que seja, que não passe. Todas elas são transitórias, estão continuamente vindo e voltando, entrando e saindo, e continuamente se desfazendo. Se o “solo duro da realidade” consistisse efetivamente dessas situações, então não haveria solidez nem consistência nenhuma, seria um permanente fluxo de aparências — como de fato é. A outra experiência, por outro lado — a experiência da unidade da consciência —, nos remete já a uma outra esfera da realidade, que é mais estável e permanente, de modo que todas as situações que foram vividas, e que lhe pareceram ter uma certa importância no momento em que elas se apresentavam, são todas apenas impressões.

Estas impressões são mais fugidias até do que estes momentos a que se refere o Lavelle, e se nós lhes damos tanta importância, é em grande parte porque elas são a negação de tudo aquilo que nós queremos ser — nós prestamos atenção a essas coisas, respeitamos essas situações, damos importância a elas, por efeito do medo. O seu eu mais interior teme a situação exterior, teme as pressões antagônicas, e então “cai de joelhos”, por assim dizer, diante do inimigo. Nós somos levados a isso por uma covardia, mas em seguida nós tentamos justificar, legitimar retroativamente a nossa covardia, dizendo que “abandonamos o mundo dos sonhos”. Tudo aquilo que nos é mais próprio, íntimo e verdadeiro — tudo aquilo que é mais nós mesmos — é então condenado como se fosse uma ilusão, e as situações passageiras e ilusórias são entronizadas como se fossem a verdadeira realidade.

Esse é o momento em que você traiu a si mesmo, traiu aquilo que existe de mais elevado e mais sério em você mesmo e, automaticamente, você entra então em uma nova posição existencial, na qual a compreensão da sua existência e da própria realidade exterior se tornam impossíveis. Quanto mais você respeita, quanto mais você cultua essas situações exteriores, sejam elas de ordem opressiva ou de ordem mais atraente e sedutora, mais burro você está ficando, mais você está se afastando do centro de sua consciência.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 4, 18/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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