A mais alta seriedade que é acessível ao ser humano é encarar os fatos e situações à luz daquilo que é definitivo e irrevogável, daquilo que não tem mais conserto e não tem mais volta: a morte – Olavo de Carvalho

“Eu desejaria aqui que os alunos deste curso entendessem isso desde o início. É claro que a preparação para o exercício filosófico exige uma quantidade de estudos enorme, mas o principal não é da ordem dos estudos. O principal é da ordem da atitude psicológica, espiritual e moral que você vai ter perante tudo isso, e esta atitude só pode ser definida como a da mais alta seriedade. A mais alta seriedade que é acessível ao ser humano é encarar os fatos e situações à luz daquilo que é definitivo e irrevogável. Daquilo que não tem mais conserto e não tem mais volta: a morte. Não tanto o fenômeno da morte em si mesmo, encarado apenas como um processo biológico, mas a morte encarada como o final das transformações, o final do jogo, em que não há mais um lance a ser dado, não é possível corrigir mais nada ou voltar atrás no que quer que seja.

Nós podemos viver na expectativa de que nos momentos finais da vida nós podemos mudar o sentido da coisa inteira. No caso da religião, por exemplo, se relata o caso do arrependimento no leito de morte. Mas se arrepender no leito de morte é apenas garantir para você um lugarzinho na vida post-mortem, e não vai mudar retroativamente a sua vida nesta terra. O seu destino post-mortem não depende de você em absolutamente nada, mas a forma da sua vida terrestre depende, e depende justamente na medida em que você a encare à luz do fato da morte, e à luz do fato da vida após a morte. Não precisa nem acreditar em vida após a morte; basta saber que você vai morrer, e que nesse instante você adquirirá a sua forma definitiva e não será mais possível voltar atrás, corrigir erros, recuperar elementos perdidos etc. Aquilo que foi, foi; aquilo que não foi, não será jamais.

Uma verdadeira seriedade e sinceridade só é possível nesse nível, porque o resto é tudo futilidade. Quando você está agindo não à luz e sob a inspiração desse conhecimento e dessa recordação, mas em função de expectativas do momento, essas expectativas são o quê? São a opinião dos outros, os seus próprios desejos e ilusões, a pressão dos colegas — peer pressure, como eles chamam aqui no EUA — a pressão da família, do emprego, do patrão, enfim: é qualquer porcaria externa perfeitamente transitória. Por exemplo, quem quer que tenha uma família e tenha uma certa idade percebe que ao longo da vida fez uma série de sacrifícios inúteis pela família. Se o sujeito tivesse sacrificado apenas a sua vaidade e ambição para favorecer mulher e filhos estaria tudo bem, mas às vezes ele sacrifica coisas espiritualmente preciosas em função da família, e quando ele alcança uma certa idade ele vê que não valeu a pena, e vê que aquela concessão só serviu para corrompê-lo e para corromper também a própria família.

Tudo o que nós estudarmos em filosofia será apenas futilidade, leviandade, frescura, se não for feito com esse espírito. Qualquer coisa que você leia ou medite sobre filosofia tem de ser feita com a imagem da morte na sua frente. Ortega y Gasset falava das “ideias dos náufragos”; ele dizia que só valem aquelas ideias que ainda tem alguma importância para os náufragos. Na hora em que o sujeito está se afogando e se agarra a uma tábua para não ser engolido pelas águas, quantas das ideias e crenças dele sobrevivem nesse momento? Algumas sobrevivem, decerto, mas a maioria não, e só uma fração muito pequena do que teve importância em outros momentos se conservará viva e atuante nessa hora.

Se eu pudesse recomendar a vocês uma experiência que é particularmente educativa, nesse sentido, seria a experiência do risco de morte. Eu mesmo passei por isso muitas vezes na minha vida, e sei que isso é uma excelente peneira das suas ideias e interesses. Quase tudo aquilo que parecia importante dois minutos antes cessa de ter importância na mesma hora — mas nem tudo se perde, tem alguma coisa que sobra. Georges Bernanos, por exemplo, dizia que “o risco que nós corremos não é o de morrer, mas o de morrer como imbecis” — e em todas as situações de perigo de morte que eu passei a ideia dessa frase me voltava. Eu pensava: “eu não posso morrer como um imbecil, não posso morrer como um covarde, não posso morrer como um bichinho; há coisas que o ser humano tem de fazer, e que dignificam a sua vida no instante da morte.” Depois, se você não morre, a situação passa, mas aquilo que passou de certo modo foi ganho, se incorporou na sua personalidade, de modo que o conjunto das suas experiências de risco de morte constitui um patrimônio para a vida subsequente.


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 004, 18/04/2009.


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