As pressões que pesam sobre o indivíduo moderno – Olavo de Carvalho

“Dos elementos antagônicos que nos corroem, nos afastam da consciência, nos dispersam — notem bem: dispersam não a nossa concentração intelectual, mas a nossa concentração moral, e nos fazem esquecer o propósito da nossa vida —, nós podemos fazer uma espécie de “galeria de periculosidade”. Tal como as delegacias têm retratos dos bandidos mais procurados e perigosos, também nós podemos aqui botar uma galeria na nossa parede e dizer: os inimigos são esses, esses e esses. Se você ler os clássicos da educação e literatura moral cristã — Santo Agostinho e os Padres da Igreja, por exemplo —, você verá que em geral eles apontam como principal inimigo os seus desejos, especialmente os desejos de riquezas e de prazeres. Porém, muito tempo transcorreu desde a época de Santo Agostinho, muitas coisas mudaram. Há situações hoje, que se impõem ao cidadão de classe média num meio urbano, que são muito diferentes daquelas que se ofereciam a um filho de nobre ou a um estudante, seja na Antiguidade, seja na Idade Média.

Em primeiro lugar, a pressão do meio social aumentou terrivelmente. Nós hoje não somos mais capazes de conceber a atmosfera de liberdade que as pessoas desfrutavam na Antiguidade ou na Idade Média. A nossa cultura acredita naquele mito croceano, segundo o qual a História é a história da liberdade crescente, e imagina que, como hoje nós temos liberdades civis e direitos civis que as pessoas não tinham naquele tempo, eles viviam oprimidos. Mas essa liberdade crescente reflete a história jurídica, não a história social. Juridicamente falando, nós conquistamos um monte de direitos, mas o jurídico é apenas aquilo que vale nos tribunais, não é aquilo que decide a nossa conduta no dia-a-dia. O que decide a nossa conduta no dia-a-dia é a organização econômica da sociedade, a estrutura física das cidades onde nós vivemos, e assim por diante.

Não se pode esquecer, por exemplo, que até certa época a maior parte das pessoas trabalhava em casa ou muito perto de casa, e não sabiam o que era esse problema chamado “trânsito”. Eu me lembro que quando eu era jovem e pensei em me tornar aluno da USP, foi só eu tomar um ônibus para ir à USP que eu já desisti imediatamente: “eu vou passar três horas nessa porcaria todos os dias, e depois mais cinco horas ouvindo os caras falarem besteira?” Mas seja no Império Romano, seja na Idade Média, a situação de um sujeito sair a cavalo, encontrar um congestionamento, e não conseguir chegar no seu emprego era simplesmente inconcebível.

O conjunto de pressões externas que caem sobre a nossa vida é hoje imensamente maior do que foi em qualquer época anterior. Isso pode ser datado a partir da organização moderna da sociedade que começa com a sociedade industrial — hoje estamos na chamada “sociedade de serviços”. Isso começa a se complicar a partir do fim do século XVIII e começo do século XIX, na chamada Revolução Industrial que, na mesma medida em que cria uma quantidade enorme de riquezas e uma disponibilidade de serviços impensável em outras épocas, também vai criando um conjunto cada vez maior de pressões e exigências. Qualquer camponês ou burguês da Idade Média morreria de terror em pensar que teria de viver sob essa pressão o tempo todo.

Em primeiro lugar, a pressão dos horários. Nós esquecemos que durante muito tempo só houve um horário rigoroso para os monges; só eles tinham hora certa para fazer as coisas, enquanto o horário de todos os outros era altamente flexível. A que horas, por exemplo, o camponês tinha de levantar para trabalhar no solo? Não havia um horário preciso, isso variava conforme a época do ano e conforme as suas conveniências, e se ele não quisesse levantar para trabalhar um dia, isso não ia fazer a menor diferença. (…) Quem desenvolveu a arte de medir o tempo foram os monges, e eles o fizeram por necessidades internas dos monastérios, não de ordem prático-econômica, mas ligadas à disciplina religiosa e moral. Para todos os demais seres humanos não havia essa pressão dos horários. Hoje você sabe que uma desobediência ao relógio pode destruir a sua vida. Se você chegar atrasado no trabalho cinco ou seis vezes, você perde o emprego, e pode não ter o que comer no mês que vem. Essa é uma pressão monstruosa e destrutiva, que pesa sobre todos nós. Nós vivemos com medo do relógio e esquecemos que esta é uma experiência nova na espécie humana. Nós imaginamos ingenuamente que este é o destino humano, mas não é: é uma coisa inventada, que apareceu num certo momento e se desfará em outro.

Outro exemplo: esta separação rígida entre momentos de trabalho e momentos de lazer que nós temos hoje não existiu na maior parte das civilizações. O elemento de trabalho e o elemento lúdico estavam tão indistintamente misturados que as pessoas não precisavam de um dia específico, de uma data específica para os seus lazeres. Por exemplo, os camponeses plantadores, que trabalhavam cantando. Você consegue imaginar uma fábrica moderna aonde as pessoas trabalhem cantando? Não é possível. Se você cantar na hora do expediente, você perde o emprego e, no entanto, gerações e gerações de camponeses trabalharam cantando. Se alguém dissesse aos camponeses: “Vamos parar e nos divertir”, eles responderiam: “Parar e nos divertir por quê? Nós já estamos nos divertindo aqui!”.

Há, portanto, uma série de elementos que vêm da simples organização física da sociedade, e que pesam sobre nós com exigências que podem se tornar bastante angustiantes. Mas elas são angustiantes não somente pela sua presença, pela pressão que exercem, como também pela sua ausência. Porque quando você perde a conexão com essa organização da sociedade — como quando você perde o emprego, ou perde os horários — você fica completamente perdido, se sente isolado, desamparado e perseguido, e pode ficar até paranoico por causa de uma coisa dessas. Eu me lembro que quando eu era jovem, se eu perdia um emprego eu ficava desesperado para arrumar outro, não só por causa do fator econômico, mas também porque o emprego me dava toda a rede de conexões sociais e meios de contato. O sujeito sem emprego fica privado de contatos sociais. Ele não pode mais falar com seus colegas porque eles estão trabalhando, não pode entrar no emprego deles e ficar batendo papo. É uma coisa terrível, porque na hora em que você perde o emprego, você perde a sua rede de amigos também, e é obrigado a construir outra rede fora, e assim por diante.

Até o século XIX, mais ou menos, pouquíssimas pessoas conheciam essa situação. Elas tinham a sua rede de conexões e contatos no lugar onde nasceram, e não tinham como perdê-la, a não ser que cometessem algum crime e for mandado embora da cidade. Não existia essa questão do ostracismo, do isolamento, da solidão moderna. É claro que existiam outros problemas: doenças, pestes, assaltos nas estradas, insegurança generalizada. Na Europa, uma certa segurança policial existiu somente a partir dos séculos XVIII e XIX, e antes disso era praticamente impossível fazer uma viagem sem ser assaltado. Havia outros problemas, nessa época, completamente diferentes, mas esses problemas pesavam sobre o conjunto da sociedade, sobre a comunidade, e não opunham o indivíduo à comunidade como estes problemas modernos.

A maior parte das pressões que pesam sobre o indivíduo moderno são pressões que o isolam da sociedade. É muito mais fácil você ser marginalizado e ostracizado hoje do que em qualquer outra época da história. O número de pessoas que se sentem marginalizadas, separadas, solitárias, numa cidade grande como São Paulo ou Rio de Janeiro é imenso. Esse é um fator novo, que nunca existiu em nenhuma outra época da história humana e, como é um fator novo, ele não faz parte da natureza humana. A natureza humana não está automaticamente habilitada a lidar com essas situações. Todos esses elementos são forças de alienação, e por isso mesmo — justamente porque eles se interpõem entre você e os seus sonhos, objetivos, e valores interiores — eles constituem um desafio que só pode ser enfrentado mediante um esforço individual extra, de você juntar os caquinhos da sua existência e tentar restaurar a unidade da sua consciência.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 4, 18/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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