A modernidade e o indivíduo que imagina ser superior à sociedade – Olavo de Carvalho

“Nós podemos dizer que na Modernidade (…) se desenvolve, por exemplo, o gênero romance, que é um gênero característico do século XIX. Claro que houve precursores, mas o romance é o gênero do século XIX, onde vai aparecer Henry Fielding, Walter Scott, Balzac, etc., que vão definir o gênero. O romance é essencialmente a história de uma alma contra a sociedade. O herói do romance é sempre alguém que tem algum problema com a sociedade, alguém que não se encaixa na sociedade, ou porque ela é complexa demais e ele não a entende. Ou porque, ao contrário, crê que ela o rebaixa e ele não aceita este rebaixamento, ele quer se sobrepor, quer vencer a sociedade, como é o caso de Raskólnikof no Crime e Castigo; ou Rastignac nas Ilusões Perdidas de Balzac. Vocês veem que o surgimento de todo um gênero literário, que é o gênero mais importante dos últimos dois séculos é definido pela inexistência de harmonia entre o homem interior e a sociedade. Isto também é uma coisa que é desconhecida nos séculos anteriores.

A sociedade moderna, na medida em que promete uma igualdade de direitos, uma abertura para todos, ela também suscita na alma de milhões de pessoas ambições que estão muito acima não só da situação delas, mas também muito acima da capacidade delas. Por exemplo, o caso de Raskólnikof: ele não é um gênio efetivamente, ele é um estudante medíocre que se acredita um gênio. Ele acredita que pode ser um Napoleão Bonaparte, capaz de dominar a sociedade que ele teme. Ele quer alcançar poder sobre a sociedade porque ele tem medo dela, então ele imagina que pode se tornar mais poderoso que ela e dominá-la. Ele, de fato, não pode fazer isso, ele não tem capacidade para fazer isso. Se você perguntar: “naquela época, quantos tiveram capacidade para ser Napoleão Bonaparte?” Exatamente um. Que foi Napoleão Bonaparte. E mesmo Napoleão Bonaparte terminou muito mal.

O indivíduo que se sobrepõe à sociedade e que impõe a ela a marca da sua vontade: esse não é um emprego que esteja à disposição de todo mundo, mas é uma ambição que é oferecida a todo mundo. Você veja hoje em dia o número de pessoas que acreditam que podem transformar o mundo: cada uma delas é o Raskólnikof. Nenhuma delas pode transformar o mundo de maneira alguma, nenhuma delas pode ter um milésimo do poder que imagina ter. Mas elas tentam realizar isso. Mas não sozinhas. Elas dizem: já que a sociedade é poderosíssima demais, nós podemos nos juntar, para nos sobrepormos a ela. Só que na hora em que se juntam, cria-se uma outra sociedade que vai pesar sobre eles tanto quanto a anterior, ou mais ainda. Ou seja, vai ser tão mais oprimente e tão mais alienante quanto a sociedade anterior. Isso quer dizer que, de fato, a sociedade moderna criou pressões inauditas e criou uma série de alívios factícios, artificiais e que nunca funcionam.

A única possibilidade que se oferece ao ser humano é esta que está aqui indicada pelo Louis Lavelle: você não pode vencer a sociedade materialmente, mas você pode impedir que ela o destrua. Vencê-la materialmente não tem sentido, porque você é um só e a sociedade são milhões de pessoas, seria uma luta desigual. Porém, nada pode impedir que você conserve a sua integridade interior, se você está firmemente disposto a isso. Na hora em que você está disposto a isso, então você já entrou no caminho da Filosofia, que é a unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. De certo modo, você já é um filósofo a partir do instante em que você decidiu que o domínio sobre a sua existência, sobre a sua biografia é seu. Isto é, que você será o autor e responsável pelas escolhas interiores e você não se deixará hipnotizar e dissolver pelo o que os outros querem que você seja. Só que, ao mesmo tempo, esta conquista desse domínio sobre si não é possível se não houver este acordo interior a que se refere Louis Lavelle. A compreensão do destino individual implica a sua aceitação total, como se você mesmo tivesse escolhido a sua vida. Isso quer dizer que você adquire um domínio sobre a sua existência no instante em que, intimamente, concorda com ela, aceita-a, e não se opõe ao seu destino. Opõe-se, apenas, aos elementos alienantes.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 4, 18/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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