Cumpra todas as suas obrigações, custe o que custar – Olavo de Carvalho

“Eu me lembro que eu tinha uma amiga. Era uma moça muito bonita e que era muito dada, ela ia pra cama com todo mundo – não estou criticando, não, eu adorava ela, achava excelente, uma menina de bom coração. E lá pelas tantas ela ficou grávida de um sujeito. E o sujeito decidiu que não ia assumir o filho, não ia dar ajuda nenhuma para ela, porque ele queria seguir uma carreira artística. Ele achava: “se eu for assumir essa responsabilidade, acabou com minha carreira artística.” Bom, eu sei o seguinte: passaram-se vinte ou trinta anos e o cara não teve carreira artística alguma e o garoto já está adulto.

Naquela altura eu creio que eu já tinha quatro ou cinco filhos, e eu pensava assim: eu vou ter que fazer exatamente o contrário desse sujeito. Vou ter que cumprir todas as minhas obrigações, custe o que custar. Claro que eu sempre estava abaixo delas, sempre estava devendo dinheiro, sempre estava atrapalhado. Mas eu não posso fugir delas, porque se eu fugir delas, eu vou ser um fracote. E se eu for um fracote, o que interessa minha bela produção literária? Vai ser apenas uma fuga.

Nesse tempo eu tinha muita amizade com o doutor Juan Alfredo César Müller. Ele era um sujeito goethiano. A ética que ele seguia era a do Goethe, baseada em três coisas: o homem deve ser digno, prestativo e bom. O dr. Müller era a encarnação dessas três coisas, era digno, prestativo e bom. Então, lendo ali Goethe, eu falei: “Isso aqui é importantíssimo!”. Você não pode fugir das suas obrigações sociais. Claro que, às vezes, você as cumpre imperfeitamente. Mas não pode fugir delas, porque se você fugir, você se enfraquece. E se você se enfraquece, se torna vítima inerme da pressão. Você tem que se esforçar, tentar fazer o máximo para que seja mais forte do que a pressão da sociedade, não mais fraco, jamais uma vítima, jamais dizer: “Ah, gostaria de estudar, mas eu não tenho tempo, eu tenho que trabalhar.” Eu falo: “Ah, é vagabundo? Tu vai trabalhar, vai estudar, pagar todas as tuas dívidas, sustentar tua família e não me enche o saco! Você vai estudar de noite e se vier com reclamação vai levar porrada!” – Eu não tenho dó porque eu sempre fui um sujeito pobre, eu nunca tive quem me ajudasse. Eu tinha que fazer tudo isso sozinho e fiz. Se eu, que sou um merda, fiz, porque que você que é um gostosão não pode fazer? Não vem querer que eu fique com dó de você, não vem dizer que não tem tempo de estudar, porque se você estudar meia hora por dia, todos os dias, você vai virar um erudito.

Eu nunca recomendei que ninguém estudasse mais de três horas por dia. Mesmo que você tenha o tempo todo livre, estudo é três horas: o que passar disso você não vai assimilar. A sua capacidade de assimilação aumentará com o tempo. Quando você tiver cinquenta, sessenta anos, aí, talvez, você consiga ir pra cinco, seis, sete horas. Talvez. Antes, não. Não se trata de você estudar muito. Se você tivesse dez horas livres por dia, quanto você iria aproveitar? Eu sempre me espantei com esse negócio de jornada de oito horas de trabalho, porque eu sei que dessas oito horas você trabalha meia hora ou uma hora só, o resto você perde tempo realmente. Oito horas de estudo também é a mesma coisa. Se você tivesse oito horas livres para estudar todo dia, você ia estudar meia hora, uma hora. O resto você ia ficar lá apontando lápis, telefonando pros seus amigos, vendo programa de sacanagem na internet. Então, você tem meia hora por dia? Ótimo! Você é um homem afortunado!”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 004, 18/04/2009.


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