De modo geral e vago, eu entendo alienação como uma recusa da estrutura da realidade – Olavo de Carvalho

“De modo geral e vago, eu entendo alienação como uma recusa da estrutura da realidade, quer dizer, o indivíduo começa a viver num mundo de sua própria invenção. Esse mundo pode ser uma invenção coletiva do seu grupo, formado apenas das convicções ou hábitos que ali vigoram sobre isso ou sobre aquilo. A coisa mais universalmente característica da estrutura da realidade, pouco importando o que é o restante da sua descrição, é que a realidade não é conhecida no seu todo e que esse coeficiente de desconhecimento faz parte da própria estrutura da realidade. Se há coisas que nós desconhecemos não é por causa de um estado provisório da nossa ignorância, a possibilidade de nós termos um conhecimento total simplesmente não existe. Por quê? Porque a nossa vida tem um limite. Somente um ser eterno pode ter conhecimento total. Somente um ser eterno, universal e absoluto pode ter conhecimento total. A limitação do nosso conhecimento é inerente não só à nossa condição, mas à própria estrutura da realidade, porque a nossa condição faz parte da estrutura da realidade. Ademais, se eu não posso conhecer tudo dos objetos isso não é só uma limitação minha, mas é uma limitação deles próprios.

Não sou só eu que não posso olhar uma pessoa se movendo pela rua e ao mesmo tempo abrir a barriga dela para examinar os seus órgãos internos – ela também não pode. Ela não pode estar andando pela rua e, ao mesmo tempo, abrir a sua barriga para me mostrar seus órgãos internos. Isto não é uma limitação do meu conhecimento, é uma limitação simultânea e correlativa do conhecimento e do ser. Portanto, esta limitação, este coeficiente de desconhecimento, coeficiente de mistério, ele faz parte da estrutura da realidade. Quando você não aceita isso, quando o rejeita conscientemente, ou quando, sem rejeitá-lo conscientemente e verbalmente, você age, procede, como se ele não existisse, você está alienado, está fora da realidade. Está vivendo num mundinho inventado por você onde tudo é conhecido e onde tudo aquilo que é desconhecido é apenas um estado provisório, um defeito provisório a ser corrigido amanhã ou depois. Este mundo não existe.

A maior parte da ideologia científica que hoje circula por aí sempre parte disso. De que tudo que nós desconhecemos resulta apenas de uma situação provisória que a ciência corrigirá amanhã ou depois. Isto é absolutamente falso. O simples fato de que a ciência possa conhecer amanhã o que não conhece hoje já mostra que o coeficiente de desconhecimento é permanente. Quando a ciência conhecer outras coisas amanhã, haverá outras que ela vai continuar desconhecendo. Ou pior, haverá coisas que ela percebeu que não compreende, mas pensava que compreendia numa etapa anterior.

Nunca se pode dizer que o estado de desconhecimento ou de ignorância é provisório. Ele não é provisório. Ele faz parte da estrutura da realidade. Isso significa que a posição real do ser humano perante a realidade é a de uma criatura que tem certa área de conhecimentos e outra área de ignorância, de trevas, de desconhecimento, com a qual ela tem que lidar. Há certa sabedoria ou capacidade que nós temos de lidar com esse desconhecimento. Por exemplo, quando você está dirigindo um carro no meio de uma estrada, vêm vindo vários carros, você não sabe o que eles vão fazer. Você nunca sabe. Você não controla o fluxo dos carros e, no entanto, você sabe se articular com esse elemento desconhecido. Nas nossas relações humanas, nós nunca sabemos como as pessoas vão reagir ao que nós fazemos ou falamos. Nunca sabemos. E, no entanto, nós sabemos agir, nós sabemos nos posicionar perante esse elemento desconhecido. Na vida diária, na vida prática, nós temos essa situação, onde lidar com o desconhecido faz parte do seu encaixe efetivo na realidade. Nós temos que ter a mesma coisa no que diz respeito à concepção geral da realidade.

Ora, o que nós chamamos de ideologia científica hoje é uma coisa que não reconhece a existência do desconhecido e do desconhecimento como parte integrante da realidade. Mas apenas como etapa provisória a ser idealmente vencida amanhã ou depois. O que é absolutamente falso, o que significa que a ideologia científica, na sua totalidade, está fora da realidade, embora possa estar encaixada com a realidade neste ou naquele ponto em particular. Quando as pessoas falam sobre “concepção científica do cosmos”, eu digo “isto é uma estupidez”. Não pode haver uma “concepção científica do cosmos” porque a ciência só pode falar daquilo que ela conhece. Se você somar tudo o que todas as ciências conhecem, você não compõe o mundo, não tem um mundo completo ali. Toda a dimensão infinita da acidentalidade, por exemplo, está fora do campo das ciências. E sem a acidentalidade não há realidade, portanto a antiga concepção religiosa era muito mais realista e muito mais encaixada na realidade do que a concepção científica.

A concepção científica é essencialmente alienante. Alienação é colocar-se fora do sentido de realidade. Esta alienação pode chegar ao cúmulo do sujeito se alienar da sua própria realidade. Ou seja, ele se afasta, ele não leva em conta os elementos de desconhecimento que existem nele mesmo. Ele procede como se ele soubesse tudo a seu respeito ou como se tudo aquilo que ele desconhece fosse irrelevante.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 004, 18/04/2009.


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