A formação literária como preliminar ao estudo da filosofia – Olavo de Carvalho

“Se eu tenho insistido tanto nessa formação literária como preliminar ao estudo da filosofia, é por um milhão de razões diferentes. Não só pelo o que está ali na teoria dos quatro discursos (aqueles que leram o livro — Aristóteles em nova perspectiva — irão entender perfeitamente qual é o meu propósito aí), mas também pelo que diz Benedetto Croce, no começo do livro Logica come Scienza del Concetto Puro (Lógica como Ciência do Conceito Puro): “O pressuposto da atividade lógica são as representações ou intuições. Se o homem não representasse coisa alguma, não pensaria. Se não fosse espírito fantástico, não seria também espírito lógico”.

Isso é absolutamente fundamental. Há uma certa organização do mundo imaginário — ampliação, fortalecimento e organização do mundo imaginário — que é pressuposto de qualquer atividade filosófica produtiva. Quando falta isso, os efeitos são simplesmente devastadores. Vocês não podem esquecer que qualquer elaboração lógica, qualquer exposição ou discussão lógica, é feita originariamente a partir de certas experiências humanas — experiências que não foram vivenciadas como experiências de pensamento, mas como experiências de realidade, constituídas de sensações, de intuições, de representações etc. É assim que o mundo nos chega. O mundo não nos chega como uma argumentação lógica; somos nós que o transfiguramos numa exposição lógica na medida em que nós passamos da linguagem dos fatos para a linguagem das possibilidades — mais tarde eu explicarei isso com mais clareza —, porque a lógica é apenas uma articulação das possibilidades, ela não tem nada a ver com os fatos.

Quando nós damos um tratamento lógico ao material da experiência — passando-o da linguagem dos fatos e dos dados para a ordem das possibilidades —, o que acontece é que a geração seguinte (as pessoas que recebem a nossa mensagem, que leem ou que ouvem o que nós estamos dizendo) não têm um acesso direto às nossas memórias, não têm acesso ao fundo de experiência do qual nós tiramos aquilo, e as ideias, se desvinculadas dessa experiência originária, não têm substância nenhuma. É mais ou menos como o dinheiro. O dinheiro é um negócio que está impresso em papel, e que idealmente corresponde a uma certa quantidade definida de bens (os bens são indefinidos, mas a quantidade é definida). Se não houver os bens pelos quais você trocar o dinheiro, o dinheiro não é nada, é apenas papel pintado. É justamente nessa troca que está o problema — na hora em que você pega o seu raciocínio lógico para trocá-lo por fatos, mas não vê nada. E esses fatos não são acessíveis pela própria linguagem lógica; eles só são acessíveis por linguagem de imaginação, que é o modo de comunicação próprio da experiência.

Então, idealmente, o leitor de um livro de filosofia deveria ser capaz de puxar debaixo daquela exposição lógica as experiências que deram origem àquilo. Não precisa ser experiências que historicamente o autor teve, mas um análogo. É só através desse análogo, dessa investigação imaginativa, que você vai entender o que o sujeito está falando. Senão seria como se garotos de outra sociedade, que não a brasileira, ficassem trocando figurinhas de jogadores de futebol, sem saber o que é futebol. Os nossos meninos trocam figurinhas de jogadores de futebol porque eles têm ideia de quais são os times, se esse jogador é melhor que o outro etc. Então as figurinhas significam algo mais do que meras figurinhas; elas significam todo um mundo que não é um mundo impresso (um mundo de papel), mas um mundo de ações efetivas, praticadas ali no campo de futebol. Se o sujeito não sabe o que é futebol, mas sabe que aquelas figurinhas têm um certo valor de troca, ele pode prosseguir com o valor de troca, mas sem saber a quê as figurinhas se referem.

Praticamente tudo o que eu li de filosofia escrito por professores universitários no Brasil é assim: não há substância de experiência por baixo daquilo; há apenas um intercâmbio de símbolos convencionais, ou seja, é realmente a “troca de ideias”, no sentido mais literal do termo (eu tenho uma ideia aqui, você tem uma outra, a gente troca). Não há referência ao mundo da realidade. Quando o indivíduo é espremido para mostrar a substância de realidade do qual está falando, ele fica absolutamente impotente, porque não fez aquele esforço imaginativo para reconstituir a experiência.

A reconstituição da experiência originária é noventa por cento do trabalho de compreensão de um livro de filosofia. Quando você lê um romance, um poema ou uma peça de teatro, você não tem dificuldade de reconstruir a experiência porque essa obra é justamente a reconstituição de uma experiência originária. Paul Claudel definia uma peça de teatro como “um sonho acordado dirigido”, quer dizer, você não precisa fazer esforço nenhum para reviver o sonho, porque ele já está mostrado ali. Desse sonho que você revive ali podem ser tiradas várias conclusões; o significado intelectual, o alcance intelectual daquela experiência não está dado por si mesmo na peça ou no romance — você vai precisar fazer um esforço para transpor aquilo da linguagem do sonho, da imaginação, para a linguagem dos conceitos. E é exatamente o contrário o que você vai fazer em um livro de filosofia. (…) É nessa transposição, nessa tradução de uma linguagem para outra, que está todo o mecanismo da compreensão: você trocar da linguagem poética para a linguagem filosófica e vice-versa, esse é todo o truque.

Nos dois casos você tem de reconhecer a prioridade da experiência, porque a experiência consiste dos dados, do material primário. As interpretações que você pode fazer podem sair erradas, mas os dados são os dados, não há o que discutir neles.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 005, 25/04/2009.


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