Sondando o mundo de experiência por baixo das investigações filosóficas – Olavo de Carvalho

“Se não existe, na formação filosófica do indivíduo, uma certa preparação da memória, da imaginação, da fantasia e da expressão verbal correspondente, ele não será capaz de sondar o mundo de experiência que está por baixo das investigações filosóficas, e não saberá o que elas significam realmente, mas só o que elas significam convencionalmente.

Vou dar um exemplo. Há uma apostila minha, que eu não sei se está na internet, e que é a segunda parte das minhas investigações sobre René Descartes. A primeira parte chama-se “Descartes e a psicologia da dúvida”. (…) Na verdade é uma transcrição de aula, e nessa transcrição eu examino a estrutura interna das Meditações Metafísicas de René Descartes e me pergunto: “O que ele está querendo realmente fazer ali? Do que se trata efetivamente? Qual é o problema que ele está discutindo?”. Eu pego cada ideia que ele está colocando lá e procuro o seu equivalente na experiência; procuro preencher aquilo com conteúdo imaginativo. (Só pode ser um conteúdo imaginativo, porque eu não tenho um conteúdo histórico — não sei o que René Descartes efetivamente estava vivenciando. Nós temos uma dica ou outra, e essas dicas são preciosas, como nós vamos ver daqui a pouco, mas elas não bastam para preencher a coisa inteira).

Nós sabemos apenas “o que” René Descartes estava falando, nós não sabemos o “do quê”. Muitas vezes o autor, ou filósofo, não quer que você saiba de que experiência ele está falando: ele pega a experiência, a transpõe numa ideia, num esquema lógico, e quer que você olhe somente isso, ou seja, no fundo, ele não quer que você entenda o “do quê” ele está falando. Neste caso, a ideia começa a funcionar como uma força hipnótica: ela tem de ser apreciada em si mesma, sem referência à realidade. Nesse caso, o autor está exigindo que você se transponha a um outro mundo de discurso, que não é o mundo do discurso da experiência humana, e que você raciocine e perceba tudo desde aquele patamar puramente inventado que ele colocou para você. Isso não é honesto; nunca é honesto.

No caso do Descartes, a cada frase que ele coloca, eu me pergunto qual é a experiência correspondente, ou seja, do que ele está falando na realidade? Não precisa ser necessariamente a realidade do que se passou na mente dele, na vida dele, mas uma experiência que eu, ou qualquer pessoa, precisa ter para daí poder tirar aquela ideia. Por exemplo, ele tem a proposta da dúvida radical: a dúvida radical é ficar em dúvida sobre tudo, colocar tudo entre parênteses, até você ter alguma confirmação. Daí eu perguntei se na experiência real alguém pode fazer isso. É claro que não pode. A dúvida geral é logicamente impossível e psicologicamente inalcançável, porque, para você formular uma única dúvida, você tem de se basear em alguma certeza prévia. Se todas as coisas forem duvidosas, você não consegue formular a dúvida. Uma coisa só é duvidosa porque ela contrasta com outra que não o é. Descartes não teve a experiência da dúvida radical; ele diz que teve, mas isso não é possível. Ali você tem uma fórmula filosófica que, em vez de elaborar, encobre uma experiência e lhe dá um nome diverso.

Se a experiência que ele teve não foi a da dúvida radical, qual foi então? Se ele usa a expressão “dúvida radical”, mas eu sei que isso não existe na realidade, então ele não está usando essa expressão como um nome de uma coisa que existe (como nome de um fato ou de um estado real), mas como uma metáfora, uma figura de linguagem. A que esta figura de linguagem se refere? Não é como, por exemplo, quando um filósofo fala de percepção sensível: nós sabemos o que é percepção sensível — todos nós temos, então todos nós sabemos a que ele se refere; logo, podemos continuar raciocinando com base na hipótese de que ele está se referindo a uma experiência que nós também temos, uma experiência comum. Mas quando Descartes fala da dúvida radical, nós não temos a dúvida radical e sabemos que ela é impossível, então não pode ser disso que ele está falando. Se o que ele chama de “dúvida radical” (ou dúvida integral, dúvida total, ou dúvida metódica) não existe, e se esse termo é uma figura de linguagem, então quer dizer que ele se refere indiretamente a uma experiência que não é uma dúvida radical, mas que se parece com isso de algum modo. Então, vamos chamar esta experiência de uma “incerteza muito grande”.

Todos nós podemos ficar numa incerteza muito grande: quando você está em uma situação difícil, complicada, atemorizante, e você não sabe o que está acontecendo, a sua mente dispara milhões de perguntas — “Será que é isso? Será que é aquilo?” — e você não encontra a resposta. Isso é uma inquietação, uma dúvida muito grande, é um estado de angústia associado a uma incerteza. Mas essa incerteza não poderia ser tão intensa se não houvesse ali algum risco envolvido, se não fosse uma incerteza referente a um perigo. Então René Descartes está se referindo, indiretamente (por meio de uma figura de linguagem), a uma experiência temível que importa numa incerteza. Ele, não querendo contar qual é essa experiência, a transpõe num conceito filosófico, que é usado não como conceito filosófico, mas como figura de linguagem. Estão percebendo como é o truque? A transposição da experiência para o conceito não é uma transposição direta, franca e honesta; é uma transposição camuflada.

Sondando biograficamente a vida de René Descartes, a gente descobre que por mais ou menos esta ocasião, ou um pouco antes, ele teve uma sequência de três sonhos atemorizantes em que o demônio o enganava. Então a história que ele inventa do “gênio mal” não é uma hipótese; esta foi a experiência. Ele sofre, por assim dizer, um ataque demoníaco durante a noite, naquele sonho, e esse sonho o coloca numa grande incerteza. Esta incerteza não pode ser uma dúvida integral, ou dúvida metódica, no sentido lógico da coisa.

Descartes se sente desafiado pelo demônio e quer encontrar um ponto de apoio contra ele — um ponto de apoio puramente discursivo e lógico, o que não é possível, porque o diabo é um lógico melhor do que ele. Descartes coloca um problema teológico e quer resolvê-lo por meios puramente lógico-analíticos, o que não é possível. A prova de que não é possível é que ele, por duas vezes, no fim, encontra a saída apelando para a fé em Deus — que era exatamente o que ele não queria fazer no começo.

Nós vemos que todo o método de Descartes, que historicamente tem a fama de ser um dos métodos mais rigorosos e lógicos, não é nada disso: é uma camuflagem de uma alucinação. E aí nós entendemos o René Descartes. Ele tem um problema real, que é esse confronto com o demônio — é o demônio que o engana. Ele percebe de algum modo que o demônio é mais esperto do que ele, que o demônio coloca para a inteligência dele desafios que transcendem a capacidade dela, mas, ao mesmo tempo, ele quer enfrentar o demônio apenas com essa mesma inteligência que já se demonstrou incapaz de enfrentá-lo. Existe um inimigo malicioso, mais inteligente que o René Descartes, o qual ele não pode enfrentar apenas com os seus recursos humanos — tanto que ele vai ter de apelar à explicação de que “Deus é bom e não faria isso comigo”. Bom, mas se era assim, então o problema não se coloca desde o começo. Se era assim, ele deveria ter dito isso na primeira linha e teria acabado o livro já ali, na primeira linha. No caso, então, são enigmas e dificuldades colocados por uma filosofia, mas que são resolvidos em um nível psicológico. E, neste caso, felizmente, eu pude comprovar historicamente o que eu estava dizendo, porque existem dados sobre isso na biografia do René Descartes — não são dados tão evidentes, a maior parte dos biógrafos não chamam a atenção para isso, mas procurando você acha. Sem isso, o que aconteceria? Eu estaria discutindo a filosofia de René Descartes nos termos que ele propôs; mas estes termos não foram feitos para elucidar uma experiência, e sim para encobri-la. Isso quer dizer que, em cima da experiência real, Descartes constrói outro esquema verbal, puramente hipotético, fazendo de conta que está falando da realidade, e convida os seus leitores a entrar nesse outro teatrinho, onde naturalmente é ele quem dá as cartas, ele quem dita as regras. Isso não é uma investigação filosófica decente.

(…) Para chegar a isso, nós temos que apelar a um tipo de investigação imaginativa. Temos que ler Descartes como se lêssemos uma obra de ficção, como se vivêssemos um “sonho acordado dirigido”. Temos que fazer com que aquele depoimento que Descartes apresenta soe nos nossos ouvidos como se fosse a fala de um personagem de teatro que não está explicando ou descrevendo o mundo para nós, mas expressando o seu estado interior, e, por trás deste estado interior, nós temos que descobrir qual é a realidade dos fatos que o deixaram nesse estado. É como o sujeito que está se queixando de que a mulher o abandonou, chorando etc., mas depois você descobre que ela o abandonou porque, quando ela chegou em casa, o encontrou com outra na cama, então ela foi embora. Você parte do estado que ele expressou para a descrição correta da realidade que gerou esse estado. O estado continua sendo válido em si mesmo; ele é verdadeiro em si mesmo, mas enquanto expressão do estado interior do indivíduo, e não enquanto descrição da realidade. É o negócio das famosas “funções da linguagem” do Karl Bühler — ele está na clave expressiva, e não na clave descritiva, na clave nominativa. Então, nós temos que passar o discurso dele de uma clave para a outra. O indivíduo nos diz o que está sentindo, mas nós queremos saber por que ele está sentindo assim, de onde surgiu este sentimento, e daí nós entendemos a situação inteira. Porém, se ele nos esconde os fatos, é porque está querendo nos impor o seu estado interior como se fosse ele mesmo o único fato — está querendo nos dominar psicologicamente. Muitos filósofos fazem isso. É precisamente o que não acontece com a filosofia antiga. Isso jamais acontece com Platão e Aristóteles — eles não estão escondendo nada. A realidade da experiência da qual eles partem transparece a todo o momento através dos diálogos de Platão, dos textos de Aristóteles etc. Você sabe do que eles estão falando. Claro que eles podem errar, mas uma coisa é errar, e outra coisa é camuflar.

Toda a filosofia dessa época de Descartes é muito marcada por camuflagem, por ser — dentre outros motivos — a época do surgimento da chamada ciência moderna. A ciência moderna quer transpor todas as discussões para um terreno neutro onde tudo possa ser resolvido mediante observações e medições.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 005, 25/04/2009.


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