Não é possível escrever a história da ciência ou da filosofia moderna sem escrever ao mesmo tempo a história da camuflagem – Olavo de Carvalho

“Em grande parte, o surgimento da ciência moderna é uma camuflagem — as experiências reais não estão transpostas plenamente na linguagem final. Há uma seleção, uma seleção da seleção e assim por diante, de modo que no final sobra um terreno muito delimitado e eles não admitem que você saia e discuta as coisas fora desse terreno. Não é possível escrever a história da ciência ou da filosofia moderna sem escrever ao mesmo tempo a história da camuflagem, a história da empulhação.

Aquilo que aconteceu com Newton é um exemplo. Foi o economista John Maynard Keynes que descobriu os escritos mágicos e alquímicos de Newton, que eram em volume vinte vezes maior do que seus escritos de física. De início, pareceu que aquilo era apenas uma esquisitice de Newton, mas, à medida em que foram estudando, foram vendo a articulação profunda que havia entre suas concepções mágico-alquímicas e teológicas com a sua física. Hoje se sabe que não é possível compreender a física de Newton isolando-a de todo esse contexto. No caso, não foi Newton que escondeu (ele não escondeu nada), mas os seus sucessores sumiram com esses escritos. Assim como a história da irmã de Nietzsche, que escondeu uma série de escritos dele, que mais tarde apareceram.

Entrar numa discussão filosófica assim concebida, onde existe essa camuflagem, é aceitar um jogo de cartas marcadas, é aceitar ser manipulado. Isso não podemos aceitar de jeito nenhum. Temos de perguntar: “Do que você está falando realmente? Qual é a experiência real da qual você tira isso?”. Não que o sujeito, a todo o momento, precise estar contando a sua biografia. Não é isso. Mas a coisa tem de ser exposta de modo que a experiência subentendida, ou seja narrada, ou seja facilmente imaginável. Quando o indivíduo se refere, por exemplo, a experiências que são comuns a toda humanidade, ele não precisa ficar narrando aquilo, não precisa se referir concretamente aos fatos, porque, ao ler o nome do conceito, você já sabe do que ele está falando. Quando Aristóteles define os animais como seres vivos que têm um movimento próprio, ele está falando de uma experiência comum a todo mundo (nós sabemos que as árvores não se deslocam, mas que os gatos andam sem que você tenha de tirá-los do lugar). Aristóteles não precisava explicar isso, não precisava se referir ao elemento biográfico (“olha, eu tinha um gato…”), porque ele é facilmente reconstituível.

Isso não acontece, por exemplo, quando Newton fala da “eternidade do movimento”. Veja, eternidade e movimento são termos contraditórios. Não há movimento numa coisa que é eterna — ela transcende o movimento. Ele usa uma expressão contraditória: “o movimento eterno”. Será que Newton é burro? Não. Então ele quis dizer alguma outra coisa. Que coisa? Você só vai encontrar a explicação para isso nas teorias teológicas de Newton. E, no entanto, no livro Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, ele usa isso como se fosse apenas um artifício descritivo — um conceito que em si não tem importância, mas que é usado para facilitar as medições. É assim que ele apresenta esse conceito e todo mundo que estuda física usa-o exatamente assim, e diz: “Ah, mas o restante da física de Newton não é afetado por isso”. Sim, o restante não é afetado, e foi feito para não ser afetado, mas tem um truque ali na porta de entrada, e, se você o aceita, daí por diante o resto decorre logicamente. Só que é o seguinte: você não sabe do que Newton está falando. Na verdade, a ideia do “movimento eterno” não é apenas um recurso convencional que ele usou para facilitar as medições. Essa ideia reflete toda uma especulação teológica de Newton, mas nós temos que cavar por trás do conceito para saber do que ele está falando.

Quando acontecem essas coisas, geralmente há uma contradição lógica que chama a atenção do leitor atento — mas são muito poucos os leitores atentos. A maioria lê “movimento eterno” e passa adiante, passa batido. Só uns dois ou três que leem e pensam: “Peraí, mas a expressão é autocontraditória. Aí tem algum problema”. O que é eterno transcende tempo. O que transcende tempo não pode ser medido temporalmente, e um movimento que não tenha referência temporal não pode ser um movimento. Tem alguma coisa errada aí.

Não se trata de contestar Newton. Newton não está errado, não é isso o que eu estou falando. Estou dizendo que ele cria um edifício que pode ser aceito nos termos da ciência moderna (que ele está ajudando a conceber), mas que esconde um edifício muito maior, que você acaba engolindo na hora em que aceita aquele. Quando você vê, ao longo do desenvolvimento da ciência moderna, o grande número de cientistas que estiveram envolvidos com negócios ocultistas, gnósticos etc. — culminando nos famosos gnósticos de Princeton, de que fala o livro de Raymond Ruyer [autor de A Gnose de Princeton] —, ou no caso de Charles Darwin, que elabora toda uma doutrina científica em cima de uma doutrina esotérica do avô dele, você começa a escavar e descobre que existem universos inteiros de ocultismo por debaixo disso. Então, é uma precaução elementar saber que o universo definido, recortado, pela ciência moderna, não existe. Ele é apenas um universo de discurso elaborado em cima de uma experiência real que ele encobre.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 5, 25/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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