A maior parte dos estudos acadêmicos, principalmente no Brasil, separam o indivíduo do mundo da experiência e o inserem num outro universo de discurso – Olavo de Carvalho

“Hoje o que a faculdade de letras faz é tornar o sujeito incapaz de ler uma história. Nós só lemos essas histórias — Dom Quixote, Crime e Castigo etc. — porque elas se referem a personagens que poderiam existir realmente, nos quais, de algum modo, nós nos reconhecemos. Mas se você acredita que a narrativa não tem nada a ver com a realidade, que não há pessoas, mas somente palavras etc., então o seu foco de atenção se transferiu desde a imaginação concreta do escritor para o estudo dos seus meios de expressão considerados isoladamente — meios de expressão que evidentemente existem, mas, sem o que expressar, não será possível. É isto que faz todo esse negócio de desconstrucionismo, estruturalismo etc.: desviar a atenção do estudante de letras, da substância humana da literatura, para o estudo exclusivo dos meios expressivos — a língua, a gramática etc.

É claro que isso é um sinal de burrice. O simples fato de o sujeito aceitar essa proposta já é uma burrice. Só que, tanto no caso do estudante de letras, quanto no de filosofia, acontece uma coisa trágica. Quando ele começa a estudar na universidade e passa da linguagem do senso comum para aquela linguagem conceitual elaborada, começa a achar que deu um salto qualitativo enorme. Este salto é dado rompendo com a linguagem da experiência comum e passando a falar só naquela outra linguagem empostada dos estudos acadêmicos.

Isso seria um progresso, assim como aprender a andar de bicicleta, quando você já sabe andar. É um upgrade, sem dúvida, porque a bicicleta é mais rápida do que você. Mas, se no instante em que você aprende a andar de bicicleta, você desaprende a andar com os seus dois pés, não houve progresso algum: houve a conquista de uma deficiência. Acontece que a maior parte dos estudos acadêmicos, principalmente no Brasil, consiste nisso. Eles separam o indivíduo do mundo da experiência e o inserem num outro universo de discurso, que lhe parece mais elegante, mais sério, e desde o qual ele pode olhar até com desprezo para o mundo da experiência. Só que tudo o que ele fez foi progredir no emburrecimento, tornando-se um verdadeiro imbecil, incapaz de entender qualquer processo da realidade, e só capaz de jogar com aquele discurso naquele nível empostado, com as pessoas do seu convívio acadêmico, que também só falam aquele mesmo discurso. Não é que essas pessoas tenham a impressão de que saibam do que estão falando, porque o “do quê” jamais entra em questão. Só entra a troca do discurso por outro discurso, por outro discurso… Ninguém ali é jamais testado na realidade, porque o abandono da realidade é a condição para penetrar neste outro universo de discurso.

Eu conheci um professor na PUC que dizia: “Eu não desço do meu universo semântico”. Eu pensava: “E eu é que não vou subir aí, eu não sou idiota. Eu subo aí, depois não sei como descer para a realidade de novo”. Esses camaradas são todos assim. Se você ler esses camaradas da USP, são característicos. Há uma espécie de empostação que só vale lá dentro da USP. Se você ler o Gianotti, a Marilena Chauí… é um universo de discurso próprio que só vale para eles. Qualquer tentativa mínima de reportar aquilo à realidade estoura com tudo, então não pode. O apelo à realidade é considerado um golpe baixo. Depois não entendem por que no meu programa True Outspeak eu xingo essas pessoas. É porque não é possível discutir com elas no plano em que elas se colocaram. E se você aceita este jogo por um minuto que seja, você caiu numa armadilha. Então, você tem de falar assim: “Eu não levo a sério nada disso, não respeito essa porcaria. Isso que vocês estão fazendo é uma coisa que não se faz.” E a única maneira de mostrar a eles que você realmente não os leva a sério é você os xingando, é mostrando o seu total desrespeito. Se você respeitá-los um pouquinho, eles se prevalecem disso e já vão querer que você entre no universo deles. Não, eu não vou entrar aí.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 5, 25/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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