Uma teoria ser derrubada intelectualmente não significa que ela não vai ter influência – Olavo de Carvalho

“Vocês vejam que uma teoria ser derrubada intelectualmente não significa que ela não vai ter influência. Muitas vezes as pessoas se iludem: “Ah, o marxismo está superado”. Claro, Ludwig von Mises reduziu a pó a economia marxista. Mas e daí? Isso não quer dizer que uma coisa que está intelectualmente derrotada esteja socialmente derrotada. O fato de que uma coisa seja mentira não tem nada a ver com o seu grau de disseminação.

Muita gente acredita em mentira. Por exemplo, quando estourou a Reforma protestante — quando Lutero grudou as suas 96 teses na igreja de Wittenberg. Todas aquelas doutrinas já estavam impugnadas cem anos antes. Elas tinham sido apresentadas pelo John Wycliffe e os teólogos católicos já tinham mostrado que tudo aquilo era furado. Não obstante, foi cem anos depois de derrotadas no plano intelectual que essas ideias se disseminaram. Por quê? Por que elas estavam certas? Não. Lutero jamais argumentava logicamente; ele era um tipo orador, poético, um cara inflamado. Pelo lado emocional, ele conseguiu ganhar muita gente para ideias que intelectualmente não se sustentavam. E, além disso, havia todo aquele problema da corrupção na Igreja. Ele botou tudo isso numa clave de condenação moral — que era verdadeira, mas não tinha nada a ver com a doutrina da Igreja. O que a corrupção na Igreja tem a ver com a doutrina da presença real do Cristo na comunhão? Nada. No entanto, Lutero se valeu disso — “Ah! Aqueles lá são um bando de ladrões”. Eu digo: “É, são um bando de ladrões, mas a doutrina deles está certa e a sua está errada. Você não roubou um tostão, mas você está errado e eles estão certos”. Na confusão do aspecto moral com o aspecto doutrinal, Lutero conseguiu disseminar doutrinas que intelectualmente já estavam desmoralizadas há cem anos.

O marxismo está desmoralizado desde que o Eugen von Böhm-Bawerk leu O Capital — eu botei o texto dele no meu site, é o Exame da Doutrina da Mais Valia. Aquelas objeções do Böhm-Bawerk não têm resposta. E daí? O que isso significa para a propaganda? Não significa nada. A propaganda jamais dependeu de que as suas afirmações fossem verdadeiras. É um outro departamento, é outra modalidade de ação.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 005, 25/04/2009.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: