Quando a ciência histórica explica um acontecimento por tendências gerais – Olavo de Carvalho

“Veja o que acontece quando a ciência histórica explica um acontecimento por tendências gerais, por exemplo: “O capitalismo moderno desarraigou as pessoas da terra e criou o proletariado moderno.” Quem fez isso? Quem é o agente? “O capitalismo”. O capitalismo é um universal abstrato. Você pode apelar para a explicação por meio de um universal abstrato quando você não tem o conhecimento das ações concretas, de indivíduos e grupos concretos, que produziram a situação. Por exemplo, se o seu vizinho tomou um porre e encheu a mulher de porrada, você pode dizer que foi a indústria de bebidas que bateu na mulher. Esse é um raciocínio metonímico; a metonímia é uma figura de linguagem, e não a descrição exata do que se passou. Quem bateu na mulher foi o fulano de tal, e ele não bateu nela porque estava bêbado; ele bateu por algum outro motivo — a bebida simplesmente ajudou. Há pessoas que quando bebem ficam sentimentais, outras ficam idiotas, outras ficam violentas, quer dizer, se alguém fica violento quando bebe, não é por causa da bebida — a bebida tem efeitos diferentes para várias pessoas, ou seja, não foi nem sequer a bebida que bateu na mulher. Garrafa de uísque ou de pinga não bate em ninguém; ela fica lá na estante até que você a esvazie. Então, essa metonímia oculta o verdadeiro agente.

Há anos eu descobri que isto é um princípio: jamais aceite explicações sociológicas quando elas estão ali para substituir a verdadeira explicação histórica, que é a narrativa real do que aconteceu, efetivamente como se passou. Então, o que criou as multidões desprovidas de propriedade na Europa moderna foi a Reforma Protestante na Inglaterra, porque daí outros governos começaram a fazer a mesma coisa. Quando chega à Revolução Francesa, ela toma todos os bens, não somente da Igreja, mas de uma multidão de gente. Então não foi “o capitalismo” que fez isso, não foi “a Revolução Industrial”; foi um governo específico, que assinou um decreto dizendo “sua terra não é mais sua”. Então, os sem-terra foram criados pelo espírito revolucionário.

A ciência histórica tem recursos fantásticos, hoje. Você pode descobrir praticamente tudo o que quiser. Mas se você não quer investigar as coisas como elas efetivamente aconteceram, e quer inventar termos universais abstratos que se encaixem logicamente com outros termos universais abstratos e pareçam lhe dar uma explicação, é porque você já está viciado no discurso empostado que não tem conexão com os fatos da experiência. Não é que você tenha aceitado esse discurso conscientemente, sabendo que é um discurso empostado. A aquisição desse modo de falar exige um esforço muito grande, e você acredita que está progredindo, está virando um intelectual — os outros intelectuais aceitam o que você está falando. Esse esforço tão grande, ao ser recompensado academicamente, não permite que você perceba que está ficando é mais burro.

Então, para escapar disso, você precisa ter um pouco de imaginação; precisa supor que por trás do discurso, por trás desses universais abstratos que se agitam — os regimes, as classes sociais, as forças, as tendências etc. —, existe um negócio chamado gente. (Tinha um amigo meu que dizia que o que dá azar não é gato preto, não é passar embaixo da escada, o que dá azar é gente). O que faz a História não são forças, não são tendências, não são universais abstratos. O que faz a História é gente. Claro que, às vezes, muitas ações somadas, padronizadas, produzem uma tendência geral. Mas, sem as ações, a tendência geral é nada; alguém tem de fazer aquilo. Você só entende o processo histórico quando você sabe quem fez o quê. “Quem” quer dizer fulano, cicrano, beltrano.

Por exemplo, o pessoal discute agora a crise econômica. “Quem criou a crise econômica? Foi isso, foi aquilo…”. Mas, na verdade, quem criou a crise econômica foi seu fulano, seu beltrano, fazendo isso, e isso e mais isso, e mais isso. E digo mais: não era branco, nem de olho azul. Já expliquei isso num artigo do Diário do Comércio [“Os pais da crise americana”, Diário do Comércio]. Quem criou essa crise foram hordas de negros, imigrantes ilegais, mexicanos etc., que, instruídos por gente como Barack Obama, pressionava os bancos para forçar empréstimos que eles não poderiam pagar. O banco, por sua vez, na ilusão de que depois poderia cobrar do governo, se aquilo desse errado, concedeu os empréstimos, e daí afundou tudo. Foi assim que foi feito. Foi uma crise planejada e executada. Levou trinta anos para fazer. Não foram forças anônimas, não foram “erros”, não foram “enganos”; foi uma coisa premeditada e que deu certo, um plano absolutamente brilhante. Está lá no artigo a estratégia de Cloward-Piven, está explicadinho.

A história só é legítima quando ela desce a esse nível de explicação. Em história, quando você tem de apelar para explicações sociológicas, é porque você não tem a narrativa histórica certa. A explicação sociológica é meramente hipotética.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 5, 25/04/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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