Toda a história da filosofia tem um teor dramático – Olavo de Carvalho

“Você não irá entender a narrativa histórica, se não for capaz de articular as ações e as falas dos personagens dramaticamente. Isso se aplica mesmo à história das ideias e da filosofia. Por exemplo, quando você estuda as obras de um filósofo — Benedetto Croce dizia: “você não entende uma filosofia se você não sabe contra quem ela se levantou polemicamente”. Todo mundo que está dizendo alguma coisa, está dizendo contra alguém, que disse alguma outra coisa. Esse alguém pode ser um filósofo, uma crença geral, uma doutrina consolidada, um dogma religioso, uma teoria científica, qualquer coisa, mas sempre se está discutindo com alguém. Julian Marías dizia: “a fórmula da tese filosófica não é: ‘A é igual a B’, mas ‘A não é B, e sim C’”. Precisa ter uma coisa que você nega para ter outra que você afirma.

Toda a história da filosofia tem um teor dramático; há sempre uma oposição em jogo. Essa oposição não pode ser vista só como oposição entre ideias, porque existem experiências por trás das ideias — existe, portanto, uma diferente formalização e interpretação da experiência por parte dos filósofos. Muitas vezes, quando você consegue rastrear as experiências que estão por trás das diferentes doutrinas, você vê que elas não são tão diferentes assim. Daí você vai entender do que elas estão falando.

No entendimento de uma filosofia, o que se passa é exatamente como no exemplo que eu dei, de reconstituir uma situação a partir das falas de um personagem. Se você não tem o texto dos outros personagens, você vai ter de recompô-los imaginariamente da forma mais verossímil e razoável que lhe pareça. Na história da filosofia antiga se faz muito isso: reconstituir textos inexistentes de filósofos a partir do que outros disseram a respeito. Você não tem o texto originário, mas tem um que o contesta, então você tenta reconstituí-lo. Grande parte do pensamento dos pré-socráticos foi reconstituída assim. É a chamada “doxografia”. O que quer dizer doxografia? “Doxo” é opinião — é uma coleção de opiniões. Você vai tirando as opiniões de várias fontes — que não são as fontes originárias dos próprios autores, mas o que terceiros disseram a respeito, seja para concordar, seja para discordar, seja para comentar de algum modo. Assim você consegue às vezes reconstituir quase a filosofia inteira de um sujeito a partir do que os outros disseram.

Isso aí já mostra a importância do elemento dramático. Existe sempre um conflito, e ele tem de ser reconstituído em sua inteireza — não como um conflito de ideias, mas como um conflito de pessoas reais; pessoas cujas experiências as suas respectivas doutrinas só expressam parcialmente, de tal modo que, a partir da doutrina, você tem de reconstituir a situação inteira. Para isso é que é preciso o treino literário — treino literário, como eu disse, não como se ensina literatura nas escolas hoje, mas que consiste em ler todo esse material como Aristóteles lia, ou seja: as obras de ficção não expressam uma realidade histórica, mas expressam uma realidade possível. São tipos de personagens possíveis, tipos de situações possíveis. Essas situações humanas são em número limitado; existe um certo conjunto de esquemas. Quando você conhece a maior parte dos esquemas, fica mais fácil especular o que se passou em tal ou qual situação. Os seres humanos não são tão diferentes assim.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 005, 25/04/2009.


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