Ampliar e enriquecer a imaginação para ser capaz de entender as situações humanas – Olavo de Carvalho

“A memória e a imaginação funcionam dando forma para as coisas, quer dizer: você capta o material dos sentidos, os agrupa e cria uma forma repetível. Essa forma pode ser repetida como tal, ou pode ser elaborada, misturada com outras etc. Você só reconhece a forma do que está se passando por analogia com as formas já consolidadas na sua memória. Você não entende absolutamente uma situação que seja totalmente nova e que não tenha nada a ver com as formas consolidadas na sua memória. Quando eu digo analogia, eu quero dizer que a situação não repete exatamente o que você já conhece. O que é analogia? Analogia é uma mistura de semelhanças e diferenças. É no jogo de semelhança e diferença que você reconhece no quê a situação nova repete as situações anteriores, e no quê ela tem algo de próprio e diferente. Essa nova situação, por sua vez, vai constituir uma nova forma, que será base para novas comparações, e assim por diante.

Isso significa que numa comunidade humana grande, numa sociedade, você pode dar por pressuposto que aquilo que não esteja no imaginário — que não esteja consolidado no teatro, na literatura, nos espetáculos, no cinema — não será reconhecido. As situações do mundo real são interpretadas à luz do que você viu no cinema, no teatro etc. Essas formas imaginárias são os modelos pelos quais você entende as coisas. Se algo que se passou é muito diferente dos modelos consolidados, não terá inteligibilidade e muito menos credibilidade para as pessoas. Por isso, quando o sujeito faz um filme e coloca lá: “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”, isso aí é uma empulhação, porque, sempre que você conta uma história, o que você está dizendo é como as coisas podem se passar. Você está mostrando apenas uma possibilidade. Mas se você mostra sempre as mesmas possibilidades, o que escapa desse mundo de possibilidades não é compreensível e não tem credibilidade.

A responsabilidade do ficcionista é enorme. O ficcionista que inventa uma história está moldando a cabeça do seu espectador muito mais do que o jornalista que dá uma notícia, porque o sujeito toma conhecimento de uma notícia através de um resumo escrito ou de um filminho, um documentário de dois minutos que passa na televisão, mas os modelos que foram acumulados no cinema são horas e horas e horas, e aquilo se repete, você pode ver várias vezes. E um filme repete o outro, que repete o outro, que repete o outro… As pessoas acreditam mais nos filmes de Hollywood do que no noticiário, e é natural que seja assim. É por isso que a famosa liberdade da arte — “não, o sujeito tem liberdade criativa, você não pode sufocar a inspiração” — só serve como desculpa se houver também a responsabilidade correspondente. Quer dizer, você acostumou o público a ver assim ou assado, então, quando acontece uma coisa diferente, eles não entendem.

Por exemplo, agora que estou vivendo nos Estados Unidos, eu vejo que aqui o cinema acostumou as pessoas a entender que tudo o que acontece neste país começou aqui dentro mesmo. A ação do estrangeiro não existe para o americano. Não existe! Você veja, houve épocas em que aqui dentro havia mais agentes da KGB do que do FBI. E, no entanto, você não vai ver um filme de Hollywood que mostre uma ação da KGB dentro dos EUA. Quando se fala em ação da KGB, a coisa se passa na Europa, na Ásia — aqui dentro, não. Isso quer dizer que o estrangeiro pode chegar aqui dentro e fazer o que quiser. Ele está fora do imaginário americano e, portanto, você pode até contar o que ele fez, mas não haverá impacto. Por outro lado, se você disser: “Olha, tem uma companhia de petróleo que fez assim, assim” ou “A CIA fez assim, assim”, aí tem um impacto, porque eles estão acostumados com isso. É incrível! É uma espécie de provincianismo mental da metrópole. Eles sabem que são o país mais poderoso do mundo, mais rico, mais importante; acreditam que só eles são os agentes, e nunca os pacientes — eles nunca sofrem a ação. E, no entanto, se você acompanha a história do jornalismo norte-americano, você vê que as opiniões que se tornaram dominantes na mídia, as opiniões que são mainstream hoje, são idênticas às da propaganda da KGB de cinquenta anos atrás. Logo, você vê que essa ação teve um impacto profundo. Mas se você disser isso para um americano, ele fica até ofendido. Ele não pode aceitar a ideia de que eles foram vítimas inermes de um estrangeiro mais inteligente. Aqui, qualquer teoria da conspiração que aponte os culpados usuais — geralmente a CIA ou as grandes corporações — é acreditada, mas não será acreditada, se apontar um agente estrangeiro. Veja o impacto da obra de ficção.

Então, se nós quisermos nos tornar capazes de entender as situações humanas — infinitamente mais complexas do que essas que eu estou explicando —, o único jeito é ampliar e enriquecer a imaginação, e o meio para fazer isso é literatura de ficção. Leiam tudo, tudo, tudo! Quanto mais ler, quanto mais guardar na memória, melhor para vocês.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 005, 25/04/2009.


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