O homem vive dentro de um mundo de virtualidades – Olavo de Carvalho

“Se nós fôssemos reduzir o nosso conhecimento do mundo àquilo que é atual e presente em modo físico, esse mundo se reduziria drasticamente. Você estaria, mais ou menos, na situação de um doente que, sem memória, acabou de acordar em um hospital sem saber onde está,  recebendo apenas os estímulos sensoriais físicos daquela situação presente. Assim, você estaria praticamente reduzido a uma inconsciência ou a um estado de consciência tão diminuído que estaria até mesmo abaixo do de um cachorro ou um gato, porque esses animais também se orientam com relação a um certo passado e a uma certa expectativa do futuro.

Até os cachorros vivem em um mundo virtual. Por exemplo, a cachorra que acabou de ter seis filhotes. Ela sai para comer alguma coisa, para fazer um ”pipi” lá fora, e quando volta ela reconhece aqueles cachorrinhos como sendo os dela. Esse reconhecimento não é nada de real, pois ela está pegando uma conexão virtual. A identidade dos cachorrinhos, a perseverança deles na sua identidade, não é um dado físico, mas um reconhecimento, ou seja, é algo que depende da memória da cachorra. Quer dizer, a unidade dos filhos dela, o reconhecimento de que são os mesmos cachorrinhos, depende da memória dela, é algo que se efetiva na memória e não como presença física real.

Toda esta dimensão que nós chamamos, por exemplo, a sociedade humana: como é que você sabe que vive dentro de uma sociedade? A presença na sociedade é ainda mais virtual do que estas que eu estou mencionando. Você não pode perceber a sociedade fisicamente presente em parte alguma, mesmo porque ela se espalha por um espaço que para um indivíduo humano é fisicamente inabarcável. Quantos milhões de quilômetros quadrados tem o Brasil? A sociedade “brasileira” está espalhada por todo esse território, e você não tem nenhum acesso físico a isso. Também, você não tem acesso físico a todas as leis. O que é são as leis? As leis são um sistema de reações possíveis que algumas pessoas investidas de autoridade e poder terão se acontecer isto ou mais aquilo. Por exemplo, se você deixar de pagar um imposto, eles lhe cobrarão uma multa; se estacionar em lugar proibido, eles lhe darão, também, uma multa; se cometer um assalto, um estupro, um assassinato, você será punido. Quer dizer, tudo isso é virtual: se isto, então aquilo. Você lê o Código Penal e lá tem uma série de prescrições que dizem o que acontecerá se você fizer isto ou aquilo. Tudo isso é hipotético e, no entanto, é esse conjunto de leis que rege, de fato, as relações entre as pessoas. O Código Penal ou o Código Civil ainda tem a vantagem de que eles estão escritos.

No entanto, existem uma série de leis não escritas, uma série de hábitos, de costumes, de reações que as pessoas terão, que também não estão fisicamente presentes, mas com as quais você conta: se fizer isto, então vai dar aquilo; se se comportar desta ou daquela maneira fulano não vai gostar, o outro vai achar ruim, e pode-se perder o emprego. Por exemplo, não está dito em parte alguma que não se pode chegar no emprego pintado de verde. Mas se você se pinta todinho de verde, da cabeça aos pés, e vai no seu emprego trabalhar como se nada tivesse acontecido, é certo que isso vai causar uma incomodidade, e você pode ser considerado um sujeito inconveniente e perder seu emprego — ainda que não haja nenhuma lei, nem nada no regulamento da empresa, que o proíba. Todos nós contamos com uma infinidade de reações possíveis e a nossa conduta é toda pautada pela expectativa dessas reações possíveis que são virtuais. Se são possíveis, são apenas virtuais.

Então, isto é para vocês perceberem que o ser humano vive, de fato, em um sistema de virtualidades, que ele não vive em um universo físico. O universo físico é um componente ínfimo do mundo humano. A quase totalidade das coisas, com as quais nós nos relacionamos, são puramente virtuais: pessoas, situações, fatos. É neste mundo virtual que nós efetivamente vivemos, isto é, o virtual é efetivo. (…) De todas as expectativas e regras tácitas, ou regras expressas que regulam a sua conduta, só uma parte ínfima se manifestará fisicamente no presente.

(…) O que é atual, o que é presente na vida das pessoas, é esse conjunto de expectativas virtuais dentro do qual nós vivemos. À medida que nós crescemos, acontece uma coisa muito estranha: nós vamos passando cada vez mais do atual para o virtual, isto é, o virtual vai se tornando o atual para nós.

Um bebê recém-nascido vive apenas dentro do mundo da estimulação física direta. Quando sente fome, ou sono, ou dor, ele chora, pois não prevê situações futuras em que isso pode acontecer: ele vive muito em função daquilo que já está presente, que já está fisicamente manifesto. Com o tempo, ele vai aprendendo a se relacionar cada vez mais com esse universo do virtual, do possível. Por exemplo, quando ele se acostumou com certo brinquedo, ele reclama quando falta aquele ursinho, aquela boneca. Ele quer que a mãe vá buscar o ursinho, que não está presente, e não existe nenhum indicador físico, no corpo da criança, da ausência dele. A ausência do ursinho não dói, não cria frio, não cria calor, não cria incomodidade, é um negócio puramente virtual que se passa na mente do bebê. Ele criou apego àquele brinquedo, e ele sente a falta dele. Mas o sentir falta de um brinquedo não é a mesma coisa que sentir fome — a palavra sentir é a mesma, mas a experiência real é diferente. A fome se apresenta através de um mal estar físico intenso. Agora, o sentir falta de um brinquedo, ou de uma pessoa, ou de um cachorrinho é diferente — o garoto chegou na sala procurando o cachorrinho, e o cachorrinho não estava, então ele sente falta. Mas onde é que ele sente falta? É na barriga, é na cabeça, é no pé? Não é fisicamente, você não consegue localizar isso aí. Neste momento, ele já entrou na rede das relações virtuais, que é o mundo onde efetivamente nós vivemos.

Na vida diária, nós simbolizamos aquilo que é real e o distinguimos do falso, do imaginário, etc., mediante o símbolo da presença física. Mas isso é apenas um símbolo, uma figura de linguagem: o fisicamente presente é apenas uma figura de linguagem. Na maior parte dos casos, a distinção entre realidade e fantasia não tem nada a ver com o atual e o virtual, é completamente diferente. Por exemplo, se um sujeito está sendo investigado por um crime, e você descobre as provas que atestam que ele é inocente ou culpado. Quando você tem a prova, diz: ”Esta é a verdade: ele cometeu este crime, ou ele não cometeu este crime”. Muito bem, esse crime não está fisicamente presente. O juiz não viu o crime, os advogados não viram o crime, os jurados não viram o crime, o publico todo não viu o crime e talvez não haja sequer testemunhas. Tudo isso é uma coisa que se passou em um passado que é irrecuperável fisicamente. Esse passado só pode subsistir em documentos, em testemunhos, é como se fosse um passado de papel. Quer dizer, o crime, o ato do crime, já não está mais fisicamente presente. Quando você descobriu a verdade sobre o crime, ele já não está mais fisicamente presente, e ele não é renovável. Você não vai pedir para o assassino matar a pessoa de novo, para comprovar que ele é assassino mesmo.

Então, nós vivemos nesta rede de sinais do passado e de expectativas, antecipações do futuro que compõem exatamente esse mundo virtual. (…) À medida que crescemos, nós vamos penetrando em círculos cada vez maiores de virtualidade. Por exemplo, quando você aprende a falar, entra em um círculo de relações imensamente maior do que você poderia ter só pela presença física. E todas essas relações são reais para você, elas estão presentes, você as sente como presentes, embora não estejam fisicamente presentes. Se, por exemplo, uma pessoa lhe diz algo desagradável, ela fisicamente não lhe fez nada. Se ela lhe diz uma frase humilhante — ou se diz: ”Eu não gosto de você, você é uma besta quadrada” —, ela não lhe deu uma pancada, não lhe deu um pontapé, não puxou sua orelha, não pisou no seu pé. Por que que isso lhe faz mal? O que faz você ficar triste ou ofendido diante disso? É a expectativa que você faz de outras reações e situações possíveis que podem decorrer daquilo: não é nenhum estímulo presente.

Através da linguagem, abre-se uma rede de virtualidades imensamente maior. Você chega um ponto em que já pode contar a sua história. Veja que crianças pequenas não contam a sua história. Dificilmente. Elas estão muito ocupadas com a conquista de círculos de experiências cada vez mais amplos; então, não têm tempo de voltar para dentro e recordar o passado. Mas, à medida que as suas experiências se acumulam, você conquista, por assim dizer, um passado: você tem sua memória, tem sua história. Essa história não está mais presente, mas você pode senti-la como se estivesse: os momentos alegres e tristes que você viveu, as expectativas que se cumpriram e as que foram frustradas, e assim por diante.

Então, isso que eu estou dizendo é suficiente para você ver como qualquer visão do ser humano que seja centrado na sua realidade física é falsa. O homem vive dentro de um mundo de símbolos, de expectativas, de virtualidades — é aí que nós vivemos.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 007, 16/05/2009.


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