A nossa linguagem pode ficar presa dentro de uma rede de simbolismos absolutamente pueris – Olavo de Carvalho

“À medida que nós vamos crescendo e penetrando em círculos cada vez mais amplos e complexos de virtualidades, isso não quer dizer que a nossa linguagem —  com linguagem eu não quero dizer somente as palavras, mas a linguagem e o imaginário todo, todos os meios que você tem para se comunicar com os outros e consigo mesmo — cresça na mesma proporção e se torne capaz de expressar os novos círculos de experiência com toda a riqueza e complexidade que eles têm. Ao contrário, a nossa linguagem pode ficar presa dentro de uma rede de simbolismos absolutamente pueris, símbolos de bebês, isto é, você tem experiências mais complexas e, no instante em que as tem, você as compreende, mas não é capaz de refletir sobre elas porque não tem os símbolos adequados, os seus símbolos estão presos à linguagem do bebê. A sua linguagem pode expressar apenas as experiências físicas mais imediatas. Isso quer dizer que o descompasso entre a ampliação progressiva do círculo de experiência e a ampliação da linguagem dos meios de reflexão é um dos grandes problemas da espécie humana.

A educação existe, entre outras coisas, para suprir isso. Por quê? Que o círculo de experiência cresça é inevitável: à medida que você cresce fisicamente, e que tem outras possibilidades de ação que não tinha como bebê, é normal que sua experiência vá se ampliando. Porém, os seus meios de refletir sobre a experiência não crescem naturalmente, eles teriam que ser aumentados pela educação. Quando a educação falha em dar isso, as pessoas começam a viver em dois andares: um é o círculo da sua experiência real, daquilo que elas realmente vivem, sentem, experimentam, antecipam, temem, desejam etc.; outro, é o mundo daquilo que elas são capazes de refletir e expressar em palavras.

O descompasso é tão grande, tão grande, que, na maior parte dos casos, as pessoas consideradas em si mesmas são muito mais interessantes do que aquilo que elas são capazes de dizer de si próprias, ou seja, como a linguagem e o meio de reflexão é deficiente, a pessoa se banaliza. Ela diminui a riqueza da sua experiência e acaba criando uma autoimagem simplificada que não corresponde à realidade daquilo que um observador mais experiente e mais equipado consegue perceber nela. Considerado objetivamente, não há pessoas simples ou simplórias. A mente mais simplória é enormemente complexa, porque ela tem uma história, tem uma memória, e contar a história de uma pessoa simples pode ser uma dificuldade enorme. Contar com uma certa exatidão, com uma certa fidedignidade a história de uma pessoa simples pode ser uma dificuldade tão grande que alguns dos maiores escritores da humanidade pularam como cabritos para fazer isso. Agora, por exemplo, eu estou lendo as obras do grande escritor português Aquilino Ribeiro. Os personagens do Aquilino Ribeiro são realmente camponeses, pessoas simples, mas, para contar a vida deles, ele usa todo o vocabulário da língua portuguesa, é um dos escritores de vocabulário mais ricos que eu já vi. Se elas fossem contar suas próprias vidas, não conseguiriam perceber em si mesmas o que ele está mostrando ali.

Então, é este descompasso entre a experiência real e a consciência que a educação visa a suprir. Para isso, ela tem que transmitir em primeiro lugar os meios de expressão, sobretudo os meios de expressão linguística, tem que ensinar as pessoas a dizer o que se passa na sua experiência real. Acontece o seguinte: a experiência humana é infinitamente variada, cada indivíduo humano tem a sua própria história, suas próprias circunstâncias, suas próprias memórias, etc. E a linguagem, quer dizer, o vocabulário em uso em um determinado meio social é mais ou menos o mesmo para todas as pessoas. Você tem formas de expressão mais ou menos padronizadas. Somente os escritores — e quando falo escritor, não digo qualquer um que publique livros, eu estou falando de escritores que trabalham dentro de uma tradição literária, que tem consciência dessa tradição e que aprenderam com ela, isto é, escritores de fato — se dedicam a flexibilizar a linguagem e enriquecê-la de modo que ela possa expressar experiências reais.

Daí por que o aprendizado da literatura é essencial — não no sentido em que ele é aprendido nas faculdades de Letras, porque nas faculdades de Letras as obras de arte literária se transformam em objetos de estudo, elas é que são o objeto. Ora, uma coisa é você saber usar uma linguagem e outra coisa é você tomá-la como objeto de estudo. Por exemplo, você pode saber tudo sobre mecânica de automóveis sem saber guiar um automóvel. Mecânica de automóvel você aprende em um livro. Um garoto, que mal tenha aprendido a ler, pode ler um livro de mecânica de automóveis e aprender tudo, mas ele não sabe guiar, quer dizer, o pé dele não vai nem alcançar o acelerador, o breque, a embreagem. Por outro lado, você pode dirigir um carro perfeitamente bem sem ter a menor ideia de como e por que aquilo funciona. Basta isso para você perceber a diferença que existe entre apropriar-se da linguagem como meio efetivo de expressão e estudar as obras de arte da palavra como objetos. Esses dois enfoques são tão diferentes que esse segundo pode se tornar um obstáculo ao primeiro, porque quando toma algo como objeto, você se desidentifica dele, perde aquela relação próxima, cálida, afetuosa com o objeto e o considera friamente como uma coisa que está separada de si.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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