Vocês têm que tomar posse das obras de arte literária como uma criança que está aprendendo a falar – Olavo de Carvalho

“Agora, pergunto eu: o que acontece quando pessoas que não têm o domínio efetivo, o domínio prático da linguagem, começam a estudar obras de arte literária como objetos? Elas se imbecilizam definitivamente. Assim, tornam-se pessoas incapazes de expressar sua experiência real e somente capazes de tecer considerações sobre objetos que elas não têm a menor ideia para que servem. Então, é muitíssimo importante que nesta fase dos nossos estudos vocês não estudem obras de arte literária como objeto.

Aqueles que, entre vocês, têm a infelicidade de ser alunos de faculdades de Letras, por favor, façam abstração do que aprenderam lá. Vocês têm que tomar posse das obras de arte literária como uma criança que está aprendendo a falar. Você vai ter que aprender a falar como esses escritores, de modo a poder usar os instrumentos que eles criaram — os giros de linguagem, o vocabulário, a sintaxe — como um instrumento seu. O que você tem de aprender é a imitar esses escritores. Imite um, depois imite outro, e outro, e outro — vai imitando vários. Dessas várias imitações, você irá, aos poucos, compondo o conjunto de instrumentos expressivos que lhe interessa para os seus próprios fins. Depois de ter essa experiência viva das obras de arte literária durante muitos anos, você vai ter uma coleção de exemplos de artes literárias na sua mente, e você já terá absorvido o que essas obras podem lhe dar. Depois disso, você pode, talvez, considerá-las como objetos e entrar em estudos literários. Mas se você fizer isso antes, estará lesando a sua mente.

Do mesmo modo, os estudos de gramática. Você deve aprender a gramática imitando escritores e não estudando gramática. O estudo da gramática faz sentido depois que você tem o uso da linguagem — daí você vai analisar aquelas estruturas e dar o nome delas. Eu não aprendi nada de gramática até os trinta e dois anos, e eu escrevia perfeitamente, de maneira inteiramente gramatical, porque eu tinha lido centenas de bons escritores e tinha assimilado todos aqueles truques de linguagem. Não são bem truques, mas instrumentos expressivos. Eu simplesmente escolhia dentro do que eu tinha na memória — as palavras, as construções, os encadeamentos — tal como eu necessitava. Se você começa por estudar gramática e tem a preocupação da correção gramatical no início, você nunca vai aprender a escrever, vai ficar sempre um camarada artificial. Uma coisa é a linguagem como instrumento real, vivo para seu uso; outra, é a linguagem como objeto de estudo. Tanto a gramática como os estudos literários tomam a linguagem como objeto de estudo e não como objeto de uso. Uma coisa que para você é só objeto de estudo e não objeto de uso é uma coisa morta, que não tem validade, presença pessoal. 

Vocês vão ler os escritores com esta ideia de aprender a expressar o que eles expressaram. De início, você vai ver que eles usam uma linguagem pessoal para expressar algo que estão querendo dizer, algo que está na imaginação deles, na memória deles ou nos sentimentos deles. Mas, aos poucos, quando tiver lido vários escritores, você vai ver que esses esquemas servem para situações análogas suas. A imitação é extremamente importante, pois é nela que você vai aprender a modular o tom conforme as necessidades precisas. Eu recomendo que quando comece a ler um autor — não em filosofia, mas em literatura —, você leia, de preferência, a obra inteira dele ou pelo menos as obras principais, justamente para assimilar o estilo, e que imite servilmente o modo dele escrever. Depois, você vai imitar outro escritor que vai te libertar das imitações do primeiro, e outro, e outro, de modo que os males da imitação serão corrigidos pela própria imitação. No fim, você vai ter um repertório tão grande que verá já não estar mais imitando ninguém, estará escrevendo como você mesmo. Isso é uma coisa que deve acontecer naturalmente. Não tenha, portanto, essa preocupação de originalidade no começo. A originalidade na expressão literária é uma conquista e não uma obrigação. Você não tem a obrigação de ser original no começo, você será original se puder, quando chegar lá.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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