A passagem da expressão literária à reflexão não é uma passagem direta – Olavo de Carvalho

“Eu considero que o aprendizado literário é absolutamente fundamental para a filosofia. A filosofia se expressa também de palavras e usa todos os recursos da expressão literária e mais alguns que a expressão literária não conhece, porque ela vai passar da simples expressão à reflexão. E não somente à reflexão, mas à busca da verdade através da reflexão. Todo o mundo da literatura é o mundo da expressão de experiências. A literatura não está especulando o que essas experiências significam universalmente, por isso é que você não consegue tirar conclusões morais de uma obra de arte literária. Na conclusão moral, você está passando da mera expressão da experiência para uma reflexão mais profunda, em face de critérios que se pretendem universalmente válidos. Se o romancista ou novelista fosse parar para fazer isso, ele não ia poder acabar de contar a história, porque a mente dele se complicaria de tal modo com questões teoréticas que ele acabaria escrevendo um tratado de filosofia moral ou de psicologia.

A passagem da expressão literária à reflexão não é nem uma passagem direta. Na Teoria dos Quatro Discursos existe um primeiro andar, que é a expressão da experiência — a poética —, e existe um segundo andar, que é a retórica. Na retórica, você já não está mais falando apenas de universos possíveis. Aristóteles diz que as obras de arte literária contam não aquilo que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido. Mesmo quando você está contando uma história real, por exemplo, um romance histórico, você o está contando não como real, mas como possível. Ora, o discurso retórico é um discurso, em primeiro lugar, de autojustificação, que é a favor ou contra alguma coisa, portanto ele implica uma escolha pessoal. Essa escolha já não existe na obra de arte poética, porque ela é apenas o mundo possível. Você não está ali sendo convidado a tomar uma atitude, está apenas contemplando a complexidade das escolhas colocadas a personagens reais ou hipotéticos, mas o problema que está em jogo é deles e não seu. Por exemplo, quando Hamlet descobre que um sujeito matou o pai dele, o que ele vai fazer? Ele vai perdoar ou vai vingar-se? Isso felizmente não aconteceu para a maior parte de nós, nós não temos esse problema.

Porém, existem algumas escolhas na vida que você tem de fazer realmente. Você vai ter que se persuadir delas e persuadir os outros de que você está certo — aí é que você entrou na retórica. Na retórica é que entra o problema das escolhas pessoais, dos valores pessoais, e só depois disso — só depois de você ter feito muitas escolhas pessoais e ter percebido contradições entre elas — é que vai entrar o exame dialético, que é a confrontação dos vários discursos retóricos possíveis. Isso quer dizer que na passagem do estudo literário para a filosofia vai haver um salto. Esse salto é dado através da retórica, que é o mundo das escolhas pessoais, da vontade, do poder, da influência, da política, da propaganda. Ora, portanto esse é o mundo que implica a mediação de toda a sociedade humana. Quando decide agir assim ou assado em face de certas circunstâncias, você toma uma atitude pessoal e a justifica, está usando os valores que você imagina que o público em volta acredita, como justificação para uma conduta especial sua. Você está fazendo uma mediação: a sociedade, tal como você a concebe, está funcionando como mediadora entre a sua conduta e o público ou ouvinte para o qual você quer justificar aquilo. Se você não tiver um certo domínio disso, não vai chegar à reflexão.

A sequência dos quatro discursos é a sequência natural da educação humana. Primeiro você aprende a imaginar o mundo, ou seja, aprende a conquistar uma linguagem que seja suficientemente rica, ampla e flexível para dar conta da sua experiência real e simplesmente expressá-la, dizer o que está acontecendo. Em seguida, você entra na esfera das atitudes e escolhas pessoais, na esfera do exercício da moralidade, no qual surge o problema do certo e do errado, do preferível e do preterível, do melhor e do pior, não justificados em termos abstratos e universais, mas usados como legitimação das suas próprias ações e das suas próprias escolhas. Só depois de ter usado essa linguagem — de ter aprendido a usar a linguagem como um instrumento para influenciar as pessoas —, é que você pode refletir.

A segunda etapa, da retórica, é da conquista de um poder. A reflexão filosófica não foi feita para crianças, mas para quem é capaz de exercer esse poder e atuar como um cidadão, um membro adulto da sociedade humana capaz de exercer um poder, de dar e receber ordens, de influenciar, de persuadir e, portanto, de induzir os outros a fazer o que ele disser que façam. Só a partir desse momento, é que a reflexão filosófica começa a fazer sentido.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: