A maior parte do que hoje se faz como pretexto de ficção científica é forçado e artificioso – Olavo de Carvalho

“É claro que a imaginação é a única função pela qual podemos conhecer o possível. A função específica dela é essa. Acontece que a especulação do possível nem sempre se dá sob a forma da reprodução exata das imagens literais que expressam o possível, pode-se expressar através de símbolos que o condensem, e, neste caso, histórias aparentemente impossíveis podem expressar possibilidades reais.

Porém, nos últimos tempos tem aparecido uma série de histórias, sobretudo no cinema, nas quais situações que são realmente impossíveis, são vividas como se fossem possíveis. Isso só serve para paralisar a sua imaginação. Você está entrando na esfera de hipóteses tão rebuscadas que raciocinar sobre elas é uma perda de tempo. Por exemplo, a história do Exterminador do Futuro: o sujeito que retorna ao passado para modificar retroativamente o seu próprio futuro. Você pode usar isso como uma especulação em torno do problema da responsabilidade: se você em tais ou quais situações pudesse ter agido de modo diferente, o que teria acontecido? Se essas histórias são usadas nesse sentido, então pode até funcionar. Mas não esqueça que é próprio da linguagem poética conseguir compactar dimensões da experiência que geralmente aparecem separadas e que só se compactam na linguagem. Por exemplo, a história do Kafka, do sujeito que acordou e percebeu que tinha virado uma barata — isso só acontece na dimensão da linguagem. Ele vai juntar numa só frase a consciência humana de poder refletir sobre o seu estado com a experiência de ser tão desprezível quanto uma barata. Mas a barata não tem essa consciência. Isso só pode se fundir na linguagem poética propriamente dita.

Se você pega uma história como a do Super-homem: o que você faria se você tivesse tais ou quais poderes? Você pode raciocinar nesse sentido, porém seria mais plausível fazer isso por etapas e não saltar direto do seu estado de impotência para um de quase onipotência. Além disso, existe uma espécie de coerência imaginativa: aquilo que está sendo proposto como história tem de ser coerente com ele mesmo, senão entra um componente extremamente sério que é a mistura da imaginação com o raciocínio hipotético. Imaginar uma sequência de acontecimentos é uma coisa, fazer hipóteses é outra. Fazer hipóteses é uma atividade da razão construtiva, que pode conceber coisas que vão muito além da imaginação. Por exemplo, em matemática, você consegue lidar com unidades que são inimagináveis: n235 — você pode raciocinar sobre isso, mas não imaginá-lo concretamente.

Ora, a imaginação trata do mundo da experiência concreta e real, seja imaginada de acordo com a memória — como as experiências foram vividas mesmo —, seja compondo e misturando como faz, por exemplo, o Kafka, misturando a autoconsciência humana com o estado de barata. Porém, quando a imaginação começa a ser serva do raciocínio hipotético, ela perde vida e começa a ficar uma coisa artificiosa. Se se acostuma com essa linguagem artificiosa, você perde a sua capacidade expressiva. É melhor que você use a imaginação tal como ela aparece ou no seu mundo da memória ou como ela aparece nos seus sonhos. Quando a imaginação mistura coisas diferentes, ela mistura de tal maneira que consegue expressar compactamente coisas que estão muito afastadas entre si mas cuja junção faz sentido: como o exemplo da barata, que estou dando.

Porém, o raciocínio hipotético consegue conceber coisas que não fazem o menor sentido, que são puras construções mentais e que escapam da expressividade da humana, seja a experiência real, seja a experiência imaginária. A maior parte do que hoje se faz como pretexto de ficção científica, ou de filmes de horror, é exatamente isso. É forçado e artificioso demais, não tem nada a ver com a experiência humana interna ou externa, são meras hipóteses racionais coloridas de imagens. Isso perde a força simbólica e torna-se mera alegoria. O que é alegoria? É uma imagem inventada para dizer alguma coisa que podia ser dita de outra maneira. Ora, a verdadeira linguagem poética consegue dizer coisas de tal modo que você não conseguiria dizer de outra maneira.

É melhor conservar essa linguagem imaginária e literária para aquelas coisas que não podem ser ditas de outra maneira. Fora disso, você entrar num mundo de especulações hipotéticas que são puros produtos lógicos, mas sem consistência lógica. Eles não têm persuasividade. Quando você assiste um filme como 3:10 to Yuma, com Russell Crowe, e tem aquele problema do menino com o pai, aquele drama humano todo, você vivencia aquilo como se estivesse efetivamente acontecendo. Mas quando você assiste ao Super-Homem, o que acontece?”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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