Eu não conheço um país onde o mundo do ideal e mundo do real estejam tão separados quanto no Brasil – Olavo de Carvalho

“A linguagem da cultura brasileira é toda a linguagem da presença física imediata, e ninguém pode pensar nada acima disso. Isso já é antigo no Brasil. Eu não conheço um país onde o mundo do ideal e mundo do real estejam tão separados quanto no Brasil. Porque a realidade do ser humano é o trajeto dele em direção a um ideal, a um objetivo — esta é a única realidade que ele tem, não há outra realidade.

Se, como acontece no Brasil, o que se chama de realidade é apenas um mundo da rotina mais acachapante e mais estúpida que você pode imaginar, então você já perdeu a guerra desde o início. O Brasil é o país das vocações frustradas, é o país onde é normal ser fracassado e onde dar certo é uma exceção que requer um milagre divino ou uma intervenção diabólica. Só as pessoas diretamente ajudadas por Deus ou pelo diabo é que dão certo no Brasil, os outros são todos fracassados e isso é considerado normal.

Portanto, o que a sua família, os seus amigos e o seu meio social vão te ensinar é conformar-se com a derrota. Só que isso é uma espécie de ilusão nacional, é só no Brasil que vigora. Se você atravessar a fronteira e for para a Argentina, o argentino já não vive isso. E quando o argentino chama o brasileiro de ”los macaquitos”, é isso, em parte, que ele está querendo dizer: são pessoas que vivem uma forma diminuída de existência, são pessoas que não têm acesso àquilo que verdadeiramente constitui a existência humana — vivem abaixo da existência humana, porque acreditam nisso. E é só porque acreditam, pois não há nem mais meio motivo para que as coisas sejam assim.

Por exemplo, outro dia um rapaz escreveu-me dizendo o seguinte: ”A filosofia será uma coisa de elite, porque a gente precisa comprar livros e os livros custam caro etc.” — a gente vê que quando ele fala o negócio de elite, há um certo elemento de inconformidade ou de revolta. Então, eu comecei a pensar e reparei o seguinte — não que eu reparei naquele momento, eu já tinha reparado antes: na cultura brasileira, a necessidade que você tem de trabalhar, prover o seu próprio sustento, é vista somente como uma imposição absurda de um mundo mau, não como um dever.

O resto do mundo inteiro, praticamente a humanidade inteira, sempre soube que o dever de você prover o seu próprio sustento e o sustento dos seus, mais do que uma necessidade, é um dever, um dever moral, uma coisa que tem significação moral em si mesma e que o sujeito que se recusa a isso nunca vai ser gente. Agora, no Brasil, é assim: o normal seria não ter que fazer isso, ou seja, se eu preciso de dinheiro para pagar as minhas contas, isso é apenas uma imposição absurda do universo hostil em cima de mim. Esse dever moral é uma coisa que não existe dentro do sujeito, ele não quer fazer isso, ele não sente aquilo como o apelo de um dever e como parte da sua vocação, ele acha o contrário: ”Tenho aqui a minha vocação por um lado e, por outro, tenho a necessidade de ganhar dinheiro”. Meu Deus! Isso é uma visão tão artificiosa das coisas, porque se você não prover a sua própria subsistência, alguém vai ter de provê-la.

(…) Ora, uma sociedade baseada nesses princípios nunca pode dar nada, só pode dar cinquenta mil homicídios por ano mesmo, o governo do PT e o ”mensalão” — só pode acabar assim, gente! Quando digo que o Brasil é hoje o país mais burro e mais assassino do universo, eu não estou xingando, estou dizendo uma realidade cientificamente comprovada. Os nossos estudantes são os piores do mundo, eles se saem pior do que alunos de países muito mais pobres, e o Brasil é recordista de homicídios por ano. Então, é o povo mais burro e assassino do mundo. Por que é que chegou a ser assim? Por causa desse tipo de mitos e de mentiras impregnadas na cultura.

Por exemplo, eu sugeri que vocês lessem o livro do Orígenes Lessa, O Feijão e o Sonho, em que o sujeito quer ser um escritor, mas ele tem de trabalhar e a mulher dele está grávida: de um lado, a necessidade do feijão e, de outro, a necessidade do sonho. Isso é típico da cultura brasileira. Meu filho, o dever que você tem de trabalhar, de se sustentar, de prover as suas próprias necessidades e a da sua família, é parte integrante da sua vocação. Se você se recusa a fazer isso, você não merece que a gente lhe dirija a palavra, porque você é subumano, é um ladrão. O sujeito que acha que os outros, ou que a ”sociedade”, tem a obrigação de sustentá-lo — e não ele mesmo — e, ainda assim, pensando com essa ideia baixa, nojenta, porca, ele quer ser um escritor… um sujeito desses tem de apanhar!

(…) ”Ah, eu não posso estudar, porque eu tenho que trabalhar etc. etc.” — mas só as pessoas que têm que trabalhar é que podem estudar, meu filho. Em primeiro lugar, quantas horas você acha que aguenta estudar por dia? Eu, que tenho prática de mais de quarenta anos, hoje, consigo produzir razoavelmente uma vida de estudos de quatro horas por dia. No começo, você não aguenta mais de uma ou duas. Portanto, você precisa apenas de uma ou duas. O que é que o seu trabalho tem a ver com isso? Nada. Se tivesse o dia inteiro livre para estudar, você estudaria uma hora. E se você tem de trabalhar de dia e só tem horário livre de noite, você vai estudar quanto? Uma hora. Não vai fazer a menor diferença.

Tudo isso é baseado numa crença cultural que cria uma oposição entre as pessoas e a estrutura da realidade. Coloca elas numa situação de idealidade absurda, e como essa idealidade não se realiza, elas acham que elas estão sendo vítimas. Ora, eu, no começo da minha vida, tive muita sorte de ler Goethe. Ele era um sujeito que tinha toda uma ética do trabalho, e dizia: você tem de fazer o que é do seu dever, ou seja, você tem de trabalhar, que pagar suas contas, que criar os seus filhos — tem de fazer tudo isso. Não vem com essa história de que você é artista e não pode fazê-lo. Que tipo de gente são os artistas que fugiram as suas obrigações? Jean Jacques Rousseau? É disso que você está falando? É Jean Jacques Rousseau que você quer ser? Jogar os filhos num orfanato para poder fazer a sua carreira literária? Sua carreira literária vai ser uma merda como foi a de Rousseau, que escreveu uma obra toda cheia de mentiras, sem substância, que só vai fazer mal para a humanidade. É isso o que você quer fazer?

Se você não é capaz de se sustentar, então saia daqui, moleque! Vá embora, eu não quero você como meu aluno. Arrume um emprego, torne-se um homem decente e volte. É assim mesmo.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


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