Formando as suas próprias bibliografias – Olavo de Carvalho

“Uma das primeiras coisas que o Otto Maria Carpeaux fez quando chegou ao Brasil foi realizar a bibliografia da literatura brasileira. Ele publicou um livrinho chamado Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira. Quando fez isso, ele não havia lido todos aqueles livros, fez para poder lê-los. Ele foi procurando cada autor e os conceitos dominantes da crítica a respeito deles e com isso organizou uma lista. Tem defeito? É claro que ele tem defeitos. Tem coisa faltando? Tem coisa  faltando, mas é um começo. Você pode partir deste livro e ir complementando, ou até excluindo, com o tempo. Mas está aí um livro que eu considero indispensável.

No meu artigo “Quem é filósofo e quem não é”, publicado no Diário do Comércio, eu dava a dica: não vou lhe dar uma lista de livros, porque você tem de aprender a fazê-la. Aprender a fazer não uma, mas milhares de listas de livros. Eu tenho livros que só agora consegui achá-los, mas que estão na minha lista há quarenta anos. Você conseguir fazer uma bibliografia crítica, assim como o Otto Maria Carpeaux, é o começo do estudo em qualquer área.

Para isso, você vai ter que pegar dicionários de filosofia, enciclopédias de filosofia: o que quer que te dê informações de ordem bibliográfica. Na internet existem milhares de bibliografias excelentes que você pode pegar. Você vai ter que aprender a lidar com este material primeiro. O sujeito que conseguisse, depois de dois ou três anos de estudos, fazer uma lista razoável, crítica, das obras que lhe interessam nos setores que lhe interessam — não digo da filosofia inteira — e que não tivesse lido nenhum destes livros, saberia mais do que aquele que tivesse passado o tempo lendo os livros, porque teria uma ideia do status quaestionis, da evolução do problema ao longo do tempo. Não esqueça disto! Essas bibliografias devem acompanhar o problema desde a origem.

E é fazendo isso que você vai perceber o que é realmente importante. Por exemplo, praticamente não há questão filosófica na qual você não vá encontrar algo de Platão ou Aristóteles. Os outros autores entram e saem das bibliografias, mas Platão e Aristóteles estão sempre lá porque eles sempre disseram alguma coisa a respeito do que é importante em filosofia. Eles fazem praticamente parte de qualquer bibliografia sobre qualquer questão filosófica.

Claro que, em uma etapa posterior, eu posso dar mais indicações, mas o que eu quero, por enquanto, é justamente que você rache a cabeça tentando formar as suas bibliografias. Adquiram uma paixão pela informação e pela sua ordenação, classificação, como se você tivesse chegado em um território novo — como se você fosse Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, Hernan Cortés. Chegando a um território novo, você tem de mapear aquela coisa da qual você não sabe nada. Esse esforço de mapear trará benefício a você pelo resto da sua vida de estudos. Você vai fazer inúmeras listas de livros, que talvez jamais chegue a ter ou ler, mas você sabe que eles estão lá e qual a importância deles, por isto ou por aquilo.

Um bom dicionário de filosofia como o do Ferrater Mora, que existe em português, lhe dá um monte de dicas. Não quer dizer que ele seja completo, nem que tudo aquilo a que ele dá importância tenha importância realmente. Você é que vai formar este critério ao longo do tempo. Não sou eu que vou lhe dar pronto.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 7, 16/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


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