Encarando a história como um objeto, e o surgimento do milenarismo – Olavo de Carvalho

“Quem inaugura a filosofia cristã na história é Santo Agostinho. Se você não tem a filosofia cristã da história, o que lhe sobra na mão é o milenarismo, que é o que vai dar origem a todas essas ideologias de massa. O milenarismo é a expectativa de que um mundo melhor vai vir no futuro: o Cristo vai vir, vai botar ordem no negócio e então teremos os mil anos de paz — isso antes do juízo final.

Porém, em At 1-7, Jesus proíbe formalmente especular a data desses acontecimentos — não são todas as especulações sobre o futuro, mas aquilo que está no plano de Deus. Todo o milenarismo é uma especulação dessas coisas. O que fez Agostinho? Agostinho viu que as profecias do Apocalipse só podiam ser entendidas de duas maneiras: ou você as entendia como designando o sentido espiritual da própria história da Igreja — o milênio anunciado já tinha começado e correspondia ao governo da Igreja no mundo — ou então você poderia entender o milênio, esse signo “mil”, como significando apenas totalidade, ou seja, não é um número certo, não é sequer um número, e designa a totalidade da história no mundo para ser um número fechado. Só podia ser entendido nesses dois sentidos.

(…) A Igreja não tem uma filosofia milenarista. Não há uma só sentença papal ou dogma da Igreja baseada no milenarismo. No entanto, a Igreja estava cheia de milenaristas. O próprio Santo Irineu, que escreveu contra os hereges, entrou em especulações milenaristas. Então, a nós não interessa como e quando o mundo vai acabar, porque você especular isso é colocar — preste bem atenção! —  a história do mundo como se fosse um objeto na sua frente. E o Deus que decidiu a história do curso do mundo é outro objeto. Eles se tornaram objetos da sua mente e você os domina dentro do seu campo de visão. Isso é absolutamente incompatível com a estrutura da realidade, não dá para fazer. Note bem que esta limitação não é um defeito nem uma falha nossa, mas é a própria estrutura da realidade. Você ignorar o fim dos tempos não é assim: “Deus decidiu lá o fim dos tempos e proibiu a gente de saber”. Essa ignorância do fim dos tempos é parte da sua constituição, é a sua verdadeira realidade.

Todo o sentido do cristianismo, desde o início, mostra para você a incerteza constitutiva da vida humana. E por que há incerteza? Porque você não nasce sabendo das coisas, tem de aprendê-las aos poucos e você as esquece também. Você nunca tem domínio do horizonte inteiro. E essa é a estrutura da nossa vida, é a estrutura temporal da nossa existência. Você só pode ver as coisas com começo, meio e fim desde a eternidade — isso é a coisa mais óbvia do mundo: para conhecer o curso inteiro dos tempos, você tem de estar acima dos tempos, na eternidade. Desde a perspectiva temporal, nós não podemos saber o curso inteiro dos tempos, porque estar na perspectiva temporal é não estar na eternidade, é estar separado da eternidade. Você não está separado totalmente dela porque ela o espera mais adiante.

As especulações milenaristas invertem a posição existencial do homem. E criam o quê? No milenarismo já está dado, no fim das contas, toda a forma do pensamento revolucionário, que é a inversão do tempo. E não é só inversão do tempo, é a inversão da ordem da realidade: é pegar uma criatura temporal e fazê-la fingir que está na eternidade observando o conjunto. Por exemplo, esse Richard Dawkins que inventa um objeto chamado Deus que criou outro objeto chamado universo e, observando esses dois objetos, diz: “Não, não pode ter sido assim”. Você nem mesmo pode conceber a história como objeto, porque a história é o campo dentro do qual você existe. Você só pode compreender a história como um processo que está prosseguindo dentro de você e cujo fim você não conhece. Isto é a história: você vivencia e revivência a história do passado sem saber o futuro.

Conceber o universo como um todo é ter todo o conhecimento possível, todo de uma vez, num instante — isso se chama eternidade. Então, você quer dizer que o Richard Dawkins foi para a eternidade, observou o mundo, observou Deus e concluiu alguma coisa — isso é tão pueril que não dá nem para começar a conversa, e o cara ainda diz que é científico! Isso não é nem científico, nem filosófico, nem nada, é puerilidade, é uma forma requintada de burrice. O universo só pode ser concebido como participação, não como coisa, como objeto.

(…) Como você vai conhecer a pessoa divina, mais o universo e mais o sentido da história como objeto? Isso é tão imbecil — e, note bem, eu não estou fazendo apologia do ceticismo, não estou dizendo que nós não podemos conhecer nada. Sim, nós podemos conhecer as coisas de acordo com sua real modalidade de existência. Tem de saber como as coisas existem e, portanto, como cabe conhecê-las. Têm coisas que podem ser conhecidas como objetos, que são apenas objetos, e outras que não são.

A história, então, evidentemente, não é um objeto. Santo Agostinho foi o sujeito que enterrou o milenarismo no século IV. Quando volta a aparecer o milenarismo? Depois de 1400. Então, foram mil anos. Durante estes mil anos, veja o que a Igreja fez no mundo: ela espalhou por toda a parte o senso da imortalidade da alma, o senso da sacralidade da pessoa humana, a prática da caridade; inventou os hospitais, os orfanatos, as escolas, aboliu a escravidão — fez isso tudo durante esses mil anos e depois acabou. Então quer dizer que Santo Agostinho não tinha razão? Os mil anos já foram. O que não quer dizer que a segunda interpretação, isto é, a que vai interpretar os mil anos do Apocalipse como duração total do universo não seja válida. Também pode interpretar assim porque elas não se contradizem.

Esse negócio milenarista entrou na nossa cabeça tão violentamente que todo mundo tem alguma concepção milenarista. E o erro fundamental da concepção milenarista é que ela considera a história da humanidade como se fosse a biografia de um sujeito. A sua biografia, você pode fazer como um plano de futuro, e é a realização ou não deste plano que determinará a qualidade da sua vida: deu certo, deu errado, teve sucesso, fracassou — em função disso. Mas por que você pode fazer isso? Porque você tem uma continuidade temporal, e você é a mesma pessoa através da multiplicidade dos papéis. Você sabe que você é você mesmo e tem um centro agente. A História tem um centro agente? Não tem nenhum. A História se compõe de narrativas que não têm nada a ver umas com as outras, entre sociedades que jamais se conheceram e não se influenciaram no mais mínimo que fosse. E, além disso, a História acaba para cada sujeito que morre. Isto quer dizer que uma unidade da História só pode existir de duas maneiras: ela existe perante a eternidade, perante a mente de Deus, e ela existe na imaginação dos historiadores. Ela não existe como coisa.

As únicas maneiras de você conhecer a História são: você pode conhecê-la miticamente, através da visão que a revelação lhe dá — mas o mítico, como você sabe, é compactado, é confuso e às vezes você não compreende —, e às vezes pode conhecê-la através dos esforços dos próprios historiadores e filósofos da história para pegar alguma unidade, sabendo que essa unidade é problemática e que ela não existe em si. Nesse sentido, Eric Voegelin fala que a ordem da história é a história da ordem, isto é, à medida que os vários historiadores e filósofos da história vão tentando captar uma ordem, a sucessão desses esforços é a única ordem que existe na história, descontada a ordem divina.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 007, 16/05/2009.


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