O primeiro bloco da formação intelectual: o adestramento do imaginário – Olavo de Carvalho

“A formação filosófica tal como eu a concebi — especificamente para as circunstâncias da vida brasileira atual, isto é, para as condições que eu sei que vocês vivem e não para um aluno abstrato, universal — se compõe de uma série de blocos. Cada um deles tem de ser desenvolvido independentemente, com suas próprias exigências, formando um conjunto. Você deve estar continuamente circulando entre esses blocos e articulando o conjunto que formará, no fim das contas, a sua própria personalidade intelectual e filósofa.

(…) O primeiro desses blocos é aquele ao qual nós temos dedicado mais atenção nas primeiras aulas, que nós vamos chamar, por falta de nome melhor, de “o adestramento do imaginário”. Sem isto, nada se pode fazer. O meio essencial para o adestramento do imaginário é precisamente a longa e constante convivência com a literatura de ficção universal: poesia, romance, epopeia, teatro etc., incluindo, evidentemente, o cinema. Isto nos serve para aprendermos a nos identificar com pessoas que são diferentes de nós, mas que sempre têm algum ponto de contato — não existe o totalmente heterogêneo. Se nós conseguimos nos colocar na posição de Hamlet, Antígona ou de Ulisses, significa que eles têm algo em comum conosco, por mais diferentes que sejam sobre inúmeros aspectos (culturais, históricos etc.).

É somente a longa prática da literatura de ficção que nos habilita a “criar” esses personagens imaginários. Na verdade nós não estamos criando, e também não estamos copiando. Ler literatura de ficção é como se fosse um sonho acordado dirigido: você recebe uma pauta de uma série de atividades imaginárias que você vai desenvolver. É o seu imaginário que vai produzir tudo isso de acordo com as indicações que foram dadas pelo autor da narrativa. Na medida em que se desenvolve a narrativa, você vai dirigindo o seu sonho para esta ou aquela direção, incorporando novas possibilidades, novos dramas, novos conflitos, novas tensões etc.

Isso também o ajuda na vida cotidiana, na sua convivência direta com as pessoas, pois é importante você ser capaz de imaginar o que elas estão passando. É somente a imaginação que nos permite compreender o próximo — isso é muito importante.

(…) Esta arte de compreender as pessoas depende inteiramente da amplitude do seu imaginário, da sua capacidade de vivenciar imaginativamente situações que você nunca viveu pessoalmente: dramas que nunca teve, sofrimentos de que nunca padeceu, alegrias que nunca desfrutou, esperanças que jamais compartilhou, e assim por diante. É só assim que você vai incorporando esses vários personagens. Quanto mais personagens você tiver na cabeça, mais facilmente você os combinará para compreender um novo personagem, seja ele adquirido de uma leitura de ficção, sejam pessoas conhecidas na vida real.

A leitura da ficção tem a vantagem de nos fornecer somente aqueles episódios que são pertinentes a um drama em particular, ao passo que na vida real nós vivemos uma pluralidade de dramas inconexos. O sujeito pode ter um problema na família, outro problema dentro do emprego, um terceiro conflito com o vizinho, e assim por diante. Esses vários conflitos não vêm das mesmas causas e eles são perfeitamente inconexos. Como os conflitos que vêm do passado e que já estão consolidados dentro de nós, mais aqueles que nos vêm de uma situação nova se acumulam, nós frequentemente confundimos uns com os outros. Tendemos sempre a interpretar a situação nova à luz das situações já vividas, quando às vezes isso não é inteiramente adequado.

(…) Na literatura de ficção, como é absolutamente impossível absorver toda a densidade da trama desses conflitos simultâneos, o ficcionista seleciona um ou dois conflitos mais ou menos articulados e os coloca ali. (…) Como, por exemplo, o drama de Hamlet, de vingar-se ou não de uma ofensa cometida. Frequentemente nós vivemos esta situação, mas nós a vivemos misturada com mil outras situações. Nós não somos capazes de pensar no mesmo conflito 24 horas por dia, porque nós temos outros.

A ficção nos dá uma galeria de situações dramáticas. Não vamos chamá-las de conflitos porque nem sempre a natureza da coisa é conflituosa, mas são situações dramáticas que na vida real aparecem tão entremescladas que você não consegue separar e descrever uma em particular. Aliás, esse é um dos grandes problemas da humanidade: os seus problemas vêm todos juntos e você não consegue examinar um por um.

(…) Através da literatura de ficção nós aprendemos a incorporar esses vários personagens e situações, e aprimoramos a nossa capacidade de nos identificar com o próximo e compreendê-lo como se fosse nós mesmos — dito de outro modo, tornar uma pessoa que era diferente em efetivamente um próximo. Essa habilidade nos servirá muito quando nós sairmos da esfera dos dramas concretos, reais, vividos, para os dramas cognitivos, os dramas intelectuais, as grandes dificuldades cognitivas da humanidade que foram enfrentadas por diferentes filósofos em diferentes circunstâncias e com diferentes desempenhos em cada caso.

Nós temos de aprender a incorporar esses dramas intelectuais vividos por eles como se eles fossem personagens do nosso mundo imaginário, do nosso teatrinho mental. É só assim que você vai compreendê-los. Você não vai se identificar com eles no sentido de “ser” eles, você vai se identificar como você se identifica com um personagem de teatro, não ao ponto de você acreditar que tem o mesmo problema dele. (…) Então você vivencia aquilo não como uma realidade, mas como uma possibilidade real concreta, à qual você está aberto, como todos os seres humanos.

(…) Todo mundo já teve algum problema parecido com o de Hamlet, Otelo ou Raskólnikov. Direta ou indiretamente, todo mundo já viveu isso. Do mesmo modo, todos os dramas do conhecimento vivenciados pelos filósofos ao longo do tempo são possibilidades reais e permanentes que podem retornar a qualquer momento. Eles retornam, evidentemente, dentro de outra circunstância, outra situação histórica, outro contexto cultural, mas, estruturalmente, podem permanecer os mesmos.

Em primeira instância, você nunca deve ler livros de filosofia como teses com as quais você vai concordar ou discordar. Em primeiro lugar você tem de entender que aquilo é uma experiência cognitiva, uma experiência intelectual humana que foi vivenciada por pessoas reais, numa outra circunstância, e que você está tentando revivenciar. Você pode até depois achar uma solução diferente, mas se você não se imbuiu do problema, se você não se deixou, por assim dizer, embeber-se do problema, se você não se identificou com o problema, você não vai nem entender do que o sujeito está falando. A primeira coisa que você deve buscar numa leitura dos livros de filosofia é esta abertura, entendendo-os não como verdades ou mentiras que você vai proclamar ou impugnar, mas como expressões de uma busca humana, do esforço humano, expressões de uma experiência humana. Se você não aprender primeiro a absorver os dramas concretos, humanos, muito menos você vai compreender os dramas cognitivos. Por isso é que eu digo: primeiro, muita literatura de ficção!”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 8, 23/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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