O segundo bloco da formação intelectual: o adestramento na compreensão e uso da linguagem – Olavo de Carvalho

“O segundo bloco, que vem automaticamente com o primeiro, é o seu adestramento na compreensão e uso da linguagem. Na mesma medida em que você vai captando as sutilezas e as nuances das várias situações humanas vivenciadas, você também capta as sutilezas e as nuances da linguagem, e não há limite às possibilidades de aperfeiçoamento, de ampliação e de fortalecimento nisso. Claro que, conforme você for lendo essas obras em traduções na sua própria língua ou no original, você pode ter algumas dificuldades de ordem técnica, então você vai ter alguns problemas especificamente linguísticos a resolver. São problemas técnicos, mas não é para dar muita atenção a eles, é para resolver rapidamente e passar adiante.

Esta ampliação da linguagem deve se voltar em primeiro lugar para aquilo que Benedetto Croce considerava a função imediata da obra literária, que é a expressão da experiência concreta.

Passar para um segundo andar, da linguagem abstrata da filosofia e das ciências, quando você ainda não é capaz de ter alguma expressividade na maneira de nomear e descrever a experiência concreta, pode lhe causar uma lesão intelectual da qual você nunca mais se recupere. Tudo aquilo que está registrado na linguagem genérica da filosofia corresponde a experiências intelectuais e existenciais concretas e, se você não é capaz de refazê-las imaginativamente, você jamais vai saber do que o sujeito está falando.

Por exemplo, se você procurar num dicionário de filosofia um termo qualquer que descreva uma atitude ou uma corrente filosófica, como “ceticismo” ou “gnosticismo”, você vai encontrar uma definição esquemática do que são essas escolas ou correntes ou atitudes filosóficas. Porém, essas escolas ou correntes não apareceram como posições filosóficas prontas, mas como resultados, como a expressão de dramas intelectuais cognitivos longamente vividos. Há toda uma situação humana por baixo daquilo. Se quando você ouve ou lê esta palavra, a evocação que você faz é simplesmente a de um conceito abstrato e não de todo o drama apreendido compactamente num relance, então você não sabe do que está falando.

Tendo isto em conta, quando estamos lendo um livro ou ouvindo um sujeito falar de filosofia, nós podemos frequentemente saber se estamos lidando com um charlatão ou com alguém que sabe do que está falando. O sujeito que lida somente com os conceitos abstratos sem ter o lastro experiencial direto é um imitador, um papagaio. Ele lida somente com o universo de palavras para uso acadêmico, mas não compreende as realidades que estão ali envolvidas. É como uma criança que ouve uma nova palavra e a imita, sem saber exatamente qual é o contexto no qual aquilo cabe ou não cabe.

A pessoa totalmente leiga e despreparada em filosofia às vezes não percebe a diferença, porque o imitador pode usar todos os termos certinhos, pode fazer raciocínios muito bem arrumadinhos. Só com um pouco de experiência é que se percebe se o sujeito tem aquele lastro imaginativo que coloca diante dele a realidade dos dramas intelectuais ali vividos.

Este aprimoramento da linguagem é o irmão siamês do adestramento do imaginário. As duas coisas têm que vir juntas.

Então surgem as perguntas: — Para que você está fazendo tudo isso? Qual é o seu objetivo? Você está lendo tudo isso só porque você tem uma curiosidade? É porque você tem um projeto profissional a atender? Você está fazendo tudo isso porque você quer fazer uma tese de mestrado? Enfim: — Qual é o seu objetivo?

Nisso entra o terceiro bloco que se anuncia como o exercício que nós fizemos logo no começo, o exercício do necrológio. Quem você quer ser? Qual é o objetivo da sua vida? Para que você está se esforçando e onde entram, dentro desse seu plano, todos esses elementos que nós estamos colhendo nessa formação literária e filosófica?”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 008, 23/05/2009.


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