O terceiro bloco da formação intelectual: o adestramento da autoconsciência – Olavo de Carvalho

“Quem você quer ser? Qual é o objetivo da sua vida? Para que você está se esforçando e onde entram, dentro desse seu plano, todos esses elementos que nós estamos colhendo nessa formação literária e filosófica?

O seu adestramento para a vida intelectual é, no fim das contas, uma arma ou um instrumento para um objetivo a ser realizado existencialmente, na sua vida efetiva. Não confunda vida efetiva com vida profissional. Você não pode esquecer que vida profissional é uma coisa abstrativa, ela é um aspecto da sua vida e não a vida concreta. A vida profissional é apenas um papel que você desempenha em certos lugares e circunstâncias, perante certas pessoas, mas que você não pode desempenhar em outros lugares, perante outras pessoas.

(…) A vida profissional não é a sua vida real, embora ela seja hoje em dia quase um fetiche, uma coisa que absorve as pessoas ao ponto de elas imaginarem que aquilo é tudo. Ela é apenas um componente de uma vida real, um componente abstrativo dentro de um conjunto. No exercício do necrológio eu insisti que a narrativa fosse feita com relação a uma pessoa real e não apenas a uma carreira.

(…) Este senso de quem você quer ser como pessoa é o que vai dar o critério unificante para você contar a sua própria vida. A nossa vida, como define Ortega y Gasset, “es lo que hacemos y lo que nos pasa” — aquilo que fazemos e aquilo que nos acontece.

Aquilo que nós fazemos é frequentemente um amálgama de atos inconexos nascidos de impulsos momentâneos, que não têm nada a ver um com o outro, impulsos que, por sua vez, podem ter sido inspirados para nós desde fora, por imitação, imitação inconsciente, ou até por osmose, e assim por diante. E aquilo que nos acontece vem de uma multiplicidade de fontes não unificadas.

(…) A nossa vida, por ser composta de atos (conexos e inconexos) e acontecimentos que sobrevêm a nós (conexos e inconexos), é muito difícil de contar, caso não haja um padrão unificante. Esse padrão unificante é dado exatamente por esse ideal ou meta. A vida vista sob esse aspecto deixa de ser apenas um aglomerado de fatos e se torna um drama unificado. Tão unificado quanto o drama de Otelo, de Hamlet ou de Napoleão Bonaparte. Ela passa a ser a sucessão dos esforços para dar unidade e sentido àquilo que nos chegou inconexo e frequentemente sem sentido.

Este senso da meta ideal se torna o padrão e o critério da sua autoconsciência, ou seja, você começa a medir e a articular tudo como se fosse exatamente aquilo no qual você está tentando tornar a sua vida: um trajeto que tem um sentido e que se unifica na medida em que busca esse sentido. É claro que não é porque você determinou um sentido ou uma meta que tudo passa a lhe acontecer coerentemente. Ao contrário: os fatos continuam sobrevindo de fontes inconexas e os seus próprios atos continuam tão inconexos quanto antes. É você que vai tentar conectá-los agora.

E note bem: quando eu digo conectá-los (conectar inclusive os acontecimentos que vêm de fora), não estou querendo dizer para você criar um mito da sua própria existência no qual você veja todos os fatos que lhe sobrevém como se fossem mandados por uma providência divina ou pelos superiores desconhecidos maçônicos para lhe criar obstáculos ou dificuldades, não — a coisa continua vindo de maneira casual e inconexa. Quer dizer, você não vai criar um mito unificante, não é isso que eu estou falando. Você é que vai tentar unificar o trajeto pela maneira pela qual você reage a esses fatos inconexos. Muitos desses fatos inconexos podem vir como obstáculos ou como elementos dispersantes para a realização da sua vocação ou meta. Mas você pode, em seguida, reaproveitá-los, tornando-os parte da sua biografia e aproveitando-os como oportunidades para você desenvolver certas qualidades ou certas habilidades que podem mais tarde ser necessárias para a realização da sua vocação.

Num primeiro momento, você tem o seu objetivo, a sua meta e parece que tudo está contra, ou que tudo é indiferente e frio, quer dizer, o mundo, a realidade, está pouco se lixando para os seus objetivos, é o “eu contra o mundo”. E então você cria aquele problema do Orígenes Lessa em O Feijão e o Sonho: eu tenho um sonho, mas eu tenho que botar o feijão na mesa.

Esta é a maneira apenas inicial e primária de colocar os problemas, porque a sua personalidade real não é dada só pela sua meta ou objetivo e nem só pela sua reação às situações imediatas, mas pela tensão entre as duas coisas. A maneira pela qual você absorve essas circunstâncias mesmo adversas e as torna parte da sua biografia é que vai determinar quem você é efetivamente.

Na sociedade brasileira todo mundo coloca um abismo entre os objetivos pessoais e a situação real. A situação material é vista sempre como uma coisa opressiva e deprimente, uma oposição irredutível. Isso faz parte da cultura brasileira. O problema de O Feijão e o Sonho é permanente na vida de todos vocês, independentemente de serem pobres ou ricos. Às vezes o rico vê esse problema como sendo ainda mais incompatível e antagônico do que o pobre, quer dizer, não tem nada a ver com a classe social à qual você pertence, este é um hábito cultural que se impregnou nas mentes de todas as classes, todo mundo enxerga a coisa assim.

Mas esta é apenas uma maneira primária, apenas o primeiro sinal de que existe uma meta e de que existe uma circunstância. Como diria Ortega y Gasset “yo soy yo y mis circunstancias” — eu sou aquele que eu quero ser no futuro, eu sou o meu sonho, o meu objetivo; já a minha circunstância é esse conjunto de dificuldades, de problemas e de solicitações dispersantes. Essa é apenas a primeira maneira de se colocar a coisa. Ortega y Gasset complementa essa frase, “yo soy yo y mis circunstancias” com a segunda regra, que é: “la reabsorcion de las circunstancias és el destino concreto del hombre” (a reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem), quer dizer, você vai reabsorver a circunstância como parte da sua vocação. Por isso mesmo você deve encarar cada obstáculo e cada dificuldade como um elemento fundamental para a formação do seu caráter. Goethe dizia que o talento se desenvolve na solidão, no estudo, mas o caráter se desenvolve na agitação do mundo. Na agitação do mundo é necessário que cada dificuldade, cada obstáculo, cada elemento dispersante seja recebido e incorporado com o máximo de boa vontade. É você que vai transformar o elemento antagônico em elemento favorável. O que quer que se oponha à realização da sua vocação está lhe oferecendo uma oportunidade para fortalecer o seu caráter. Até as dificuldades são preciosas.

Vamos supor que você tenha um papai e uma mamãe que lhe deem mesada e o protejam de todos os elementos adversos e de todas as solicitações dispersantes: “Meu filho, você é um grande gênio, então nós vamos te dar uma mesada e você fica em casa só estudando e desenvolvendo os seus talentos.” Você pode até desenvolver o seu talento, mas o seu caráter vai ficar muito fraco. E se o seu caráter ficar muito fraco, isso significa que o quer que você diga não vai ter consistência. Ou seja, às vezes aquilo que parece facilitar a realização da sua vocação é, de fato, um elemento corruptor. É bom estudar a vida de pessoas que nada tiveram a seu favor e que realizaram alguma coisa grande. Eu sugiro, por exemplo, a leitura dos livros de Léon Bloy. Léon Bloy era um escritor católico, francês do século XIX que tinha o mau hábito de dizer as coisas exatamente como ele as via ou pensava, e isto criou tantas inimizades e tanto antagonismo que ele foi rejeitado em todos os meios. Quando ele conseguia um editor não pagavam, não davam emprego para o cara. Esse sujeito viveu na miséria, chegou à mendicância. A vida dele foi uma sucessão de frustrações, de portas fechadas, de traições, de exclusões e mesmo assim o sujeito escreveu livros maravilhosos. Ele fez dessa extrema dificuldade, dessa sucessão de misérias e antagonismos a base do seu caráter. A resistência a isso se tornou para ele mais do que uma vocação, mas uma espécie de obrigação religiosa. Ele encarava tudo aquilo como a cruz de Cristo que ele tinha de carregar. A certo ponto ele diz que desistiu não somente de ter uma vida melhor, mas até mesmo de se queixar. Veja como a circunstância extremamente antagônica pode ser absorvida e transformada no material da realização da vocação. Quanto mais você for capaz de absorver e trabalhar esta tensão, mais você fortalecerá o seu caráter e mais conteúdo humano começará a ter todo o seu trabalho intelectual.

Com o tempo, vocês vão observar — e esse é um dado de experiência que eu comprovei inúmeras vezes — que o valor e a importância das grandes obras da inteligência humana vêm sobretudo dessa densidade e realidade da experiência humana que está colocada ali, e não tanto da amplitude dos estudos abrangidos. Os estudos só valem se você for capaz de absorver a experiência humana do outro, por trás daquilo que você lê e estuda. Mas como é que você vai absorver a experiência humana do outro se você não tem sequer a sua própria? Se você se preserva da experiência humana? Se você se esconde debaixo da saia da mamãe ou da mesada paga pelo papai? Isso não é possível e não tem nada a ver com a quantidade de dinheiro que você tem.

(…) Ao longo de todo esse trajeto a coisa mais importante é admitir qual é a situação real a cada momento, qual é a equação que você está vivendo e ser capaz de declarar para si mesmo e para Deus o que está acontecendo e qual é o problema. Qualquer que seja a circunstância, a maior parte das dificuldades não vem do mundo externo. Jamais. Isto é impossível. A maior parte das dificuldades vem dos nossos próprios antagonismos internos e dos nossos próprios vícios, fraquezas, defeitos etc. Elas vêm sobretudo de uma fonte de onde você menos espera.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 8, 23/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


Gostou da publicação? Clique aqui para ver todos os fragmentos do Curso Online de Filosofia.


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