A luta pela autoimagem é o contrário do que eu estou entendendo como autoconhecimento – Olavo de Carvalho

“Recebi várias cartas essa semana sobre essa questão do autoconhecimento. Quando as pessoas falam em autoconhecimento, geralmente elas querem desenhar a si próprias como um personagem e saber quem elas são, como elas sabem quem foi Napoleão Bonaparte, Julio César, Goethe ou Shakespeare. Ou seja, querem uma imagem. A luta pela autoimagem é o contrário do que eu estou entendendo como autoconhecimento.

A autoimagem é uma armadilha, uma ratoeira, porque quando você a cria, você cria um padrão de autojulgamento e um discurso de acusação e defesa baseado nas qualidades que você desejaria ter e nos defeitos que você acha que tem. Esse discurso interior de acusação e defesa vai comer horas e uma energia preciosa da sua mente. O ideal cria o seu código penal, ele já vem com um monte de acusações e penalidades. Aquele que você é ou foi realmente (e que é, então, o réu) por um lado se acusa e por outro lado se defende.

Ora, há duas coisas que você é realmente: alguém que num dia morre e que tem uma história que, uma vez morto, não pode mudar mais — essa é a sua biografia. Mas enquanto você está vivo, você não é a sua biografia, você é a sua consciência. A consciência é aquela que está tentando tornar-se algo com os recursos internos e externos que a vida lhe deu. Se a consciência só existe nesta luta, ela não tem uma forma determinada — ela está constantemente adquirindo novas formas, ampliando a sua própria e absorvendo as anteriores. Então ela não tem imagem. É como se você fosse apenas um certo foco de luz que ilumina o que há de obscuro em torno e dentro de você. Esta consciência, este “eu operante” não tem forma, imagem e história, porque a história dele está mudando, ele está fazendo a história agora mesmo, então ele não pode se descrever a si mesmo como a gente descreve um personagem ou como se descreve uma pessoa que nós conhecemos. Tampouco se pode descrevê-lo através de qualidades que ele se atribui, como “eu sou preguiçoso”, ou “eu sou trabalhador”, ou “eu sou corajoso”, ou “eu sou fraco”, “eu sou forte” — porque tudo isso são apenas elementos que estão em permanente transmutação. Nenhuma dessas qualidades se incorpora a você definitivamente. Além do que, se você quer se conhecer através do perfil das suas qualidades ou defeitos você está se prendendo dentro de uma ratoeira. A luta pela autoimagem é o contrário da luta pelo conhecimento.

O que é você? Você é aquele que fala com Deus. Existe o observador onisciente, que é Deus. Ele sabe e o conhece muito melhor que você mesmo e na hora em que você fala com Ele, você sabe que o que quer que você diga é falso — é só parcialmente verdadeiro, não é exato. Conhecimento exato de você só Ele pode ter, porque Ele já sabe qual é o fim da sua vida e você não. Então, Ele pode dizer: “você é preguiçoso”, ou “você é ladrão”, ou “você é viado” ou “você é não sei-o-quê”. Ele pode dizer, você não pode. Tudo o que você diz de si próprio são imagens provisórias, que se colarem em você de maneira definitiva, você está lascado.

Quando a autoimagem das pessoas se dissolve, e sobra somente esse núcleo de consciência, elas pensam que elas ficaram malucas, porque pensam que já não se conhecem mais. Não! Era antes que você não se conhecia, agora você sabe quem você efetivamente é: você é somente esta consciência. Quando chegar esse momento, você não se preocupa mais com você. Você se preocupa somente com os elementos objetivos e reais e com o seu dever, o dever que você tem a cumprir, com o que você tem a fazer. Você passa da autocontemplação passiva, viciosa, a uma autocriação permanente. Você passa a uma atividade do eu. Agora você não é mais um retrato, você é uma atividade, você é uma ação. E aí você começou a se conhecer efetivamente, porque Deus criou você para você ser assim.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 8, 23/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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