O quarto e quinto bloco da formação intelectual: a aquisição das ferramentas da investigação erudita e a técnica filosófica – Olavo de Carvalho

“O quarto bloco é a aquisição das ferramentas da investigação, da pesquisa erudita. De todos esses blocos mencionados até agora, o único que entra um pouco no ensino universitário tal como atualmente é acessível no Brasil, é esse quarto, se bem que fornecido de maneira extremamente deficiente. Ele é um instrumento necessário para você adquirir a documentação das questões que lhe interessam, como foi mencionado no artigo “Quem é filósofo e quem não é” [Diário do Comércio].

Existe uma infinidade de bons livros nos quais você pode adquirir esse treinamento. Porém, você vai ter sempre que adequar-se às condições do momento em que você vive e do país em que você está. Um livro que eu recomendo muito é The Modern Researcher, de Jacques Barzun, publicado pela Harcourt Brace, de Nova Iorque. Desde logo, a investigação em filosofia e história da filosofia segue de muito perto as técnicas e métodos da investigação histórica em geral. O que significa que qualquer livro que você leia sobre métodos e técnicas da História será extremamente útil. Há dois excelentes livros sobre isso no Brasil: Teoria da História do Brasil e A Pesquisa Histórica no Brasil de José Honório Rodrigues. São livros altamente recomendáveis para isso.

O espírito geral da investigação é o de adquirir o máximo de documentos possíveis sobre qualquer assunto que lhe interesse e depois ser capaz de ler, interpretar e relacionar esses documentos de alguma maneira. Eu não vou me prolongar muito sobre este aspecto de como trabalhar esses documentos internamente, porque eu já escrevi uma apostila sobre isso chamada Problemas de Método nas Ciências Sociais. Embora se chame “ciências sociais”, também serve para o que nós estamos fazendo aqui. Nós iremos falar mais sobre isso adiante. Qualquer que seja o assunto que se esteja investigando ou estudando, há que se proceder como um historiador: como um historiador da filosofia ou das ideias. Esta é a maneira de ter acesso aos documentos.

No artigo “Quem é filósofo e quem não é”, eu disse para você definir a questão que lhe interessa, em seguida procurar se munir de toda a documentação necessária e depois ir lendo aquele material articulando as várias hipóteses, posições e alternativas, como se fosse uma teoria única, ou seja, compor a estrutura do problema, a partir da história do problema. Um exemplo majestoso de como se faz isso é o livro de Joseph Maréchal, Le Point de Départ de la Métaphysique (“O Ponto de Partida da Metafísica”). Esse livro foi muito usado pelo Padre Ladusãns no curso que eu assisti com ele no Conjunto de Pesquisa Filosófica da PUC do Rio de Janeiro. Um livro altamente recomendável. A vantagem que esse livro oferece é esta: praticamente todos os filósofos que investigaram o que quer que seja seguiram, mais ou menos, este mesmo preceito: obter o conhecimento da evolução do problema e das complexidades que foram se acrescentando à discussão desde os primeiros que tocaram no assunto, e, a partir daí, desenvolver as suas próprias perspectivas. Isso não quer dizer que todos reproduzam esse trajeto da pesquisa ao expor suas próprias investigações e conclusões. Eles podem ter feito a pesquisa assim, mas podem não tratar o assunto de maneira histórica e sim sistemática, ensaística, ou de qualquer outra maneira, de modo que o procedimento investigativo fique por trás do livro e não transpareça. Isso é o que acontece em geral.

Quando falo em “exposição histórica”, isso não deve ser tomado muito ao pé da letra, porque toda exposição histórica da investigação de um problema terá uma infinidade de linhas acidentais que podem se desviar muito do problema que foi colocado de início. Pode haver tantas variáveis a ponto de você perder-se. Se for contada a história, tal como ela efetivamente se passou, com todos os seus passos, o foco vai para a narrativa histórica e o problema é afastado. A perspectiva de que falo não é a do historiador propriamente dito. Os recursos do historiador são utilizados, mas o objetivo não é o mesmo, pois não se traça a história do problema em todos os seus detalhes, mas apenas naqueles pontos da evolução que interessam à formulação atual que se queira fazer. Há aí um critério seletivo que não é o do historiador: é um critério filosófico. Este livro do Joseph Maréchal (que não é um livro, mas a transcrição de um curso) fornece exatamente esse tipo de exposição.

Ele coloca um problema inicialmente, que ele chama de “afirmação metafísica”, e vê como esse problema foi evoluindo ao longo dos tempos, não em todos os detalhes da narrativa, mas somente nos pontos que interessam para a colocação que ele quer fazer do problema. Esse livro é um modelo do método que eu mencionei no artigo “Quem é filósofo e quem não é”, ele foi seguido por todos os filósofos que estudaram qualquer coisa, desde Aristóteles. Aristóteles já dizia que nós tínhamos que começar pela investigação das opiniões dos sábios. Tão logo nós temos uma formulação do problema, nós temos que saber o que os sábios já disseram a respeito. Quando ele diz “os sábios”, ele quer dizer que não é toda e qualquer opinião que interessa, mas apenas a opinião já qualificada, ou seja, a opinião que já foi trabalhada e onde os problemas mais básicos e elementares já foram tratados. Aristóteles já dá esse critério seletivo. Isso foi seguido por todos os filósofos. O livro do Maréchal se distingue porque o texto e a ordem do livro reproduzem exatamente a ordem da pesquisa não como ele a fez, mas a ordem histórica ideal. Ele vai expondo, por exemplo, as doutrinas dos céticos gregos (os primeiros que colocaram o problema da validade do conhecimento) e as discute à luz do que ele já sabe atualmente. Quando ele passa para a discussão na Idade Média, os filósofos escolásticos etc., novas complexidades vão se acrescentando e a visão que ele tem dos céticos gregos também é enriquecida por esses novos dados e assim por diante. Você tem uma imagem muito clara da estrutura intelectual da investigação, não da estrutura física. Ele não está contando como ele fez a investigação, mas a ordem histórico-lógica da investigação está dada de maneira muito clara.

(…) Esse livro do Joseph Maréchal faz uma espécie de ponte entre o quarto e quinto bloco. O quarto bloco é a documentação, a técnica do historiador, e o quinto bloco é a técnica filosófica propriamente dita. A técnica filosófica é o assunto deste curso, e se assenta nesses quatro pilares. Se você não tem esses quatro, você nunca vai entender exatamente o que é a técnica filosófica. Um verdadeiro filósofo, quando trata de um assunto qualquer, utiliza para isso toda a riqueza de seu imaginário incorporando todos os filósofos que ele leu sobre o assunto como personagens do seu drama interior. É essa densidade da discussão interior que vai marcá-lo e distingui-lo como um filósofo que merece atenção e não como um boboca que está apenas repetindo argumentos ou frases. Existem muitos desses bobocas que são muito inteligentes, muito preparados, de certo modo — eles apenas não são filósofos. Eles não sabem se colocar filosoficamente um problema. “Colocar-se filosoficamente um problema” é entrar no problema com tudo; aquele assunto para você é mortalmente sério e toda a sua pessoa e existência estará em jogo. Não é um problema que você tem de resolver para sua tese de mestrado. É um problema que você tem de resolver para sua orientação na vida, até para a salvação de sua alma, como se a salvação de sua alma estivesse em jogo. Em segundo lugar, o uso que o filósofo faz da linguagem mostra, como em filigrana [fios entrelaçados; trama; visível contra a luz], todo este aporte memorativo e imaginário que está por trás da coisa e que é a substância da vida intelectual dele. A linguagem dele tem de mostrar isso. Quanto mais técnica for essa linguagem, mais esta riqueza vai transparecer.

(…) Quando entrarmos na técnica filosófica, vamos retomar aqui um assunto que eu comecei num curso que eu dei no Paraná, um comentário linear do livro Manual de Metodologia Dialética, de Louis Lavelle, talvez o melhor livro já escrito sobre a técnica filosófica no mundo. Outro livro que nós vamos usar para isso é Logique de la Philosophie, de Eric Weil. Também não precisa preocupar-se em ler esses livros, porque nós vamos entregar o texto traduzido que será usado no comentário em aula.

(…) A técnica filosófica é a síntese dos esforços desenvolvidos ao longo de milênios para lançar alguma luz sobre alguns problemas. A sucessão desses esforços tem de ser vista não como um fenômeno histórico, mas como um drama que se desenrola em você mesmo. Você tem de revivenciar aqueles vários esforços.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 8, 23/05/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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