O mundo da percepção real é infinitamente mais rico do que o mundo da razão humana – Olavo de Carvalho

“Na contraposição famosa dos pré-socráticos, Heráclito descreve o mundo da realidade como se fosse um fluxo permanente, onde nada é o que é, tudo está continuamente se transformando em outra coisa. Ele dizia: “Nós não nos banhamos duas vezes no mesmo rio” e assim por diante. Por outro lado, Parmênides descreve o mundo do “ser” como o absoluto e imutável, que está por trás de todas essas mutações aparentes. Quase ao mesmo tempo, Zenão de Heléia desenvolve certos raciocínios que colocam em dúvida a realidade do movimento e da transformação. Ele dizia: “A flecha que se desloca, a cada momento, está apenas no lugar onde está”; ou seja, como é possível dizer que ela se move se existe somente uma sucessão ilimitada de momentos estáticos? Zenão expõe uma série de objeções lógicas à realidade do movimento.

Então nós temos esses três personagens: (a) Heráclito, que enfatiza a realidade absoluta e universal do movimento e da transformação; (b) Parmênides, que enfatiza a permanência como sendo a única realidade, rebaixando a mutação a um jogo de aparências; (c) E Zenão, que coloca em dúvida a realidade da própria mutação.

Não se pode imaginar três idéias mais diferentes. No entanto, cada um sabia o que o outro estava falando, e nós podemos entender os três. Isso significa que, com mutações permanentes ou sem mutações permanentes, com o ser eterno ou sem o ser eterno, todos nós, considerados não enquanto participantes desse debate, mas enquanto pessoas reais, existentes, sabemos nos orientar no mundo da mutação e da permanência. Nós sabemos distinguir o que muda e o que permanece. (…) Na realidade da vida prática, nós sabemos nos posicionar perante a permanência e a mudança. Nós também somos capazes de distinguir, na mudança, o que existe de real e o que existe de aparência, e sabemos distinguir as mudanças reais das mudanças aparentes. Não é que nós saibamos disso: uma criança pequena já sabe! Porém, quando tentamos equacionar essas coisas em termos racionais, nós topamos com dificuldades horríveis, e este é um ponto básico. Vocês têm que meter nas suas cabeças desde logo uma coisa: o mundo da percepção real é infinitamente mais rico do que o mundo da razão humana.

Quando perguntaram para Santo Agostinho “o que é o tempo”, ele respondeu: “Quando não me perguntam, eu sei; quando me perguntam, eu já não sei mais”. O que ele quis dizer com isso? — “Eu, como ser humano, efetivamente existente e real, sei me orientar quanto a essa dimensão chamada “tempo”, mas eu não consigo equacioná-la em termos racionalmente aceitáveis.”

O seu aparato de percepção tem a perfeição da Obra Divina, pois ele nasceu com você, já veio pronto, foi Deus que fez. O mundo de seus pensamentos racionais é uma estrutura que você está tentando criar, então é natural que, em comparação com o mundo da percepção, a razão humana seja um negócio tosco, falível, cheio de buracos.

Todo o esforço da filosofia ao longo dos tempos é para tentar transferir ao mundo da razão (aquilo que é humanamente comunicável, que pode ser discutido e falado entre os seres humanos) uma parcela da riqueza e dignidade infinitas do mundo da percepção real. Quando investigamos esse mundo da percepção, nós percebemos que sabemos muito mais coisas do que sabemos que sabemos. Eu tenho insistido muito nisso nas minhas aulas. Se nós fossemos reduzir o nosso saber aos dados de percepção que efetivamente chegam a nós, nós jamais poderíamos nos orientar no mundo. Nenhum de nós teve jamais a percepção do mundo inteiro, nós só temos pedaços. Ora, se nós fossemos usar esses pedaços para compor mentalmente a ideia de um mundo, nós jamais o completaríamos. Todos nós teríamos visões fragmentárias do mundo e estaríamos permanentemente desorientados nesse quebra-cabeças e, no entanto, isso não acontece. Todas as crianças pequenas sabem que estão no mesmo mundo que as outras. Quem é que as informou disso? Elas nunca viram um negócio chamado “mundo”.

Desde que apareceu a crítica moderna do conhecimento, a partir do século XVIII, com David Hume e depois Kant, criou-se entre muitos filósofos a ideia de que tudo aquilo que não absorvermos pelos sentidos é criado mentalmente por nós. Quer dizer, existe o mundo da natureza e o mundo da criação cultural. Segundo esses fulanos, a própria ideia de mundo é uma criação cultural nossa, e a prova que eles dão é que, às vezes, a imagem do mundo é diferente de época para época, de cultura para cultura. Mas o que acontece é o seguinte: a imagem do mundo, tal como aparece nas várias culturas, é criação cultural, mas isso não quer dizer que a percepção do mundo seja também a mesma coisa. Essas criações, afinal de contas, são criações linguísticas, feitas com a linguagem humana. Ou seja, é o mesmo esforço de Heráclito e Parmênides para dizer algo. Esses sinais da imagem do mundo deixados pelas civilizações pretéritas — China, Índia, Egito etc. — não são a visão que eles tinham do mundo, mas apenas os símbolos nos quais eles condensaram essa visão. Nós não podemos entrar na cabeça deles para saber como eles viam, nós sabemos apenas o que eles conseguiram transmitir, através de uma transmutação simbólica da percepção.

Quando lemos os fragmentos de Heráclito, Parmênides e Zenão de Heléia, o que nós captamos ali? O que eles perceberam, ou aquilo que eles foram capazes de dizer? O que eles estão expressando é o resultado da sua elaboração intelectual de uma percepção primitiva e esse resultado é deploravelmente mais pobre do que a percepção. Tanto que Zenão, Parmênides e Heráclito sabiam que estavam no mesmo mundo. Mas se eles estavam no mesmo mundo, como é que eles viam o mundo tão diferente assim? Eles não o viam diferentemente, eles apenas o expressaram e o trabalharam intelectualmente de maneira diferente, porque a razão humana é extremamente limitada em comparação com o mundo da percepção real.

No mundo da percepção real há mais conhecimento do que aquilo que nós efetivamente percebemos. Por baixo do mundo das suas percepções, existe algo que eu chamo de “conhecimento por presença”. É aquilo que não foi percebido, mas que está embaixo do que foi percebido, e que é condição absolutamente necessária para que você perceba todas as outras coisas. Não é que ele não chegue à sua consciência — ele sequer chega à sua inconsciência. Ele simplesmente está ali: é o mundo no qual você está. Tudo o que está no seu inconsciente é limitado a você, porque veio ou da memória, ou de algum processo interno seu. Aquilo se passa dentro de você de algum modo. Mas durante esse tempo todo você esteve num mundo real, você é parcela desse mundo real, e tudo o que você pensa toma este mundo real como um pressuposto — e está muito certo que o tome.

À medida que vai passando o tempo, as várias tentativas de expressão da percepção do mundo, sejam artísticas ou filosóficas, tornam-se patrimônio cultural, elas adquirem uma espécie de densidade bibliográfica e cultural, por assim dizer, e são passadas como patrimônio. A aquisição desse patrimônio pode ser uma experiência tão pesada que ela encobre o conhecimento do mundo real a ponto de você confundir o conhecimento efetivo do mundo real com a sua representação simbólica. Você passa a acreditar que a vivência imediata que você tem do mundo é uma criação cultural mas, na verdade, ela é a base sobre a qual é possível haver criações culturais.

Desde as últimas décadas apareceram uma série de estudos sobre a comunicação não-verbal, ressonância mórfica etc., e isso tornou possível a utilização de uma linguagem científica e filosófica para insinuar algo desse “conhecimento por presença”. Nesse sentido, todo o trabalho de Antônio Damásio (apesar de confundir-se na terminologia), e sobretudo a obra de Rupert Sheldrake são descobertas extremamente importantes, porque nos permitem expressar na linguagem da razão algo que sempre esteve por baixo da experiência da razão, tornando essa experiência possível mas, ao mesmo tempo, sendo encoberto por ela.

Na aquisição da técnica filosófica, vamos acrescentar esse elemento, que eu chamo de “conhecimento por presença”, e que foi bastante negligenciado ao longo da história da filosofia. Ele sempre foi dado por pressuposto, mas nunca foi e nunca pôde ser trabalhado como hoje, graças a essas elaborações científicas mais recentes.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 008, 23/05/2009.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: