O eu transcendental – Olavo de Carvalho

“Existem dois objetivos diferentes para quem quer que entre numa vida de estudos:

a) o primeiro é a ambição de tornar-se um olhar abrangente. É como se, pela imaginação, pelo esforço, tal sujeito se transpusesse a um outro plano de onde contempla as coisas deste mundo, contempla a natureza, contempla a História, contempla os fatos, em busca de obter uma visão geral organizada. Este tipo de ascensão imaginativa pode criar uma sensação muito boa. Jacob Burckhardt, no final do livro Considerações Sobre a História Universal, descreve uma coisa deliciosa que ele chama de “a suprema beatitude do entendimento”: o sujeito se coloca num plano superior e, deste modo, ele observa todo o fluxo das desgraças, das tragédias e comédias humanas, sem participar pessoalmente daquilo, mas contemplando o espetáculo como se fosse um objeto estético, por assim dizer. Esta é geralmente a atitude de quem entra nesse negócio e quase todos buscam isso.

b) Outros buscam um pouco mais do que isto: eles querem chegar a uma compreensão do fluxo total para poder dirigi-lo ou poder influenciá-lo. É aquele negócio de Karl Marx de o indivíduo não interpretar o mundo, mas compreendê-lo. O sujeito que entra nessa perspectiva de tipo marxista ainda está dentro da ótica que eu mencionei antes, ainda está em busca da “beatitude do entendimento”, com a diferença que ele não se contenta só com a beatitude — não quer só contemplar as coisas como se fosse um deus—, mas ele quer, de lá de cima de onde ele está, influenciar o fluxo das coisas. Ele quer transformar o mundo e moldá-lo à sua imagem e semelhança.

Estas duas atitudes — a) a busca da contemplação da realidade e a contemplação estética, b) e a busca do ponto de observação privilegiado desde onde o curso das coisas pode ser alterado — têm sido ao longo dos últimos séculos a motivação básica das pessoas que entram na vida intelectual. Um pouco dessas duas atitudes é até certo ponto inevitável, elas são um componente da própria vida intelectual. A busca de um recuo cognitivo de onde o estudioso possa enxergar as coisas, até a busca de uma própria objetividade, de uma própria imparcialidade, de uma própria idoneidade implica este recuo, esta retirada para um plano superior. Até certo ponto isto é inevitável.

Digamos que isso alcança uma culminação em Kant, na ideia do “eu transcendental”. Este “eu transcendental” é aquele posto de observação privilegiado desde o qual você compreende não só o mundo da experiência, o mundo que lhe chegou através dos fatos, mas compreende a própria compreensão que tem desses fatos, colocando-se naquele plano onde as condições ocultas que permitiram a experiência — mas que só se revelam no curso da própria experiência — lhes são por fim revelados e você se torna uma espécie da consciência da consciência.

Tudo isso, como eu disse, até certo ponto é inevitável, são componentes técnicos, por assim dizer, da vida intelectual. Mas tomado como objetivo humano, essas atitudes se baseiam em uma premissa absolutamente falsa, que é a de que nós podemos efetivamente nos colocar acima da realidade e observá-la como se fossemos o próprio Deus, por exemplo. Há nessa coisa toda uma falha fundamental. Notem bem, eu digo isso para vocês porque durante anos — eu não estou falando assim ex cathedra — essa foi também a minha atitude. Quando eu li no Burckhardt essa coisa da “suprema beatitude do entendimento”, eu falei “É isso o que eu quero. Isso aqui é uma maravilha!” Só anos mais tarde é que eu fui compreender que aquilo se baseava em uma falha existencial causada justamente pela perda da perspectiva verdadeiramente espiritual. Quando eu falo perspectiva espiritual eu não quero dizer uma crença religiosa, eu não quero dizer uma devoção, nada disso, mas a simples consciência que o indivíduo tem de que acima dele existe um observador onisciente.

Quando o sujeito entende que existe um observador onisciente acima dele, ele entende que não será jamais esse observador onisciente, que não pode se converter n’Ele. O máximo que pode é permitir que Ele vá lhe revelando aos poucos aquilo que ele ignorava até sobre si mesmo. Então, na hora que o sujeito descobre isso, ele percebe que a busca de uma posição privilegiada, um posto privilegiado de observação, como fala o Burckhardt, é uma falácia, é uma mentira existencial, não é uma coisa verdadeira — nós não estamos, jamais, acima de nós mesmos.

Nós podemos comparar essa atitude burckhardtiana com a atitude de Santo Agostinho, onde o que ele busca é sobretudo a compreensão dele mesmo, não como ego transcendental, não como sujeito do conhecimento, mas como sujeito humano do mundo da ação, da incerteza, do pecado etc. Ou seja, Agostinho está falando do seu “eu” verdadeiro, do seu “eu” histórico, do seu “eu” temporal, não tem nenhum “eu transcendental” ali. Existe o narrador que é o autor da confissão, que é o homem que está se confessando, e acima dele existe o observador onisciente. Não tem nenhum “eu transcendental” funcionando como intermediário, não há um “eu” acima do “eu”; o único “eu” que há acima do “eu” é o “Eu” de Deus mesmo.

O “eu transcendental” é uma espécie de pseudodeus que aparece a partir de um certo momento da História, obviamente com René Descartes. Descartes busca aquele ponto de apoio universal onde ele possa ter certeza absoluta; e ele acredita que encontra esse ponto de apoio na consciência da consciência. Eu digo: Olha! Bela porcaria a consciência que o indivíduo tem da sua consciência. Primeiro, porque ela não é permanente, ela se dissolve, ela se apaga cinco minutos depois. Segundo, quando o indivíduo acredita que ela é uma coisa permanente é porque ele está confundindo o seu “eu” verdadeiro, o seu “eu” histórico — que é o “eu” da narrativa —, com a definição abstrata do “eu” consciente, o “ego filosófico”; isto é, o “eu” do qual se fala nos tratados de teoria do conhecimento. Este “eu” como puro conhecedor de fato não existe, ele é apenas um papel que o “eu” histórico, concreto e biográfico do sujeito representa por momentos. E se tal indivíduo acreditar que este “eu” observador tem uma existência por si mesmo, ele está se enganando.

Ao longo da história do pensamento ocidental, nos últimos quatro séculos, nós vemos um crescimento desmedido da crença nesse “eu” observador que vive na “suprema beatitude do conhecimento” ou que desde dessas alturas comanda o processo histórico. Tudo isso é um processo de autodivinização. (…) O sujeito finge que ele se coloca numa posição superior para observar melhor as coisas. Mas ele tem de saber que ele é como, por exemplo, aquele negócio do ex-ministro José Maria Alkmin sobre a revolução de 1964. Telefonaram para ele querendo saber onde estava Minas, se estava de um lado ou de outro; e ele fala “Minas está onde sempre esteve.”

Então, basta saber que o indivíduo está onde sempre esteve. E ele esteve exatamente no lugar histórico, temporal, concreto, onde se desenrola a sua miserável história pessoal com todos os seus temores, os seus fracassos, os seus preconceitos, as suas expectativas, as suas ilusões etc. E este é exatamente o terreno onde Jean Guitton diz que nós devemos cavar, como Agostinho cavou. Agostinho não procurou se colocar acima de si mesmo, mas, ao contrário, procurou mergulhar na realidade concreta da sua história pessoal sabendo que acima dele não havia nenhum “eu transcendental”, mas havia um observador onisciente que não era ele mesmo.”


Olavo de Carvalho – Curso Online de Filosofia: Aula 9, 06/06/2009.

Esta publicação foi feita a partir da transcrição da aula, disponibilizada no site do curso: seminariodefilosofia.org. A transcrição não foi revista ou corrigida pelo Olavo de Carvalho.


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