O eu observador de George Gurdjieff – Olavo de Carvalho

“No século XX esta coisa do “eu observador” chega a um paroxismo, em uma escola esotérica ocultista do George Gurdjieff. Gurdjieff ensinava que o sujeito devia desenvolver ao lado do seu “eu cotidiano” — que ele considerava ilusório — um “eu observador”; esse é um termo da escola gurdjieffiana. O “eu observador” não participa dos acontecimentos, ele não toma partido, não decide, ele só toma nota do que está acontecendo, ele é totalmente neutro. E o Gurdjieff fazia disto não uma doutrina filosófica, mas uma prática. Quer dizer, as pessoas passavam anos se desidentificando de si mesmas e se colocando no ponto de vista de um “eu observador”.

Ora, de tanto elas se identificarem com o “eu observador”, o “eu cotidiano” delas acabava se tornando irrelevante. E toda a autoridade era transferida para um ego que nada decidia, apenas observava. Qual é o resultado espiritual obtido com isso? A força de não tomar partido. Se o seu “eu superior” não toma partido e não decide nada, então é tudo absolutamente indiferente, ou seja, em poucos meses de prática o sujeito se tornava um indivíduo totalmente amoral e cínico. É isto que conseguia essa escola, este é o grande resultado espiritual obtido ao ponto que, se o sujeito tivesse que, digamos, matar a sua mãezinha, o seu “eu observador” observaria aquilo com a maior neutralidade.

Esse pretenso exercício espiritual que supostamente iria elevar as pessoas, na verdade as estupidificava completamente e, ao mesmo tempo de estupidificá-las, lhes dava uma sensação de poder extraordinária, porque elas tinham se retirado para a esfera superior da “suprema beatitude do conhecimento”. Os acontecimentos humanos agora, para elas, eram tão neutros quanto a vida de um formigueiro ou uma comunidade de baratas. O sujeito começava a olhar não só ao seu “eu concreto”, mas os demais “eus” concretos como se fossem pequenas criaturinhas que se agitavam em um mundinho insignificante, enquanto ele pairava nas alturas da pura observação. Eu não posso negar que, sob este aspecto, Gurdjieff era um legítimo herdeiro de Kant e Descartes. Embora ele fosse um camarada que vinha do Oriente, ele estava levando às suas últimas conseqüências uma tradição filosófica ocidental.

Quando o estudioso se coloca do ponto de vista desse “eu superior”, “eu transcendental”, “eu observador”, ou qualquer porcaria dessa, o objetivo dos seus estudos, da sua vida intelectual, há de chegar a um conhecimento da objetividade do mundo tal como vista de fora e de cima. Só que acontece que este mundo tal como ele o vê, por definição, não existe. Porque esse sujeito na realidade jamais esteve na posição deste “eu observador”, este é apenas um papel que esse indivíduo está desempenhando. É uma das coisas curiosas do gurdjieffismo, o que precisamente Gurdjieff dizia aos discípulos: “Vocês têm uma infinidade de “eus”, nenhum deles vale nada, tudo isso aí é ilusão”.

Bom, tudo isso aí pode até acontecer, porém, o “eu observador” é certamente mais fictício do que todos eles, porque ele é criado premeditadamente, ele é um papel que o estudioso desempenha e passa a acreditar nesse papel. Ora, quando ele acredita que o seu verdadeiro “eu” é este personagem fictício que está lá nas alturas observando tudo e que aquele seu “eu histórico”, concreto, que decide, que sofre, que teme etc., é irreal, então aí é que esse indivíduo está no supra-sumo da irrealidade, porque ele está negando a sua própria substância da sua história. Este sujeito está totalmente alienado, ele está fazendo a anti-confissão.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 009, 06/06/2009.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: