Assumir a realidade concreta da sua vida pessoal biográfica temporal é um tesouro para vida intelectual – Olavo de Carvalho

“A recusa da realidade, da condição encarnada, da condição histórica temporal humana com toda a sua fragilidade e miséria, é uma característica do gnosticismo. O gnóstico é um sujeito que não está aguentando o mundo então ele finge que esta acima do mundo.

(…) Eu me encantava com essas coisas quando eu era jovem. Encantei-me com Kant, com Gurdjieff, essa coisa toda. Encantei-me com místicas orientais, ioga etc. E hoje eu percebo que o coeficiente de alienação que existe em tudo isso é prodigioso. E, por outro lado, a atração que isto exerce sobre as pessoas pode ser uma das principais fontes de inspiração da vocação intelectual. Quer dizer, o sujeito vai estudar para ele se sobrepor a este rio de misérias, tormentos e sofrimentos humanos e se elevar à “suprema beatitude do conhecimento”.

Desde logo, o princípio número um da ética da vida intelectual é: “cave onde você esta” — isto é uma fórmula de Jean Guitton. E quem nos deu a lição de cavar onde você esta é exatamente Agostinho, porque ele percebeu que a realidade da vida concreta por mais modesta, humilde e até humilhante que seja, é um negócio precioso, porque ela está acontecendo mesmo, ela é uma realidade, não é um pensamento que você teve. Mesmo os pensamentos que você pensou, você os pensou realmente. Uma coisa é o pensamento no seu conteúdo, outra coisa é um pensamento considerado como acontecimento da sua vida interior, “no dia tal, às tantas horas, eu pensei tal coisa”.

Essa coisa do Agostinho, de assumir a realidade concreta da sua vida pessoal biográfica temporal, é um tesouro para vida intelectual. Porque esta vida histórica biográfica temporal efetivamente aconteceu, ela não foi inventada, então ela dá uma base de realidade. Você tem um material que não veio de você, que veio da realidade; ali você está pisando em terra firme. E isto vai ser mais tarde o critério de aferição de todos os conhecimentos. O que quer que você pense, creia ou imagine, mas que não tenha raiz nessa individualidade concreta, histórica, temporal, é falso. É falso porque não é seu, é um teatro mental que você está vivendo. Claro, o teatro mental é um dos grandes recursos do conhecimento humano. Eu mesmo recomendei que ao ler vários autores você os incorporasse como papéis que você está representando, um pouco de acordo com a técnica de Constantine Stanislavsky de você se identificar profundamente com o personagem, buscando os pontos de convergência entre os sentimentos seus e os sentimentos dele. Quer dizer: onde, quando e como você sentiu igual àquele personagem ou, se não sentiu igual, buscar um análogo. Eu mesmo recomendei isso, então eu sei que o teatro mental é um instrumento indispensável do aprendizado. Mas o teatro mental serve para alguma coisa desde que você saiba que é um teatro e consiga depois sair do teatro e voltar para casa.

Agora, se você fica lá e fica achando que de fato você é Aristóteles ou Platão, ou o autor que você está lendo, então você pirou. É como naquela história do Pirandello, que acreditava que era o rei Henrique IV e obrigava todo mundo a se comportar como se fosse a corte do Henrique IV; e os caras até acabaram acreditando, quer dizer, enganaram a si mesmos. Essa é a grande parábola do mundo moderno: o sujeito acreditou no seu teatro mental com tal intensidade que ele fez os outros acreditarem.

O movimento ideológico de massas é exatamente isso: é uma pessoa maligna, doente, incapaz de suportar a realidade da sua própria miséria, que escapa para um mundo idealizado, teatral, e desempenha aquele papel com tal verossimilhança, com tal intensidade, com tal devoção, que faz os outros representarem aquilo mesmo, fugindo, portanto, da realidade das suas vidas. Por exemplo, quando você vê aqueles movimentos comunistas, aquela multidão de classe média alta e de classe alta tentando sentir proletariamente, falando “proletariado, proletariado, proletariado”, ora, não tem nenhum proletário lá, jamais! O próprio Karl Marx, pelo menos até o momento em que ele escreveu o Manifesto Comunista, ele nunca tinha visto um proletário. Engels sim, porque ele via o proletário da posição do burguês, ele era um industrial, ele tinha empregados. Karl Marx não tinha nem isso, ele não tinha visto o proletariado nem do ponto de vista burguês, ele não conhecia nenhum proletário, era tudo inventado.

Então você está convidando as pessoas a participar do seu teatro mental. Este ato mental pode trazer para a pessoa uma consolação, uma segurança, um sentimento, uma ilusão de sentido da vida. (…) Toda pessoa que entra numa universidade, a primeira coisa que ela recebe é um convite para ela ser arrebatada para este mundo superior. Então, não é de estranhar que a própria linguagem dessas pessoas adquira, logo no começo — por uma espécie de impregnação, por uma espécie de osmose verbal —, aquele estilo pedante, meio rococó com que falam, por exemplo, os professores da USP. Todos falam assim, todos falam igual. Por que eles têm de falar assim? Porque essa linguagem é necessária para manter a ilusão do “eu transcendental”. Nós nos arrebatamos todos para um outro plano, nós somos agora, por assim dizer, a classe revolucionaria, nós somos o novo “Príncipe” do Maquiavel, em suma, nós somos o “Imbecil coletivo” e nós nos achamos lindos uns aos outros, e desde essas alturas nós podemos passar a vida como, por exemplo, Roberto Mangabeira Unger.

(…) Eu compreendo o atrativo que isso exerce sobre as pessoas, mas, ao mesmo tempo, eu sei que daí não vai sair nada que preste.”


Olavo de Carvalho – Curso online de filosofia: aula 009, 06/06/2009.


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